Imagem de capa do perfil de Raul Seixas
Foto de perfil de Raul Seixas

Raul Seixas

Raulzito, Maluco Beleza

Nascimento: 1945 Salvador, Bahia
Cantor, compositor e produtor baiano (1945–1989), pioneiro do rock brasileiro, autor de Metamorfose Ambulante, Ouro de Tolo e da Sociedade Alternativa.

Antes de virar estátua de camiseta e grito de show, Raul Seixas era o baiano que misturava Elvis, baião e pergunta existencial no mesmo acorde. Nascido em Salvador em 28 de junho de 1945 e morto em São Paulo em 21 de agosto de 1989, ele deixou dezessete discos em vida e um nome que ainda funciona como atalho para quem busca rock brasileiro com letra que cutuca, mística sem manual e liberdade sem discurso de vitrine.

Quem digita o nome dele costuma querer duas coisas ao mesmo tempo: a trilha sonora (Metamorfose Ambulante, Ouro de Tolo, Maluco Beleza, Gita) e o mapa da pessoa por trás do mito. Este perfil organiza a trajetória pública — da Salvador dos clubes de rock à parceria com Paulo Coelho, da Sociedade Alternativa ao culto póstumo — sem transformar a vida em catálogo de merch.

Quem foi Raul Seixas e por que a busca não para

Raul Santos Seixas foi cantor, compositor, produtor e multi-instrumentista. A imprensa e o público o batizaram de Pai do Rock Brasileiro e Maluco Beleza; entre amigos e fãs da primeira hora, ainda era Raulzito. A obra costuma ser descrita como rock com baião, folk, blues e MPB no mesmo prato — não por fusão de marketing, mas porque a Bahia do Luiz Gonzaga e o rock and roll da loja de discos entraram cedo na mesma cabeça.

Em 2008, a Rolling Stone Brasil o colocou na 19ª posição entre os cem maiores artistas da música brasileira. Dois discos dele entraram na lista dos cem maiores discos nacionais da mesma revista: Krig-ha, Bandolo! (12º) e Novo Aeon (53º). Números de ranking não explicam o afeto; ajudam a medir o quanto a obra saiu do círculo de “culto de nicho” e entrou no cânone popular.

Salvador, rock na vitrine e o sonho de escritor

Raul cresceu em família de classe média na Avenida Sete de Setembro, em Salvador. O pai, Raul Varella Seixas, era engenheiro de estradas de ferro; a mãe, Maria Eugênia Santos Seixas, cuidava da casa. O irmão Plínio nasceu em 1948. Na escola, o desempenho era fraco — biografias e o próprio artista relatam reprovações e a preferência por ouvir rock na loja Cantinho da Música a frequentar a sala de aula.

Em 1959, fundou com o amigo Waldir Serrão o Elvis Rock Club. A cena era de topete, gola alta e gangue de adolescente em torno do rock and roll. Ao mesmo tempo, lia na biblioteca do pai e sonhava ser escritor no nível de Jorge Amado, outro baiano cuja literatura moldava a imaginação da cidade. Essa tensão — rock de rua e pergunta filosófica — atravessa a carreira inteira.

Nos anos 1960, a banda que teve nomes como Relâmpagos do Rock e The Panters se estabilizou como Os Panteras (depois Raulzito e os Panteras), com Mariano Lanat, Eládio Gilbraz e Carleba. Em 1968, saiu o LP de estreia pela EMI-Odeon. O disco não decolou comercialmente. Houve período difícil no Rio de Janeiro, shows de apoio a Jerry Adriani e, mais tarde, a volta a Salvador antes da reentrada pela porta de produtor.

Produtor na CBS e o ensaio do caos

Contratado como produtor da CBS no Rio, Raulzito passou a escrever e produzir para o cast da gravadora. Composições suas chegaram a vozes da Jovem Guarda e adjacências; nomes como Jerry Adriani, Ed Wilson e Odair José gravaram material ligado a ele. Foi nessa fase que se aproximou de Sérgio Sampaio, Miriam Batucada e Edy Star no projeto Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10 (1971), ópera-rock anárquica com samba e baião no miolo, pesadamente marcada pela censura e sem sucesso imediato de público.

O salto de artista solo veio em 1972, no Festival Internacional da Canção, com “Let Me Sing, Let Me Sing” e “Eu Sou Eu e Nicuri é o Diabo”. Em seguida, a Philips contratou o cantor que a indústria ainda via com um pé no experimental e outro na canção popular.

Krig-ha, Bandolo! e a virada de 1973

O álbum Krig-ha, Bandolo! (1973) é o ponto em que o nome Raul Seixas deixa de ser “produtor baiano com banda de rock” e vira fenômeno. Saíram dali Ouro de Tolo, Metamorfose Ambulante, Mosca na Sopa e Al Capone — canções que ainda abrem playlists, shows de cover e conversas de boteco sobre o que é “ser livre” no Brasil.

