Se a primeira autobiografia organizava a lenda, a segunda aceita o tom de quem sabe que o tempo apertou. Rita Lee: Outra autobiografia, publicada em 2023 pela Globo Livros, retoma a voz da cantora em um período marcado pela pandemia e pelo diagnóstico de câncer de pulmão — sem abrir mão do humor ácido que sempre atravessou a prosa dela.
O livro não é apêndice cosmético. É continuação e despedida: Rita Lee volta a contar a própria história com a coragem de quem prefere o “tim-tim por tim-tim” a um epitáfio polido escrito por terceiros.
Proposta e tom
O texto oscila entre o cru e o irônico. Há memória de carreira, reflexão sobre corpo, envelhecimento, criação e a relação com o público, sempre em registro pessoal. A artista que já tinha entregue uma autobiografia em 2016 demonstra que a vida — e a doença — ainda cabiam em mais uma rodada de narrativa em primeira pessoa.
Para o leitor, o valor está na continuidade da voz: mesma franqueza, outro horizonte. Quem leu o volume de 2016 encontra aqui o desdobramento; quem chega só por este livro ainda precisa do primeiro para o mapa longo, mas já encontra a temperatura íntima e pública do último tramo da vida da autora.
- Continuação autobiográfica após o volume de 2016
- Contexto de pandemia e enfrentamento da doença
- Prosa franca, por vezes chocante, com ironia e afeto
- Leitura de despedida sem perder a personalidade da autora
Para quem é este livro
Indicado a leitores de Rita Lee, de rock brasileiro e de memórias de artistas que recusam o tom solene. Também interessa a quem estuda figura pública, gênero e cultura pop no Brasil contemporâneo: o livro documenta como uma celebridade idosa e doente escolheu continuar falando — e escrevendo — em voz alta.
Não é manual clínico nem panfleto. É literatura de memória com as marcas da autora: digressão, humor negro leve quando cabe, e recusa ao melodrama fácil.
Relação com a carreira e com o primeiro volume
A “outra” autobiografia pressupõe a primeira. Juntas, formam o arco literário em que Rita Lee reivindica a própria biografia antes que o mercado e a mitologia a engulam por completo. Musicalmente, o leitor ganha chaves de leitura para discos, turnês e fases; humanamente, ganha o retrato de alguém que manteve o controle narrativo até perto do fim.
Publicado em maio de 2023 — no entorno da morte da cantora em 8 de maio do mesmo ano —, o livro entrou imediatamente no circuito de releitura e homenagem, o que não reduz o mérito textual: a urgência biográfica já estava na página antes do luto coletivo.
Leitura prática
Uma rota útil é ler este volume depois de uma autobiografia e, em paralelo, revisitar canções e entrevistas da fase madura. O contraste entre o rock dos anos 1970 e a prosa de 2023 mostra a mesma artista em idades e urgências diferentes — e ajuda a entender por que a busca por Rita Lee permanece cultural, não só nostálgica.
Edições impressas e digitais circulam pela Globo Livros e por livrarias online, inclusive na Amazon. Confira o subtítulo Outra autobiografia na capa rosa e no retrato da autora para garantir o volume correto.



