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Afonso Schmidt

Affonso Schmidt

Nascimento: 1890 Cubatão, SP / São Paulo, SP
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Jornalista cubatense, autor de Zanzalá e de A Marcha. Trabalhou na Voz do Povo, na Folha e no Estadão. Machado de Assis em 1942 e Juca Pato em 1963.

Em 28 de fevereiro de 1928, o Estado de S. Paulo publicou O Homem Silencioso, capítulo de abertura de Zanzalá, de Afonso Schmidt. A novela põe uma cidade técnica na Serra do Mar, cerca de cem anos à frente, num mundo já atravessado por uma segunda guerra. Quem chega ao nome por Cubatão, por ficção científica ou pelo troféu Juca Pato encontra esse capítulo antes de encontrar a estante inteira.

Afonso Schmidt nasceu em Cubatão em 29 de junho de 1890, quando o núcleo ainda era distrito de Santos, e morreu em São Paulo em 3 de abril de 1964. Foi jornalista, contista, romancista, dramaturgo e ativista anarquista. Nos jornais também assinou Affonso Schmidt. A Enciclopédia Itaú Cultural registra mais de quarenta livros. Em 1942, a Academia Brasileira de Letras concedeu-lhe o Prêmio Machado de Assis, ligado ao romance A Marcha. Em 1963, a União Brasileira de Escritores elegeu-o Intelectual do Ano, o Juca Pato. Morreu no ano seguinte.

De Cubatão ao emprego numa editora de dicionários

Em 1905 fez exame para a Faculdade de Direito de São Paulo e não cursou a escola. Na mesma época trabalhou como puxador de trena na construção da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí. Com quase dezesseis anos, já colaborava em jornais do interior. Em 1907 atravessou para a Europa sem passaporte e sem renda assegurada. Em Paris arranjou emprego numa editora de dicionários francês-português.

De volta, ficou no jornalismo do litoral. Em 1911 publicou Janelas Abertas, o primeiro livro de poemas. Houve outra estada europeia, com um emprego curto em Milão como correspondente em língua portuguesa. Quando regressou a Santos, a Primeira Guerra Mundial estava começando. Cansado da cidade, foi para o Rio de Janeiro.

As redações que sustentaram os livros

O jornalismo não foi um pretexto para a literatura. Foi o emprego longo, e os livros saíram dele. No litoral fundou Vésper, no território em que nascera, então ainda amarrado a Santos. No Rio, entre 1918 e 1924, dirigiu Voz do Povo, órgão da Federação Operária. Em São Paulo entrou na redação de A Plebe e de A Lanterna, ao lado de Edgard Leuenroth e Oreste Ristori. Também ocupou posto na Folha e no Estado de S. Paulo, onde ficou até perto da morte.

  • Vésper, no litoral, no começo da carreira de jornalista.
  • Voz do Povo, no Rio, de 1918 a 1924, na Federação Operária.
  • A Plebe e A Lanterna, em São Paulo, na imprensa anarquista.
  • Folha e O Estado de S. Paulo, a rotina da qual não saiu no fim da vida.

Foi preso mais de uma vez por escrever o que pensava. Fez campanha contra o fascismo e o clericalismo em panfleto, livro, peça e artigo. O primeiro capítulo de Zanzalá saiu no Estadão naquela terça de fevereiro de 1928. A Marcha e A Sombra de Júlio Frank também correram em folhetim na imprensa paulistana, entre os dois jornais em que ele trabalhava. A página da Biblioteca Afonso Schmidt, da Prefeitura de São Paulo, atribui a série ao Estadão. Outros relatos põem os mesmos títulos na Folha. O que está datado é o capítulo de 1928.

O que Zanzalá pede de quem abre o livro

Zanzalá não é um apelido carinhoso de Cubatão. É uma cidade inventada, entre a Serra do Mar e o lado de lá de Paranapiacaba, habitada por gente dada a ciência e a arte e avessa à guerra. O enredo acompanha Zéfiro e Tuca. Ela recebe dos médicos a notícia de que vai morrer, e os dois procuram saída em recurso científico e em caminho espiritual. O nome foi parar numa região de São Bernardo do Campo, no Coral Zanzalá de Cubatão e na Revista Zanzalá, da Unicamp. A revista explica a palavra como flor de Deus, em referência às aleluias da Serra do Mar.

