Abílio Pereira de Almeida abriu, em 1948, a temporada do Teatro Brasileiro de Comédia com A Mulher do Próximo, Cacilda Becker no elenco e um assunto que ele não largaria: o jogo, o adultério e o desmanche dos costumes na alta burguesia paulistana. Não chegava ali como ator de ofício. Era advogado formado pela Universidade de São Paulo, frequentador da Livraria Jaraguá e um dos fundadores, com Alfredo Mesquita, do Grupo de Teatro Experimental.
Quem procura o nome hoje esbarra num descompasso fácil de documentar e difícil de resumir. A Enciclopédia Itaú Cultural o registra como o autor brasileiro mais montado pelo TBC. Yan Michalski, em notas para uma enciclopédia do teatro brasileiro contemporâneo, descreveu o outro lado: autor combatido pela crítica, bem-sucedido na bilheteria, familiarizado com a classe que satirizava e, no juízo do crítico, prejudicado por um moralismo forçado e por um alcance sobretudo paulistano. Bilheteria de um lado e leitura severa do outro formam o eixo da carreira.
Nasceu em São Paulo em 26 de fevereiro de 1906. Em entrevista de 1959 ao Correio da Manhã, disse ter nascido no Largo da Sé e se apresentou como paulista de família antiga. Morreu na mesma cidade, em maio de 1977, aos 71 anos. O suicídio consta em biografias públicas. O dia, dentro de maio, muda conforme o registro.
Da banca de advogado ao Grupo de Teatro Experimental
A formação que as fontes institucionais fecham é o direito na USP. Na conversa de 1959, Abílio falou em 25 anos de banca e no livro Prática Jurídico-Comercial, de 1934, então na 14ª edição. O palco veio antes do texto próprio: ele atuou nas montagens beneficentes de Alfredo Mesquita. Em 1943 está entre os fundadores do Grupo de Teatro Experimental, comandado por Mesquita. O primeiro texto nesse núcleo é Pif-Paf, em 1946. Abílio acumula autoria, direção e atuação. O alvo já é o jogo e a desagregação dos costumes na alta burguesia.
Dois anos depois, a fórmula inaugura o TBC. A partir de 1949 ele entra na organização da companhia como diretor secretário e também na Companhia Cinematográfica Vera Cruz, iniciativa sob os auspícios de Franco Zampari. Estudo do acervo depositado na Unicamp aponta dez anos como primeiro secretário do TBC e a direção artística em 1957. Não era figura de uma noite de estreia. Administrava a casa da Rua Major Diogo e escrevia parte dos êxitos que pagavam a conta.
O que as peças do TBC punham em cena
Três montagens concentram o retrato que ficou associado ao nome dele dentro da companhia.
- Paiol Velho (1951), direção de Ziembinski, com atuação muito citada de Cacilda Becker: a elite do café que não consegue administrar os próprios bens. Alberto Cavalcanti levou o texto ao cinema como Terra é Sempre Terra. Abílio aparece no filme como Tonico.
- Santa Marta Fabril S.A. (1955), direção de Adolfo Celi: a geração de 1932 diante de coordenadas políticas que já não eram as suas. Foi uma das raras peças publicadas por ele em vida, ainda em 1955. Nos anos 1980 o texto serviu de base a uma minissérie de televisão.
- Rua São Luís, 27 — 8º andar (1957): o endereço é o de uma garçonnière. Velha e nova geração se encontram na dissipação, sem outro projeto além de passar o tempo.
Michalski separou Paiol Velho e Santa Marta Fabril S.A. como as obras em que o instinto de palco poderia ter ido mais fundo. O restante, no mesmo balanço, teria ficado no escândalo local e na superfície. O julgamento é de crítico, não de cartaz. O cartaz, durante anos, continuou chamando o autor.
