O dinheiro do FGTS virou mil exemplares de um romance em que vampiros portugueses acordam no Brasil. André Vianco, criado em Osasco, não esperou editora: depois da demissão na empresa de cartões, mandou imprimir Os Sete e foi de livraria em livraria. O livro pegou — e o terror fantástico nacional ganhou um mapa próprio, com rua, litoral e sotaque no lugar da Transilvânia.
Quem busca o nome quer o autor por trás das sagas de vampiros, de O Senhor da Chuva e de Bento. É romancista, roteirista e diretor. Em 2016 seus livros já haviam passado de um milhão de exemplares. Em 2018, um estudo publicado no Estadão o colocou, com Max Mallmann, Raphael Draccon e Eduardo Spohr, entre os principais autores brasileiros de fantasia do século XXI.
Quem é André Vianco
André Ferreira da Silva nasceu em São Paulo em 10 de janeiro de 1975 e cresceu na cidade vizinha de Osasco. O sobrenome de registro é Silva. Vianco é pseudônimo: homenagem à Rua Dona Primitiva Vianco, uma das vias centrais da cidade em que passou a infância. O nome de autor cola o trabalho à geografia — e a geografia devolve o favor, porque as histórias dele recusam o cenário europeu de aluguel.
Antes dos livros, foi redator no jornalismo da Rádio Jovem Pan por dois anos e trabalhava meio período numa empresa de cartões de crédito. Leu Stephen King, Edgar Allan Poe, Anne Rice, Henry James, Victor Hugo, o Musashi de Eiji Yoshikawa e os velhos gibis de Tales from the Crypt. A estreia em volume veio em 1998, com a publicação independente de O Senhor da Chuva.
Como Os Sete mudou a carreira
Em 1999, já demitido, usou o FGTS para uma tiragem de mil cópias de Os Sete. A trama se passa em grande parte na cidade litorânea fictícia de Amarração, no Rio Grande do Sul: sete vampiros de Portugal do século XVI despertam no Brasil contemporâneo depois que mergulhadores encontram seus corpos numa nau. Editoras tinham recusado o original com o argumento de que o público não leria fantasia ambientada no Brasil. Foi justamente a ambientação local que puxou o leitor.
O livro chamou a Novo Século, que o reeditou e publicou grande parte da obra seguinte. Em 2008, Os Sete já havia passado de 50 mil exemplares. Vieram a continuação Sétimo, a trilogia O Turno da Noite e a prequela em quadrinhos Vampiros do Rio Douro. Em 2009, para os dez anos de Os Sete, o próprio autor escreveu e dirigiu um piloto televisivo em três partes inspirado em O Turno da Noite; a série completa não saiu.
Sagas, editoras e o que ler primeiro
Há dois eixos que o leitor costuma procurar. O primeiro nasce em Os Sete e se espalha por Sétimo e O Turno da Noite. O segundo é a saga O Vampiro-Rei, aberta em 2003 com Bento e seguida por A Bruxa Tereza e Cantarzo. A prequela As Crônicas do Fim do Mundo começa em A Noite Maldita (2013) e continua em À Deriva (2023), romance em que o interior de São Paulo vira território de vampiros, adormecidos e resistentes.
Fora das sagas, a carreira atravessa thriller sobrenatural (A Casa, Sementes no Gelo, O Caso Laura), fantasia de anjos e demônios (O Senhor da Chuva), ficção científica (Dartana, 2016), infantojuvenil (Meus Queridos Monstrinhos, pela Rocco) e o terror mais recente Ao meu redor, nascido em audiolivro na Storytel em 2021 e relançado em papel pela Lucens em 2025.
- Os Sete — a porta de entrada clássica, o livro que o tornou best-seller
- O Senhor da Chuva — a estreia, anjos e demônios numa cidade do interior
- Bento — o começo da saga O Vampiro-Rei e dos guerreiros contra a Noite Maldita
- À Deriva — a prequela recente, com Raquel e o interior paulista tomado
- Ao meu redor — o Vianco contemporâneo, crime e além sem a saga de vampiros
A trajetória editorial é longa: Novo Século, Rocco, Giz/Calíope, um acordo com a Aleph em 2016 que depois se desfez, LeYa com Penumbra em 2017 e, a partir de 2021, relançamentos pela Citadel e pelo selo Lucens.
Roteiro, cinema e a formação de escritores
Foi roteirista contratado da Rede Globo entre 2010 e 2014 e professor da Roteiraria em 2017. Com Marisa Samogin fundou a produtora independente Criamundos (2006). Codirigiu o curta A Flor (2006), escrito por Samogin a partir do conto de Carlos Drummond de Andrade; dirigiu A Última Partida (2007) e Saia do Meu Quarto (2012). Fundou a Vivendo de Inventar, pela qual orienta novos escritores, e aparece na plataforma Hardcover em programas de narrativa.
Mantém diálogo com leitores no Instagram @andrevianco, na página oficial do Facebook e no canal do YouTube. Mora em Osasco, cidade que empresta ruas, largo e clima para criaturas que não precisaram atravessar o oceano para assustar.
Por que o leitor de terror e fantasia procura Vianco
A pergunta prática é sempre a mesma: por onde começar, e o que diferencia esse catálogo do terror importado. A resposta está no chão. Vampiro, anjo, bruxa e adormecido andam em Osasco, no litoral gaúcho inventado e no interior de São Paulo. O efeito não é folclore de vitrine: é a convicção de que o Brasil aguenta o gênero sem pedir licença a Londres ou a Nova Orleans.
Quem chega pelo mito do milhão de exemplares encontra um autor de literatura de gênero que também escreveu para televisão e formou gente na oficina. No thriller contemporâneo brasileiro, um caminho paralelo é o de Raphael Montes; no terror fantástico com mapa nacional, a estante de Vianco continua sendo o atalho mais direto. Os Sete para o choque inicial. Bento para a saga longa. Ao meu redor para o Vianco de agora, sem precisar da genealogia inteira dos sete.






