Teatro Legislativo descreve o que Augusto Boal fez quando o método ganhou cadeira na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Eleito vereador pelo PT em 1992, exerceu o mandato de 1993 a 1997 com uma aposta explícita: não fazer teatro político de palanque, fazer teatro como política. Comunidades ensaiavam o conflito no território; o mandato tentava transformar a cena em projeto de lei. A edição da Editora 34, organizada por Fabiana Comparato e Julián Boal, devolve o livro de 1996 com texto revisado pelo autor para a versão inglesa, mais fotografias, documentos, pronunciamentos e depoimentos de colaboradores.
O volume interessa hoje por um motivo que o próprio texto não disfarça. A experiência não teve continuidade fácil nos caminhos da esquerda brasileira. Por isso permanece como peça rara: um teatrólogo no Legislativo usando Teatro Fórum, imagem e ensaio comunitário para legislar. O que se chama agora de mandato coletivo já estava, com outro nome, nesse laboratório carioca dos anos 1990.
O que o livro documenta
Não é diário íntimo nem panfleto de campanha. É o relato de quatro anos de “imaginação no poder”, na fórmula do próprio Boal, com a gramática do Teatro do Oprimido aplicada a problemas que as comunidades já viviam. O leitor vê o trânsito entre palco de rua e gabinete, a elaboração coletiva de leis e o que ele descreveu como desejo direto do povo — 13 leis aprovadas nesse desenho. Fotografias e pronunciamentos da edição atual impedem que a história vire só tese.
Fabiana Comparato estabelece o texto, traduz e anota; Julián Boal coorganiza. A edição de 2020 tem 256 páginas. Para quem só conhecia Boal pelo ensaio de 1974 ou pelos jogos, este livro desloca o retrato: o dramaturgo não parou no método de oficina. Tentou o Estado.
Para quem lê agora
Serve a quem pesquisa mandato, participação popular, teatro político e história do Rio nos anos 1990. Serve também a ativista, vereador, assessor e artista que desconfia do teatro de denúncia que termina em aplauso. O texto mostra o custo e o ganho de levar o ensaio até a lei — sem garantir que o modelo se repita por decreto.
- Relato do mandato de Boal na Câmara do Rio (1993–1997).
- Documentos, fotos e pronunciamentos da legislatura.
- Chave de leitura para o Teatro do Oprimido fora da sala de ensaio.
O que o livro não é
Não é manual de campanha eleitoral. Não é coletânea de peças. Não substitui Jogos para atores e não atores: quem quiser a gramática corporal continua precisando do volume de exercícios. Teatro Legislativo é o capítulo institucional. Lê-se para entender como o espect-ator virou constituinte informal de um mandato, e para medir o que sobrou dessa aposta três décadas depois.
A prosa de Boal, mesmo em matéria de gabinete, não abandona o teatro. Ele conta a sedução da proposta — fazer política e teatro ao mesmo tempo — e o desenho prático das sessões com as comunidades. O leitor contemporâneo pode discordar do partido, do período ou da eficácia. O que o livro impede é a caricatura: Boal vereador não foi celebridade ocupando cadeira; foi o método testado no único palco que vota lei.
Contexto de acesso
A edição da Editora 34 é a forma pública atual em português. Quem pesquisa o CTO, a Fábrica de Teatro Popular e o retorno de Boal ao Rio em 1986 encontra neste volume o desdobramento político dessa volta. Quem ensina teatro ou ciência política ganha um caso concreto, datado, com nome de cidade e de legislatura. O restante da obra explica o método; este livro mostra o dia em que o método pediu a palavra na Câmara.




