Em 1914, Aloísio de Castro publicou o Tractado de semiótica nervosa, livro que a Revista Brasileira de Neurologia descreve como o primeiro do país inteiramente dedicado à neurossemiologia. A mesma nota histórica registra fotografias de pacientes no lugar dos desenhos habituais dos compêndios e trechos de filme usados como peça de ensino. Nas listas da Academia Brasileira de Letras o autor entra como Aloysio de Castro.
Quem procura o nome encontra o clínico da Faculdade de Medicina do Rio, o poeta dos sonetos impressos em Paris e o terceiro ocupante da cadeira 5, eleito em 1917 na sucessão de Oswaldo Cruz. Também encontra um deputado baiano de grafia parecida. Este perfil fica com o médico carioca, nascido em 14 de junho de 1881 e morto na mesma cidade em 7 de outubro de 1959.
Quem é Aloísio de Castro
Aloysio de Castro, forma usada pela Academia Brasileira de Letras, pela Academia Nacional de Medicina e pelos livros que ele assinou, é o mesmo Aloísio das buscas atuais. Filho de Francisco de Castro e de Maria Joana Monteiro Pereira de Castro, nasceu e morreu no Rio. A biografia da Academia de Letras atribui ao pai o gosto pelas letras, pelas artes e pela música.
Não é o Aluísio de Castro político, parlamentar da Constituinte de 1946 e deputado ligado à Bahia. Datas, cidade e ofício não coincidem. O carioca de 1881 foi neurologista, professor e poeta.
A Academia Nacional de Medicina o descreve como médico, poeta, poliglota e musicista. O francês de Tendresse, em 1932, e as peças para piano e canto dão lastro a esses dois últimos termos, que a ficha institucional não explica sozinha.
Formação no Rio e a temporada em Paris
Os estudos fundamentais foram no Colégio Kopke, com latim na escola e também em casa, com professor particular. Entrou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e colou grau de doutor em 1903. A tese chamava-se Das desordens da marcha e seu valor clínico. A própria faculdade concedeu, com o grau, o prêmio de viagem à Europa.
Antes do diploma ele já estava dentro da clínica. Foi interno de Clínica Propedêutica de 1901 a 1903 e assistente da mesma cadeira de 1904 a 1908. A Academia Nacional de Medicina situa esse aprendizado junto de Miguel Couto, em relação de mestre e discípulo. Em 1906 passou a subcomissário de higiene e assistência pública do Rio, cargo que manteve até 1908.
A ida à Europa tem data mais precisa numa nota da Revista Brasileira de Neurologia: em 1907 ele estava de volta ao Rio depois de treinamento em Paris com Pierre Marie. No mesmo ano, segundo esse relato, instalou o primeiro ambulatório didático da cidade. A tese sobre a marcha, o estágio parisiense e o ambulatório antecedem o livro de 1914.
Cátedra, Santa Casa e o ensino nacional
A Academia de Letras resume a docência assim: professor substituto e, em seguida, catedrático de Patologia Médica e de Clínica Médica, de 1915 a 1940. Foi diretor geral da Faculdade de Medicina de 1915 a 1924 e médico da Santa Casa da Misericórdia. A Revista Brasileira de Neurologia data a aposentadoria da cátedra em 3 de dezembro de 1940, aos 59 anos. Quase vinte anos ainda se passaram entre a saída da faculdade e a morte, ocupados por texto, música e reuniões científicas.
De 1927 a 1932 ele dirigiu o Departamento Nacional de Ensino. O cargo é de administração do ensino na capital federal, no mesmo período em que os versos continuavam a sair. A biografia da Academia registra a função ao lado da cátedra, sem transformá-la em plataforma.
Na Academia Nacional de Medicina a entrada foi cedo. Eleição em 13 de junho de 1904, posse em 21 de julho, com a memória Sobre o Síndrome de Stokes-Adams. Tornou-se emérito em 23 de novembro de 1933 e é patrono da cadeira 58. Presidiu a casa em dois períodos, de 1937 a 1942 e de 1943 a 1945. A ficha ainda lista o título de professor honoris causa da Faculdade de Medicina de Niterói, a condição de professor emérito da Universidade do Brasil e a Grã-Cruz do Mérito Médico, concedida pelo governo brasileiro, sem data publicada nessa página.
O que o Tractado mudou no exame do doente
O Tractado de semiótica nervosa saiu em 1914, quando ele já era nome da faculdade. O prefácio, reproduzido na imprensa daquele ano e guardado na hemeroteca da Biblioteca Nacional, explica a origem do volume: o Tractado de Clínica Propedêutica do pai, Francisco de Castro, tinha ficado inconcluso. O filho não quis fingir que o livro novo era continuação direta daqueles tomos. Mudou o título, guardou o método didático e concentrou a matéria nervosa, que tinha crescido a ponto de pedir dois volumes.