No mesmo período, o LP de covers Os 24 Maiores Sucessos da Era do Rock saiu creditado a “Rock Generation”, com Raul apenas na contracapa como diretor de produção: a gravadora temia canibalizar o disco solo. Anos depois, o sucesso do artista reabriu o interesse por aquele material.

Gita, Sociedade Alternativa e o exílio de 1974

A parceria com Paulo Coelho deu corpo musical e simbólico à Sociedade Alternativa, projeto inspirado em ideias de Aleister Crowley e na Lei de Thelema (“Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei”). Houve sede, papel timbrado e o anúncio de uma “Cidade das Estrelas” em Minas Gerais. Nos shows, a canção “Sociedade Alternativa” virava manifesto cantado.

A ditadura militar tratou o movimento com suspeita de subversão. Raul e Paulo foram presos pelo DOPS, torturados e enviados ao exílio nos Estados Unidos com as respectivas esposas. O LP Gita (1974), gravado pouco antes, vendeu forte o bastante — mais de 100 mil cópias no ano de lançamento, com disco de ouro — para a pressão pública e comercial empurrar o retorno ao Brasil. Ainda em 1974, veio a separação de Edith Wisner, com quem Raul tinha a filha Simone.

Em 1975, casou-se com Glória Vaquer e lançou Novo Aeon, disco da canção Tente Outra Vez (com Paulo Coelho e crédito a Marcelo Motta na linha thelêmica). Em 1976, Há Dez Mil Anos Atrás e o nascimento da filha Scarlet marcam o fim da fase Philips e o afrouxamento da parceria com Coelho, embora o laço público entre os dois nunca tenha sumido da biografia de nenhum dos dois.

Maluco Beleza, WEA e o corpo que não aguenta o mito

Na WEA, com Cláudio Roberto, veio O Dia em que a Terra Parou (1977): a crítica torceu o nariz, o público abraçou Maluco Beleza, Sapato 36 e a faixa-título. A partir de 1978, o alcoolismo e a pancreatite viraram fato médico e biográfico — perda de parte do pâncreas, recuperação na Bahia, novas separações e o início de um ciclo de depressão, internações e discos lançados sob tensão.

Os anos 1980 misturam altas e baixas: Abre-te Sésamo (1980) com faixas censuradas; show em Santos com multidão; episódios de palco embriagado; o especial infantil da Globo com “Carimbador Maluco”; o LP homônimo de 1983 (outro disco de ouro); Metrô Linha 743 (1984); e o retorno de vendas com Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum! (1987). O último disco em vida, A Panela do Diabo (1989), foi em parceria com o baiano Marcelo Nova. Raul morreu dois dias após o lançamento, em 21 de agosto de 1989, em São Paulo, aos 44 anos. O enterro em Salvador parou a cidade.

Obras, canais oficiais e como acompanhar hoje

A discografia de estúdio em vida soma dezessete discos; a obra póstuma e as reedições continuam amplas. Em 2025, o Globoplay lançou a minissérie Raul Seixas: Eu Sou, com Ravel Andrade no papel principal, reforçando o interesse de uma nova geração. Quem quer ouvir a fonte, e não só o mito, encontra o catálogo no Spotify e no canal oficial no YouTube, com curadoria ligada à família e à obra.

  • Álbuns de entrada: Krig-ha, Bandolo! (1973), Gita (1974), Novo Aeon (1975), O Dia em que a Terra Parou (1977).
  • Canções-porta: Metamorfose Ambulante, Ouro de Tolo, Gita, Sociedade Alternativa, Tente Outra Vez, Maluco Beleza, Mosca na Sopa.
  • Canais oficiais da obra: Instagram e Facebook @raulseixasnaweb, YouTube da obra, fã-clube Raul Rock Club.
  • Contexto musical baiano e de geração: diálogo natural com nomes como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Rita Lee e, na linha do rock nacional de autoria, Renato Russo.

Para quem navega por música no Autoridades, Raul ocupa o cruzamento entre rock, canção popular brasileira e figura pública que virou símbolo de contestação sem caber em um único partido ou tribo. A biografia é curta em anos e longa em eco: o que sobra não é só o refrão, é a sensação de que a letra ainda está falando com o ouvinte de agora.

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Projetos de Raul Seixas

Krig-ha Bandolo
Krig-ha Bandolo
Álbum solo de 1973 que consagrou Raul Seixas com Ouro de Tolo, Metamorfose Ambulante e Mosca na Sopa.
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Gita
Gita
Disco de 1974 com Paulo Coelho, disco de ouro, Sociedade Alternativa e a faixa-título Gita.
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Novo Aeon
Novo Aeon
Álbum de 1975 com Tente Outra Vez, fase final da parceria áurea com Paulo Coelho.
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