Imagem de capa do perfil de Augusto Boal
Foto de perfil de Augusto Boal

Augusto Boal

Boal

Nascimento: 1931 Rio de Janeiro
Dramaturgo carioca, criador do Teatro do Oprimido e vereador no Rio. Dirigiu o Teatro de Arena e deixou um método usado em educação, saúde mental e política.

Na Penha, o filho do padeiro português José Augusto Boal já encenava peças de família aos nove anos. Décadas depois, o mesmo Augusto Pinto Boal — engenheiro químico formado na antiga Universidade do Brasil, aluno de John Gassner em Columbia — recebia, no Abbey Theatre de Dublin, o Crossborder Award for Peace and Democracy. Entre a sala de jantar suburbana e o palco irlandês, ele inventou o espect-ator: o público que sobe à cena para ensaiar a própria vida.

Quem procura Augusto Boal hoje raramente quer só a ficha de um dramaturgo carioca. Quer o método. O Teatro do Oprimido saiu do exílio, passou por alfabetização no Peru, por um centro em Paris e voltou ao Rio como prática de escola, presídio, consultório e Câmara Municipal. É esse deslocamento — do palco para a rua, da plateia para a lei — que ainda sustenta a busca pelo nome.

Quem foi Augusto Boal

Augusto Pinto Boal nasceu no Rio de Janeiro em 16 de março de 1931 e morreu na mesma cidade em 2 de maio de 2009. Diretor, dramaturgo e ensaísta, tornou-se uma das figuras centrais do teatro contemporâneo ao recusar a plateia passiva. A frase que o resume não é de marketing: todos os seres humanos atuam e observam; somos todos espect-atores.

Filho de José Augusto Boal, padeiro originário de Justes, em Vila Real, e de Albertina Pinto, cresceu no subúrbio da Penha com três irmãos. Aos 18 anos entrou em Engenharia Química na Universidade do Brasil, atual UFRJ, e escrevia teatro em paralelo. Nos anos 1950, enquanto cursava o doutorado em química na Columbia University, em Nova York, estudou dramaturgia na School of Dramatic Arts com John Gassner — o mesmo professor de Tennessee Williams e Arthur Miller — e frequentou montagens do Actors Studio.

O contraste importa. Boal não chegou ao palco como divo da cena burguesa. Chegou como técnico que viu, nos Estados Unidos, um teatro de ofício e voltou determinado a achar uma língua brasileira para o palco. A convite de Sábato Magaldi e José Renato, integrou em 1956 o Teatro de Arena de São Paulo. A primeira direção, Ratos e Homens, de John Steinbeck, valeu o prêmio de revelação da APCA. O primeiro texto encenado, Marido Magro, Mulher Chata, ainda era comédia de costumes. A virada veio quando o Arena, à beira do fechamento, apostou em autores brasileiros.

Do Arena ao golpe: palco como trincheira

Eles Não Usam Black-Tie, de Gianfrancesco Guarnieri, dirigido por José Renato, salvou a companhia e deslocou o repertório para o chão da cidade. Boal sugeriu o Seminário de Dramaturgia, viveiro de textos nacionais. Sob sua direção, o Arena apresentou Chapetuba Futebol Clube, de Oduvaldo Vianna Filho, em 1959. Em 1962, José Renato saiu e Boal assumiu a liderança da casa. A fase seguinte nacionalizou clássicos: Martins Pena, Tennessee Williams no Oficina, Lope de Vega, Molière.

Depois do golpe de 1964, dirigiu no Rio o show Opinião, com Zé Kéti, João do Vale e Nara Leão — depois substituída por Maria Bethânia. O espetáculo nasceu de autores ligados ao Centro Popular de Cultura da UNE, já na ilegalidade, e virou foco de resistência. Dali saiu o ciclo de musicais do Arena com Guarnieri e Edu Lobo: Arena Conta Zumbi (1965) testou o sistema curinga, no qual oito atores se revezam em todas as personagens. Vieram Arena Conta Bahia, com direção musical de Gilberto Gil e Caetano Veloso, e Arena Conta Tiradentes. Em 1968, a Primeira Feira Paulista de Opinião, no Teatro Ruth Escobar, reuniu textos curtos de Lauro César Muniz, Bráulio Pedroso, Guarnieri, Jorge Andrade, Plínio Marcos e do próprio Boal. Ele apresentou o espetáculo na íntegra, ignorando dezenas de cortes da censura.

O AI-5 fechou o cerco. O Arena viajou pelos Estados Unidos, México, Peru e Argentina. Em 1971, Boal foi preso e torturado. Seguiu para o exílio na Argentina, terra da psicanalista Cecilia Thumim Boal, com quem era casado. Quinze anos fora do Brasil. Foi nesse intervalo — não na biografia de sucesso do Arena — que o método ganhou nome e sistema.

Exílio e o nascimento do Teatro do Oprimido

Na Argentina desenvolveu o Teatro Invisível. No Peru, em 1973, aplicou as técnicas num programa de alfabetização e começou o Teatro Fórum. No Equador, com populações indígenas, o Teatro Imagem. Em Portugal, com o grupo A Barraca, montou A Barraca Conta Tiradentes e escreveu Mulheres de Atenas, adaptação de Lisístrata com músicas de Chico Buarque — a mesma parceria que deu a canção gravada em Meus Caros Amigos. Chico também lhe enviou, em forma de samba, a carta musicada Meu Caro Amigo, endereçada ao exilado em Lisboa.

