O Rimário é o livro de sonetos que Aloysio de Castro publicou em Paris em 1926, nas oficinas Ducros et Colas, com ilustrações de Alfredo Guido. Não é tratado de clínica e não reúne a obra poética inteira. É o volume em que o médico da cadeira 5 trata o verso como ofício próprio, doze anos depois do Tractado de semiótica nervosa.
Quem abre a página de textos escolhidos da Academia Brasileira de Letras cai em dois sonetos com a indicação seca Rimário, 1926. Ars Suprema passa por mármore, gema, brocado e pintura e reserva ao verso o último degrau: pérolas e estrelas. Hora Esquisita cabe num encontro que já é despedida. Um beijo, um minuto, a vida inteira daquele instante. A Academia publica os poemas. O livro é a fonte que ela cita.
O que a edição de 1926 contém
A primeira edição saiu em Paris, não no Rio. O impressor é Ducros et Colas. O ano, no colofão da época, vem em algarismos romanos: MCMXXVI. Alfredo Guido assina as ilustrações, desenhos em preto e branco no miolo. Registros de exemplares falam num volume de grande formato, em torno de 170 a 177 páginas. Um catálogo descreve folhas soltas reunidas em capa. Outro, um exemplar encadernado. A diferença é de exemplar, não de outro livro.
O título na capa da época é Rimario de Aloysio de Castro, sem acento, como a grafia que ele usava. Buscar só “Rimário” em catálogo moderno pode perder o registro antigo. Buscar só “Aloísio”, com i, pode perder a capa, que traz Aloysio. As duas grafias são a mesma pessoa e o mesmo volume.
Por que o livro aparece nesse ponto da vida
Em 1926 ele não era um estreante à procura de editor. Já tinha a tese de 1903, o Tractado de 1914, a cátedra desde 1915 e a cadeira 5 desde a posse de 1919. Naquele ano específico a Academia o lista como secretário-geral. O Rimário sai nesse calendário, impresso fora do país, com artista convidado. A biografia oficial diz que o gosto pelas letras veio do pai, Francisco de Castro. O livro é a prova pública desse gosto, não um anexo da clínica.
A forma confirma o recorte. Uma nota dos Arquivos de Neuro-Psiquiatria, ao ler a poesia dos neurologistas que chegaram à Academia, aponta em Aloysio de Castro o apego a formas antigas e, em especial, ao soneto. Não há, nesse julgamento, verso de ruptura modernista. Há oficina de rima, medida e fecho. Quem espera o poema-piada de 1922 ou o verso livre da geração seguinte vai achar o Rimário antigo de propósito.
O que este volume não é
O ano seguinte não é uma segunda edição. Os carmes, de 1928, saiu no Rio pela F. Briguiet e é outro livro. As sete dores e as sete alegrias da Virgem, de 1929, é poema religioso, ilustrado de novo por Alfredo Guido, impresso na Imprensa Nacional, com tiragem especial de 150 exemplares em papel Manchester Ledger. Tendresse, de 1932, está em francês. Caminhos, de 1945, entra na lista dos Arquivos de Neuro-Psiquiatria como título à parte. Comprar ou consultar o Rimário não entrega esses livros.
Também não entrega a conferência sobre Chopin. A expressão sentimental na música de Chopin é texto de 1927, lido na Sociedade de Cultura Artística de São Paulo antes de um recital de Antonietta Rudge. Cabe na biografia musical. Não está dentro do Rimário, que é de sonetos e do ano anterior.
Como o exemplar circula agora
Não há reimpressão comercial estável nas livrarias gerais. O caminho real é o sebo e o catálogo de antigo. A livraria Castro e Silva, em Lisboa, lista um exemplar da primeira edição parisiense: dedicatória do autor na folha de anterrosto, lombada gasta, miolo manuseado, cadernos soltos. Esse estado descreve aquela peça, não a edição inteira. Serve para quem quer o objeto de 1926, não uma leitura de bolso.
O leitor que só precisa dos poemas mais citados pode começar pelos textos que a Academia Brasileira de Letras mantém abertos, com a data do Rimário na assinatura. O leitor que quer o volume, a capa desenhada por Alfredo Guido e a dedicatória, quando houver, depende do exemplar físico. As duas leituras não se substituem. Uma mostra o soneto. A outra mostra o livro como ele saiu da oficina francesa.
Lugar do Rimário na obra
Na clínica, o nome de Aloysio de Castro ficou preso ao exame neurológico e, mais tarde, ao Instituto Estadual de Cardiologia que recebeu o nome dele em 1964. Na literatura de academia, ficou preso a este livro e aos cargos da cadeira 5. O Rimário é a peça que impede a redução. Sem ele, o perfil vira só cátedra e hospital. Com ele, aparece o escritor que a Academia recebeu em 1919 e que, sete anos depois, mandou imprimir os sonetos em Paris.
Quem estuda o soneto brasileiro das primeiras décadas do século XX tem aqui um volume datado, ilustrado e assinado por um acadêmico em exercício. Quem estuda a medicina do Rio tem de procurar o Tractado de 1914. Os dois livros se encontram na biografia e se separam no miolo. O Rimário não ensina a examinar um doente. Mostra como aquele médico escreveu quando o assunto deixou de ser a marcha, o tônus e a paralisia.

