Santos Dumont e a conquista do ar foi o livro com que o Itamaraty, em 1941, pediu ao cônsul Aluízio Napoleão uma defesa documentada de Alberto Santos Dumont. A disputa não era de frase feita. Tratava-se de organizar a vida do aeronauta e de enfrentar a tese de que os irmãos Wright teriam a prioridade do voo em aparelho mais pesado que o ar.
A primeira edição saiu naquele ano pela Imprensa Nacional, no Rio de Janeiro. Não é romance nem álbum de festa. O miolo se reparte em duas frentes. Uma acompanha a evolução aeronáutica da vida de Dumont, dos balões e dirigíveis ao 14-bis e ao Demoiselle. A outra discute a prioridade do voo em aeroplano. Na edição da Brasiliana, a narrativa abre com uma frase seca: a vida de Santos Dumont teria sido, toda ela, dedicada à conquista do ar.
Quem procura este volume
O leitor não vem atrás de uma biografia sentimental do inventor de chapelão. Vem atrás de cronologia de aparelhos, recorte de imprensa da época e do argumento de um diplomata formado em Direito. O livro serve a quem estuda história da aviação, a quem quer ver como o Estado brasileiro apresentou Dumont no exterior nos anos 1940 e a quem consulta a Coleção Brasiliana como estante de referência, não como raridade muda.
Da Imprensa Nacional à Brasiliana
Ainda na década de 1940 o texto saiu do português. A National Printing Office, no Rio, imprimiu em 1945 a tradução inglesa Santos-Dumont and the conquest of the air, feita por Luiz Victor Le Cocq d'Oliveira, em dois volumes. O segundo reúne documentos e depoimentos sobre os trabalhos aeronáuticos de Santos Dumont, em mais de uma língua. Houve também edição em espanhol pela Imprenta Nacional, por volta de 1942 e 1943, na Colección de Estudios Brasileños.
Para quem lê em português, a porta mais estável é a segunda edição, de 1957. É o volume 295 da Biblioteca Pedagógica Brasileira, série Brasiliana, quinta série, pela Companhia Editora Nacional. A folha de rosto traz o autor como Aluizio Napoleão, o título com hífen, Santos-Dumont e a conquista do ar, e a linha “Segunda edição”. Nessa versão foi suprimido o tomo de documentos e depoimentos que acompanhava o conjunto de 1941. Tratar o exemplar de 1957 como idêntico ao de 1941 é o erro mais comum de quem só olha o título.
Em 1956, o decreto que montou as festas do Ano Santos Dumont incluiu Napoleão na Comissão Executiva Nacional. A comissão decidiu reeditar o livro, com autorização do Ministério das Relações Exteriores, que detinha os direitos. A Companhia Editora Nacional lançou o volume no ano seguinte. Em 1988 o Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica promoveu uma terceira edição, pela Itatiaia, em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro, e uma versão inglesa no mesmo ano, também pela Itatiaia.
O que a segunda edição entrega
A ficha da Coleção Brasiliana descreve o recorte sem enfeite. A primeira parte, “Evolução aeronáutica de uma vida”, segue as experiências com balões, dirigíveis e o mais pesado que o ar. A segunda, “A prioridade do voo em aeroplano”, confronta outros precursores, sobretudo os irmãos Wright. A Biblioteca Digital de Obras Raras da UFRJ guarda exemplar dessa edição de 1957, catalogado como livro de Napoleão, Aluizio, pela Editora Nacional, com acesso restrito ao arquivo. A leitura aberta do mesmo volume está na Coleção Brasiliana Digital.
O que o livro não faz
Napoleão escreve com os papéis que o ministério reuniu e toma partido. A obra defende a primazia de Santos Dumont. Não é parecer de tribunal nem inventário que deixe Wright e Dumont em empate. Quem quiser a controvérsia inteira precisa ler sabendo de que lado o autor está e comparar com outras biografias do inventor. O valor do volume está no conjunto que a chancelaria decidiu publicar em nome do país, assinado por um cônsul que, décadas depois, seria o primeiro embaixador brasileiro em Pequim.
Não há preço único nem edição corrente de livraria de grande rede para tratar como novidade de prateleira. O acesso público à segunda edição passa pela página da obra na Coleção Brasiliana, onde o volume 295 pode ser lido. Exemplares de 1941, 1957 e 1988 seguem em bibliotecas e, de tempos em tempos, no mercado de usados. Antes de comprar um impresso, convém checar editora e ano. O título é o mesmo. O miolo, não.

