Quando meu irmãozinho nasceu é o primeiro livro de Walcyr Carrasco. Saiu em 1982 pela Editora Paulinas, antes de Cortina de Vidro, antes de Xica da Silva e décadas antes do Emmy. O tema é o filho único que descobre que vai deixar de ser único. Ciúme, despeito, medo de perder os pais e medo de cair para um papel menor: a Moderna repete esses sentimentos na sinopse da reedição, e diz que o drama aumenta justamente quando o bebê chega para quem não tinha irmão.
A edição à venda hoje é da Moderna Literatura, série Uma história puxa a outra, com ilustração de Suppa. São 104 páginas, cerca de 20 por 24 centímetros, ISBN 9788516079239. A faixa etária declarada começa aos 8 anos. A indicação escolar é 3º e 4º anos, leitor em progresso ou fluente. Assunto: relação entre irmãos e relação familiar. Não é a novela, não é o juvenil de Aleph e não é a adaptação de Cyrano.
O que o texto promete a essa idade
A editora apresenta o livro como uma história capaz de comover e também de alegrar, em torno de um problema que ela chama sem eufemismo: a sensação de rejeição pelos próprios pais quando outra criança entra na casa. O tom, na ficha, é o de obra curta para leitura compartilhada ou para quem já lê com fluência no fundamental 1. Há material para o professor e indicação dentro de projetos didáticos da própria Moderna, como Buriti e Buriti Plus.
Isso fixa o uso. Não é romance de adolescente, como Meu lugar no mundo, em que o irmão já é campeão de natação e a crise envolve morte e redes. Aqui o irmão ainda está nascendo. O medo é anterior ao bebê de fato ocupar o berço. A criança de 8, 9 ou 10 anos reconhece a cena sem precisar do noticiário de novela.
Por que esse título explica o autor
Quem só conhece Walcyr pelas faixas da Globo perde o começo. O livro de 1982 nasce do período em que ele escrevia contos infantis na revista Recreio, da Abril, depois de passar por jornais e por Veja, IstoÉ e Contigo!. A Paulinas publicou o original. A partir de 2012, a Moderna passou a ser a editora exclusiva, e os títulos antigos ganharam versão nova. Quando meu irmãozinho nasceu é um desses casos: a história é a de 1982, o exemplar corrente é o da Moderna, ilustrado por Suppa, com o ISBN da reedição.
O link de compra da própria editora leva à Amazon, no código 8516079236, capa comum. É o item certo para quem quer esse livro, não uma coletânea nem o volume juvenil de 2022. Família com um segundo filho a caminho, ou professor do 3º e do 4º ano, encontra aqui o Carrasco anterior à teledramaturgia, já interessado no que uma casa sente quando a atenção se divide.
O que esta edição não é
Não é paradidático de gramática, não traz personagens de Alma Gêmea ou de Êta Mundo Bom!, e não discute suicídio, bullying ou internet — esses assuntos estão em Meu lugar no mundo, para leitores a partir de 13 anos. Também não é a peça Batom nem o Êxtase do Prêmio Shell. É um infantil de relação entre irmãos, 104 páginas, ficção.
Ler esse livro ao lado dos outros dois deixa a estante mais honesta. Primeiro veio o bebê e o ciúme, em 1982. Depois veio Cirano e o nariz, para o fundamental 2. Bem mais tarde veio Aleph, o irmão que não é o atleta. A novela fez a fama. Estes três títulos mostram o que Walcyr Carrasco escreve quando o capítulo não precisa ir ao ar no dia seguinte.