O primeiro tomo, de cerca de 500 páginas segundo essa notícia de 1914, trata da semiótica das formas exteriores e da semiótica das alterações da motilidade: tônus, movimentos involuntários, paralisias, coordenação e equilíbrio. A Revista Brasileira de Neurologia acrescenta o que o texto sozinho não mostra: fotografias de casos nacionais e trechos de filme, num momento em que o compêndio brasileiro ainda dependia do desenho. Pedro Nava, citado nessa nota, viu aí uma ruptura nos livros de ensino da época.
Em 1935 saiu a segunda edição, revista e aumentada, com o título enxuto Semiótica nervosa. A dedicatória é ao pai e a Miguel Couto, já morto. É o mesmo projeto, não um livro paralelo. A Academia Nacional de Medicina ainda aponta, no conjunto médico, Notas e observações clínicas em três volumes, Distrofia gênito-glandular em parceria com Oscar de Souza e Discursos, conferências e escritos vários.
- 1903: tese sobre as desordens da marcha
- 1914: primeiro tomo do Tractado de semiótica nervosa
- 1935: Semiótica nervosa, edição revista e dedicada ao pai e a Miguel Couto
- Três volumes de notas clínicas e o trabalho com Oscar de Souza sobre distrofia gênito-glandular
Quem estuda a medicina brasileira do começo do século XX encontra esse conjunto antes de encontrar os sonetos. O verso veio depois, e com outra oficina.
A cadeira 5 da Academia Brasileira de Letras
Aloysio de Castro foi o terceiro ocupante da cadeira 5. A eleição é de 14 de novembro de 1917, na sucessão de Oswaldo Cruz. A posse esperou até 15 de abril de 1919, com recepção de Afrânio Peixoto. Ele próprio recebeu Laudelino Freire, Roquette-Pinto e Celso Vieira. Depois da morte, em 1959, a cadeira passou a Cândido Motta Filho.
Os cargos internos estão datados na biografia da Academia: segundo-secretário em 1921 e 1922, secretário-geral em 1926, presidente em 1930 e de novo em 1951. O ano de 1926 importa por outro motivo. Foi nele que as oficinas Ducros et Colas, em Paris, imprimiram o Rimário, com ilustrações de Alfredo Guido. O livro de sonetos sai no mesmo ano em que ele ocupa a secretaria-geral. A coincidência está no calendário. Não precisa de romance em volta.
Fora da cadeira 5, a biografia da Academia lista a Comissão de Cooperação Intelectual da Liga das Nações, de 1922 a 1930, a direção do Instituto Ítalo-Brasileiro de Alta Cultura e o lugar de membro efetivo da Academia Pontifícia das Ciências. Entram ainda a Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Medicina Legal do Rio, a Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio e de São Paulo, o Instituto Brasileiro da História da Medicina e o Conservatório Brasileiro de Música. A ficha da Academia Nacional de Medicina soma o professorado honorário em Montevidéu e Buenos Aires e a correspondência com a Academia de Medicina de Paris e a Academia de Ciências de Lisboa.
Sonetos, francês e a noite de Chopin
O Rimário, de 1926, é o livro de sonetos que a Academia cita nos textos escolhidos. Em volta ficam outros volumes: Os carmes (1928, F. Briguiet), As sete dores e as sete alegrias da Virgem (1929, Imprensa Nacional, ilustrações de Alfredo Guido, tiragem especial de 150 exemplares) e Tendresse (1932, em francês). Os Arquivos de Neuro-Psiquiatria ainda arrolam Caminhos, de 1945, e leem essa poesia como formalmente conservadora, com preferência pelo soneto.
Em 1927, a Sociedade de Cultura Artística de São Paulo o chamou ao teatro da casa. A conferência A expressão sentimental na música de Chopin antecedeu, na mesma noite, um recital de Antonietta Rudge. A Academia de Letras registra, ao lado dos ensaios, peças para piano e canto.
Para o leitor de literatura, a porta é o Rimário. Para quem chega pela clínica, a porta é o Tractado de 1914 e a cátedra de 1915 a 1940.
O nome que ficou no Humaitá
Ele não fundou o hospital que hoje leva seu nome. A Academia Nacional de Medicina explica a sequência com clareza: o Instituto de Cardiologia foi criado em 1941, no governo de Getúlio Vargas, e instalado no antigo Hospital dos Radialistas, no Humaitá. Em 1964, cinco anos depois da morte de Aloysio, a casa passou a chamar-se Instituto Estadual de Cardiologia Aloysio de Castro. A homenagem é posterior. Confundi-la com uma fundação em vida é o erro fácil de quem só lê a fachada.
O que está nos papéis dele são os livros, a cátedra, o ambulatório didático descrito pela revista de neurologia e os mandatos nas duas academias. A ficha da Academia Nacional de Medicina lista os cargos médicos. A biografia da Academia de Letras lista a cadeira 5, os sonetos e a música.
Duas grafias, dois ofícios. O exame da marcha, o Tractado de 1914, a presidência das duas casas e o Rimário de Paris cabem na mesma vida porque têm data. O letreiro do Humaitá veio depois.


