Poucas peças brasileiras mudaram tanto de estatuto em tão pouco tempo quanto Namíbia, Não!. Escrito entre 2009 e 2011, o texto imaginava um Brasil em que o governo decreta uma medida provisória obrigando cidadãos de “melanina acentuada” a serem enviados à África, e transformou esse pesadelo distópico em um debate entre dois primos trancados em um apartamento. Em 2013, a obra levou o primeiro lugar do Prêmio Jabuti na categoria Ficção Juvenil e projetou nacionalmente o nome de Aldri Anunciação, que até então circulava entre o teatro baiano e a televisão.
Ator, dramaturgo, roteirista, diretor e apresentador, Aldri construiu uma trajetória que atravessa palco, cinema e TV aberta sem se prender a um único formato. Nasceu em Salvador, formou-se no Rio de Janeiro e se tornou uma das vozes centrais da dramaturgia negra brasileira, conceito que ajudou a articular com o festival Dramaturgias da Melanina Acentuada e que aparece tanto em suas peças quanto no trabalho que desenvolve como âncora de programas da TV Bahia. Esta página reúne o que é público sobre sua história, suas obras e os projetos ligados ao seu nome.
Quem é Aldri Anunciação
Nascido em Salvador, Aldri da Anunciação é filho do advogado, radialista e ex-deputado estadual Alcindo da Anunciação. Ainda jovem, mudou-se para o Rio de Janeiro para atuar em “O Sonho”, espetáculo de August Strindberg dirigido por Gabriel Vilela, e ali se bacharelou em Estética e Teoria do Teatro pela UNIRIO, a Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Mais tarde, voltou à Bahia para o doutorado em Artes Dramáticas na UFBA, onde defendeu a tese “A dramaturgia do debate: autodescolonização do sujeito-dramaturgo e do leitor-espectador através da descolonização de personagens-debatedoras”. O interesse pela ópera o levou a estágios de direção artística na Áustria e na Alemanha, em montagens como “Fidélio”, “Tosca” e “Die Meistersinger von Nürnberg”.
A carreira na televisão começou em 1998, quando interpretou Nankim na novela Malhação, da TV Globo. Vieram depois trabalhos em Porto dos Milagres, A Diarista, A Lei e o Crime, Segundo Sol e Cara e Coragem, além de papéis no cinema em filmes como Bach in Brazil, Café com Canela, Aos Nossos Filhos e Medida Provisória. Em 2018, venceu o prêmio de melhor ator no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro pela atuação no filme Ilha.
Namíbia, Não! e o Prêmio Jabuti
A peça estreou em 17 de março de 2011, na Sala do Coro do Teatro Castro Alves, em Salvador, com direção de Lázaro Ramos e Aldri Anunciação e Flávio Bauraqui no elenco. No palco, os primos André e Antônio passam o dia trancados em um apartamento para não serem capturados na rua: pela lógica perversa da medida provisória, a captura só é permitida fora de casa. Sem tratar do racismo de forma direta, o texto obriga o espectador a acompanhar o debate dos dois sobre identidade, diáspora, classe e desejo, enquanto a vida acontece do lado de fora.
O espetáculo circulou por dez estados brasileiros e foi visto por mais de 400 mil pessoas, segundo registros públicos da produção. Em 2012, o texto foi publicado em livro pela EDUFBA e recebeu o Prêmio Braskem de Teatro na categoria Melhor Texto, além do Prêmio R7 de Teatro. Em 2013, veio o Jabuti. A crítica Barbara Heliodora classificou a peça como “uma grata contribuição à dramaturgia brasileira”. No mesmo ano, o espetáculo representou o Brasil no Ano do Brasil em Portugal, com apresentações no Teatro Nacional São João, no Porto.
O texto ganhou circulação internacional: foi traduzido para o alemão por Henry Thorau e publicado pela Fischer Theater Verlag em 2014, com o título Niemals Namibia. Em artigo acadêmico, Thorau defendeu que a obra reinventa o teatro político brasileiro. Em 2016, uma leitura cênica em inglês foi apresentada no Soho Theatre, em Londres. Em 2019, a peça se tornou o filme Medida Provisória, dirigido por Lázaro Ramos, com roteiro assinado por Aldri, Elisio Lopes Jr., Lázaro Ramos e Lusa Silvestre e Alfred Enoch no papel principal. O longa levou prêmios de roteiro em festivais como o de Huelva, na Espanha, e o Indie Memphis, nos Estados Unidos.