O volume de livraria não é de 1928. Nesse ano saiu o capítulo no jornal. Em 1936 a editora Spes publicou Zanzalás, com o subtítulo de novela de tempos futuros. Em 1949 o Clube do Livro pôs no mercado uma edição popular, com trechos acrescentados. Está entre os primeiros romances brasileiros de ficção científica: o capítulo é de 1928, o livro de livraria é de 1936, e a leitura posterior o trata como marco do gênero, sem fechar uma primazia absoluta. Quem percorre a literatura brasileira pelo lado da fantasia encontra esse livro cedo, e quase sempre isolado do resto da obra.

A Marcha, as crônicas e o recorte de si

A Marcha é o romance da abolição em São Paulo. A Editora Anchieta lançou o volume em 1941. No ano seguinte o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, foi para Schmidt por esse livro, ainda numa fase em que o prêmio distinguia uma obra, não só o conjunto de uma carreira. O texto acompanha o último trecho do abolicionismo paulista. Não é um panfleto solto: é romance histórico, e é por ele que o nome entra na lista da Academia.

São Paulo de Meus Amores chega mais tarde. São crônicas reunidas em 1954, no ano dos quatrocentos anos da cidade. A Paz e Terra reeditou o livro em 2008. Ali estão túneis que ligavam igrejas, o primeiro apagão, o teatro do João Minhoca, o cão Cunegundes, os cafés antigos, os pregões de rua, as redações pequenas, o Circo Piolin. É a cidade em que ele trabalhou, não a utopia da serra.

O recorte pessoal está em dois livros que a enciclopédia destaca juntos: O Menino Felipe, romance semi-autobiográfico, e A Primeira Viagem. O menino usa a paisagem de Cubatão. A viagem guarda a ida à Europa. Na poesia, o Itaú lista Mocidade (1921), Garoa (1932), Poesias (1934) e Poesia (1945). Colônia Cecília, de 1942, trata da experiência anarquista italiana no Paraná e é o livro em que a militância vira enredo, não só assinatura de jornal.

Cadeira, sindicato e o píer de Cubatão

Ocupou a cadeira número 10 da Academia Paulista de Letras, cujo patrono é Cesário Mota Jr. A própria Academia, ao recontar a sucessão dessa cadeira, registra o nome dele depois de Gustavo Teixeira. Foi sócio fundador do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo. É patrono da cadeira número 27 da Academia Paulista de Jornalismo e da cadeira 138 do Instituto Histórico e Geográfico de Santos.

Cubatão transformou o aniversário em calendário. A Semana Municipal Afonso Schmidt foi criada pela Lei número 833, de 21 de agosto de 1970, e atualizada pela Lei 1.204, de 4 de setembro de 1979. A Medalha Afonso Schmidt, instituída pelo Decreto Legislativo número 82, de 21 de junho de 1993, é dada pela Câmara de Vereadores, em sessão da semana do escritor, a quem projete o município pela arte ou pela cultura. Em 20 de dezembro de 2024 a cidade inaugurou um monumento no píer do Jardim Casqueiro.

O rosto que circula dele é tela, não fotografia de estúdio. Em março de 1964, semanas antes da morte, a pintora Wega Nery fez o retrato. Em 5 de março, em São Vicente, ele pediu por escrito que, se alguém se lembrasse dele, fosse por aquele quadro. A Prefeitura de Cubatão comprou a tela em 1970. Ela fica no Arquivo Histórico Municipal. Não há site pessoal, rede social confirmada nem CNPJ de empresa no nome dele. Morreu em 1964. A edição fácil de achar numa loja corrente é São Paulo de Meus Amores, pela Paz e Terra. Zanzalá e A Marcha aparecem mais em biblioteca e sebo do que em prateleira estável de livro novo.

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