A partir de 1978, Boal se estabeleceu em Paris e criou o Ceditade, centro de pesquisa e difusão das técnicas. Com Cecilia, deslocou o trabalho para o interior da subjetividade: o Arco-íris do desejo, método de teatro e terapia. O livro-fundação, Teatro do Oprimido e outras poéticas políticas, saiu na Argentina em 1974 e segue sendo a porta de entrada teórica, de Aristóteles a Brecht, passando pelo Teatro de Arena e pela experiência peruana. A relação com a pedagogia de Paulo Freire não é coincidência de sobrenome intelectual: o oprimido deixa de ser objeto da encenação e passa a ensaiar a própria ação, no palco como na alfabetização.

Boal visitou o Brasil em 1979 para um curso no Rio e voltou em definitivo em 1986. Instalou-se na cidade natal, lançou o plano da Fábrica de Teatro Popular e criou o Centro de Teatro do Oprimido, o CTO, único núcleo que teve sua direção artística nos últimos 23 anos de vida. O centro segue na Lapa, na Avenida Mem de Sá, com laboratórios, cursos, grupos e ações em educação, saúde mental, sistema prisional e movimentos sociais.

Vereador no Rio: teatro que vira lei

Boal defendia o teatro como ensaio de transformação, não como ornamento de protesto. Em 1992 foi eleito vereador no Rio de Janeiro pelo Partido dos Trabalhadores e exerceu o mandato de 1993 a 1997. A aposta não era “teatro político” de palanque: era teatro como política. Comunidades ensaiavam conflitos reais; o mandato traduzia cenas em projetos de lei. O livro Teatro Legislativo documenta essa experiência — o que hoje se chamaria mandato coletivo — e registra as 13 leis que ele descreveu como desejo direto do povo.

A lista abaixo organiza o que o método realmente oferece a quem chega agora, sem misturar manual de palco com biografia:

  • Teatro Fórum — a plateia interrompe a cena, substitui o protagonista e testa saídas para a opressão encenada.
  • Teatro Imagem — o corpo congela relações de poder quando a palavra ainda não dá conta.
  • Teatro Invisível — a ação acontece em espaço público, sem anúncio de espetáculo.
  • Teatro Legislativo — o ensaio comunitário vira proposta de lei.
  • Arco-íris do desejo — técnicas para opressões interiorizadas, no cruzamento entre teatro e terapia.

Em 2008 foi indicado ao Nobel da Paz pelo trabalho com o Teatro do Oprimido. Em março de 2009, a Unesco o nomeou embaixador mundial do teatro. Morreu na madrugada de 2 de maio daquele ano, por insuficiência respiratória, no Hospital Samaritano, em Botafogo. Tinha 78 anos e sofria de leucemia.

Livros, instituto e o que ficou

A obra escrita passa de vinte livros, traduzidos em mais de vinte línguas e lidos em escolas de teatro do mundo. Além do volume teórico de 1974, Jogos para atores e não atores reúne o repertório prático — exercícios, jogos e técnicas para quem nunca pisou num palco profissional. Estética do Oprimido, finalizado em janeiro de 2009, é o testamento estético: o pensamento sensível como instrumento, não como enfeite. Memórias, peças, crônicas e o relato do mandato completam o mapa. Quem quiser o acervo, o instituto e a linha do tempo oficial encontra o material no site do Instituto Augusto Boal, fundado em 2010 para preservar documentos, fotografias, correspondências e montagens.

Boal não cabe só na prateleira de literatura. Cruza política e educação porque o método foi pensado para gente que não se profissionaliza no palco: professor, agente de saúde, preso, vereador, militante, terapeuta. Richard Schechner escreveu que ele fez o que Brecht sonhou: um teatro alegre e instrutivo, uma forma de terapia social. O Guardian o colocou na mesma prateleira internacional de Brecht e Stanislavski. O dado útil, para quem chega agora, é mais prosaico: o Teatro do Oprimido continua em uso. Não como relíquia de 1968, mas como oficina viva — no CTO do Rio, em festivais, em universidades e em grupos que ainda ensaiam a pergunta que Boal nunca aposentou: o que a plateia faria se pudesse entrar na cena.

O que você acha desta Autoridade?

Você indicaria Augusto Boal para outras pessoas? Conte se o trabalho inspira confiança, gera resultado ou deixou algo a desejar.

Projetos de Augusto Boal

Teatro do Oprimido
Teatro do Oprimido
Ensaio de 1974 em que Boal funda o Teatro do Oprimido: crítica das poéticas ocidentais e defesa do espect-ator que ensaia a própria ação.
00%
00%
Jogos para atores e não atores
Jogos para atores e não atores
Repertório prático do Teatro do Oprimido: exercícios, Teatro Imagem e Teatro Fórum para atores e para quem nunca pisou no palco.
00%
00%
Teatro Legislativo
Teatro Legislativo
Relato do mandato de Boal na Câmara do Rio: o Teatro do Oprimido usado para ensaiar conflitos comunitários e transformar cena em lei.
00%
00%
Estética do Oprimido
Estética do Oprimido
Último grande ensaio de Boal, fechado em 2009: o pensamento sensível como instrumento para o oprimido produzir a própria arte.
00%
00%