Teatro, ópera e o festival Dramaturgias da Melanina Acentuada
Depois de Namíbia, Não!, Aldri escreveu “O Campo de Batalha: A Fantástica História de Interrupção de uma Guerra Bem-Sucedida” (2015), dirigido por Márcio Meirelles com codireção de Lázaro Ramos e Fernando Philbert, e “Embarque Imediato” (2019), também dirigido por Márcio Meirelles e estrelado por Antônio Pitanga e Rocco Pitanga, texto que homenageia os 80 anos do ator. Em 2016, estreou como diretor teatral com “A Mulher do Fundo do Mar”, montagem com Iami Rebouças apresentada no Goethe-Institut, em Salvador. Em 2019, escreveu “Pele Negra, Máscaras Brancas: De Como Esquecemos Aquilo Que Somos”, adaptação da obra de Frantz Fanon encenada pela Companhia de Teatro da UFBA sob direção de Onisajé, nome iorubá de Fernanda Júlia.
Em 2013, ao lado de Leonel Henckes, Aldri idealizou e coordenou o festival Nova Dramaturgia da Melanina Acentuada, depois rebatizado Festival Dramaturgias da Melanina Acentuada. O evento nasceu para dar visibilidade a autores e dramaturgos negros brasileiros e chegou à sexta edição em julho de 2025, em Salvador, com leituras dramáticas, performances, entrevistas públicas e mesas redondas. O conceito de “melanina acentuada”, cunhado por ele em Namíbia, Não!, desdobrou-se ainda em portal de conteúdos sobre dramaturgia negra brasileira e em uma produtora cultural ligada aos seus projetos.
Na coletânea Dramaturgia Negra, organizada pela Funarte como a primeira reunião de dramaturgias escritas apenas por pessoas negras no Brasil, ele assina o texto “Antimemórias de uma Travessia Interrompida”.
Da Malhação ao Conexão Bahia
Na TV Bahia, afiliada da Rede Globo, Aldri Anunciação é âncora do Conexão Bahia desde 2017, programa em que conduz reportagens especiais sobre o cotidiano, a vida e a tradição dos baianos, além do quadro Vumbora. Em 2020, criou, escreveu e passou a apresentar o Conversa Preta, atração que discute temas como racismo, carreira e cultura sob uma perspectiva negra. A televisão não é um desvio na trajetória dele: desde os anos 1990, alterna papéis em novelas e séries, de Malhação a Segundo Sol, com a dramaturgia e o cinema.
Em 2014, recebeu a Comenda do Mérito Cultural do Estado da Bahia, entregue no Teatro Castro Alves, em Salvador, a personalidades da cultura baiana.
O que Aldri Anunciação escreveu
- Namíbia, Não! (2011, peça; livro pela EDUFBA em 2012) — distopia sobre uma medida provisória que retira da cidade as pessoas de pele escura; venceu o Prêmio Jabuti de 2013 na categoria Ficção Juvenil.
- O Campo de Batalha (2015) — espetáculo dirigido por Márcio Meirelles, com codireção de Lázaro Ramos e Fernando Philbert.
- A Mulher do Fundo do Mar (2016) — primeira direção teatral de Aldri, com atuação de Iami Rebouças.
- Embarque Imediato (2019) — texto escrito em homenagem aos 80 anos de Antônio Pitanga, dirigido por Márcio Meirelles.
- Trilogia do Confinamento (2020, Editora Perspectiva) — livro que reúne Namíbia, Não!, O Campo de Batalha e Embarque Imediato.
- Pretamorphosis: biografia não autorizada de um ex-branco (2023, Editora Malê) — romance sobre um homem branco que acorda com uma marca na pele e vê o próprio corpo se transformar.
Onde encontrar as obras
As edições físicas de Namíbia, Não! (EDUFBA), Trilogia do Confinamento (Perspectiva) e Pretamorphosis (Malê) circulam em livrarias e no marketplace da Amazon. Quem quer conhecer a dramaturgia do autor pode começar pela peça premiada e seguir para a trilogia; quem prefere ficção em prosa encontra em Pretamorphosis a mesma imaginação racial levada para o romance. Os títulos também aparecem no catálogo de livros do site, e a dramaturgia do autor dialoga com o restante da literatura brasileira contemporânea.
Perguntas frequentes sobre Aldri Anunciação
Qual obra de Aldri Anunciação venceu o Prêmio Jabuti?
Namíbia, Não!, na categoria Ficção Juvenil, em 2013. A peça nasceu nos palcos em 2011 e foi publicada em livro pela EDUFBA no ano seguinte.
Namíbia, Não! virou filme?
Sim. O texto deu origem a Medida Provisória, dirigido por Lázaro Ramos, com Alfred Enoch no papel principal e participação de Aldri no roteiro e no elenco, como o personagem Ivan.
Onde assistir aos programas apresentados por Aldri Anunciação?
O Conexão Bahia e o Conversa Preta são exibidos pela TV Bahia, afiliada da Rede Globo no estado, e mantêm conteúdos publicados nos canais digitais da emissora.
O que é a Trilogia do Confinamento?
É o livro da Editora Perspectiva que reúne Namíbia, Não!, O Campo de Batalha e Embarque Imediato, os três textos que o autor escreveu para o palco entre 2011 e 2019.