Fora do TBC: encomenda, candidato e bilheteria
A maior parte da dramaturgia saiu da Rua Major Diogo. Moral em Concordata, de 1956, retoma o adultério e sobe no Teatro Maria Della Costa, com produção de Sandro Polloni. Abílio afirmaria depois que a peça tirou a companhia de Maria Della Costa da falência. Em 1959, ao Correio da Manhã, apontou essa comédia como sua maior bilheteria e Dona Violante Miranda como outro retorno forte de público. A peça de Dercy Gonçalves é encomenda de 1958 e depois virou filme. Os Marginalizados, outra encomenda para Dercy, é de 1971.
O Comício (1955), na Companhia Nydia Licia–Sérgio Cardoso, trata da vida corrupta de um candidato. Alô... 36-5499 (1958), montagem de Antunes Filho para o Pequeno Teatro de Comédia, é um dramalhão que fez carreira na Argentina com o título Deliciosamente Amoral. Em Moeda Corrente do País (1960), um dos poucos dramas, entra no repertório do Teatro Cacilda Becker e gira em torno da corrupção de um funcionário público.
Com produção do próprio autor vieram O Bezerro de Ouro (1961), Círculo de Champagne (1964), Licor de Maracujá (1966), Clube da Fossa (1968) e o espetáculo infantil Independência ou Morte (1972). Ficaram inéditos Os Donos da Verdade, crítica ao que ele chamava de poder jovem de 1968, e as memórias inacabadas Confissões de um Anjo de Guarda.
Vera Cruz e o caminhão de Mazzaropi
No cinema da Vera Cruz o nome aparece cedo como ator, em Caiçara (1950) e Ângela (1951). O filme que altera a conta da produtora é Sai da Frente (1952). A ficha da Cinemateca Brasileira, reproduzida pelo Museu Mazzaropi, põe Abílio na direção, Tom Payne como diretor adjunto e o roteiro de Abílio a partir de uma ideia de Payne. Mazzaropi, então do circo, do rádio e da televisão, estreia na tela como Isidoro, dono do caminhão Anastácio e do cão Coronel, numa mudança de São Paulo para Santos. O lançamento foi em 25 de junho de 1952. O sucesso comercial aliviou, por um tempo, as dificuldades da Vera Cruz.
No fim da década, pela Brasil Filmes, ele produz Moral em Concordata, O Sobrado e Estranho Encontro. Em Moral em Concordata destaca-se Odete Lara. Biografias públicas o citam entre os incentivadores da carreira dela. O dado verificável para aqui: produtor do filme e incentivador, não proprietário da trajetória da atriz.
Quando o nome saiu das reportagens
O fim foi amargo e dito por ele. A Sociedade Brasileira de Autores Teatrais reproduz um depoimento em que Abílio se descreve superado, velho e pobre, e anota que a gente nova o chamava de mestre, “o que já é um consolo”. O centenário, em 2006, teve resposta de palco: Silnei Siqueira remontou Moral em Concordata. Em 2024, Paiol Velho voltou ao Teatro Della Costa, em montagem da Carriola Cultural. A fazenda de café ainda encontra plateia. O autor, durante décadas, encontrou sobretudo silêncio.
Para ler as peças, o volume estável é o de 2009 da Coleção Aplauso, O Teatro de Abílio Pereira de Almeida, organizado por Ceiça Campos na Imprensa Oficial de São Paulo, com introdução dela. Reúne Paiol Velho, Santa Marta Fabril e Em Moeda Corrente do País, em 512 páginas, ISBN 978-85-7060-756-0. Em vida, a publicação sob supervisão do autor ficou praticamente restrita a Santa Marta Fabril S.A.. O fundo de manuscritos e fotos está no Centro de Documentação Cultural Alexandre Eulálio, na Unicamp. No mapa da literatura de palco no Brasil, o nome circulou muito em São Paulo entre os anos 1940 e 1960 e, ainda em vida, saiu das reportagens de teatro e cinema, queixa que ele mesmo registrou.


