São Paulo de Meus Amores não conta uma trama com vilão e desenlace. É o livro em que Afonso Schmidt fixou a cidade no ano em que ela fazia quatrocentos anos, a partir das redações, das ruas e dos restos que ainda dava para apontar com o dedo.
A reunião original é de 1954. A edição que segue à venda saiu pela Paz e Terra em 12 de setembro de 2008, com 250 páginas e ISBN 978-8521905233. Não é guia turístico nem manual de bairro. É crônica de quem passou décadas dentro do jornal paulistano e resolveu guardar o que a avenida já estava apagando.
O que o volume guarda da cidade
A apresentação da edição corrente lista o que o leitor encontra lá dentro, e a lista é concreta. Há os túneis subterrâneos que comunicavam as igrejas. Há o primeiro apagão. Há o teatro do João Minhoca, o cão Cunegundes e os cafés antigos. Há os pregões de rua, as redações dos jornais pequenos, o Circo Piolin, os grupos de teatro e até a visita dos pardais.
O texto da própria edição avisa o limite: o narrador recompõe o passado pela emoção e pela memória, mais do que por um levantamento. Quem abre o livro atrás de uma história administrativa de São Paulo vai sair frustrado. Quem quer o cotidiano que um repórter antigo ainda alcançava — o nome de um cão, o apelido de um teatro, o som de um pregão — está no endereço certo.
Por que 1954, e por que a reedição de 2008
1954 não é um ano qualquer na biografia dele. Zanzalá já tinha saído em capítulo de jornal em 1928 e em livro na década seguinte. A Marcha já tinha recebido o Machado de Assis em 1942. Colônia Cecília já tinha posto no papel a experiência anarquista. As crônicas da cidade chegam quando o autor é um jornalista velho de redação, não um estreante em busca de tema.
A Paz e Terra trouxe o título de volta em 2008, depois de um intervalo longo sem o livro nas livrarias. A capa dessa edição, com o calçamento e os vultos em preto e branco, é a que a Amazon mostra hoje. Exemplares de 1954 continuam em sebo. A rota de compra de livro novo, com ficha estável, é a de 2008.
Para quem serve, e onde a crônica para
Serve a quem procura São Paulo anterior ao discurso de metrópole e aceita que o guia seja um homem de jornal, não uma comissão de festejos. Serve também a quem já leu Zanzalá e quer o avesso: lá a Serra do Mar vira cidade futura; aqui a capital é resto, café, circo e redação.
Não entrega mapa, não fecha a história da abolição e não substitui A Marcha. Não traz preço fixo nesta página porque o valor de capa muda de uma semana para outra. O que não muda é o objeto: 250 páginas, Paz e Terra, 2008, crônicas de 1954 assinadas por Afonso Schmidt. O link abaixo leva a essa edição, não a um volume homônimo de outro autor.

