Trair e Coçar é Só Começar é a comédia em que uma empregada decide que informação vale ouro e transforma suposições em chantagem doméstica. Marcos Caruso escreveu o texto em 1979, aos 27 anos, no gênero do vaudeville: porta, equívoco e suspeita de traição. A estreia só aconteceu em 26 de março de 1986, no Rio de Janeiro. A edição em livro, publicada em 2012 pela Benvirá, com 224 páginas, é o texto da peça, não um romance paralelo.
O que a peça arma
A trama gira em torno de Olímpia, empregada intrometida de um casal de classe média alta. Inês e Eduardo estão perto de mais um aniversário de casamento. Olímpia vê a patroa assediada pelo síndico, ouve uma conversa fora de hora e conclui que os dois se traem. A partir daí, suborna patrões e amigos com pedaços de informação. Entram um padre e um vendedor de joias. Três casais se desencontram. O motor não é um adultério consumado: é a hipótese de adultério, repetida até a casa inteira perder o chão.
Caruso explicou a inspiração como comédia ligeira de intriga, do tipo que pode ser montada aqui ou em outro país porque fala de ciúme doméstico numa chave universal. Ele mesmo recomendou a leitura de uma vez só, inclusive para quem não tem o hábito de ler teatro. O livro, portanto, serve a dois leitores: o grupo que quer montar a peça e a pessoa que quer entender por que esse texto ficou décadas em cartaz.
Por que o tempo em cartaz virou o assunto
Em São Paulo, a temporada contínua começa em agosto de 1989. A primeira Olímpia foi Marilú Bueno. Depois passaram pelo papel, entre outras, Suely Franco e Denise Fraga. A longevidade entrou no Guinness nas edições de 1994 a 1997 como a mais longa temporada ininterrupta do teatro brasileiro. Em balanços de imprensa de 2015, a conta pública era de cerca de seis milhões de espectadores e quase nove mil apresentações, em dezenas de cidades e também fora do Brasil.
O título não ficou só no palco. Em 2006, Moacyr Góes dirigiu o filme homônimo, com produção de Diler Trindade e roteiro de Caruso e Jandira Martini. Adriana Esteves fez Olímpia; Cássio Gabus Mendes e Bianca Byington, o casal. Em 2014, o Multishow exibiu uma série com o mesmo nome, em outro recorte: um casal separado que divide prédio e empregada. São desdobramentos, não substitutos do texto. Quem compra o livro leva a peça escrita por Caruso, a que estreou em 1986.
Como o livro se liga à carreira do autor
Quando Caruso escreveu a comédia, ainda não era o rosto de Avenida Brasil nem o Alex de Páginas da Vida. Era um ator de teatro que também começava a escrever novela na Bandeirantes e que precisava de um texto próprio para continuar em cena. A peça ficou seis anos parada antes da estreia. O atraso faz parte da história do livro: o volume de 2012 registra um clássico de plateia que, no começo, ninguém quis montar.
A edição traz o nome de Marcos Caruso na capa vermelha da Benvirá e o ISBN 978-85-02-11685-6. Não é manual de interpretação nem biografia do autor. É o mecanismo da comédia: Olímpia, os patrões e a regra de que, numa casa desconfiada, qualquer detalhe vira prova. Para quem acompanha o autor pelas novelas, o livro mostra o outro ofício — o de quem constrói o enredo, não só o de quem entra nele.

