Por mais de duas décadas, uma das cenas mais aguardadas da televisão esportiva brasileira foi a de dois homens maduros rindo sem conseguir terminar uma frase na bancada do SportsCenter. Antero Greco, o comentarista de óculos e voz pausada que dividia a mesa com Paulo Soares, o Amigão, fez desse telejornal um lugar raro, onde a notícia séria e a piada espontânea conviviam sem que a informação perdesse valor.
Quem chega ao nome dele pela dupla de TV encontra bem mais do que isso. Antero foi um jornalista de redação, formado pela ECA-USP, com passagens por O Estado de S. Paulo, Diário Popular, Folha de S.Paulo e Band, sete Copas do Mundo cobertas no local e dois livros sobre a história do futebol. Ele morreu em 16 de maio de 2024, aos 69 anos, após quase dois anos de tratamento de um tumor cerebral. O que segue é a trajetória documentada de um profissional que atravessou meio século de imprensa esportiva, das redações do Estadão aos estúdios da ESPN.
Do Bom Retiro ao Estadão: o início de uma carreira de 50 anos
Antero Greco nasceu em 2 de junho de 1954, no Bom Retiro, bairro central de São Paulo, filho de italianos. Estudou no Liceu Coração de Jesus, dos padres salesianos, e chegou a iniciar o curso de Letras na USP antes de se firmar no Jornalismo, pela Escola de Comunicações e Artes da mesma universidade. Criado em família palmeirense, jogava como lateral-direito na várzea e, por um tempo, quis ser padre e jogador de futebol; terminou jornalista.
Entrou em O Estado de S. Paulo em 1974, aos 19 anos, como revisor. Três anos depois já era repórter de Esportes, editoria em que também atuou como chefe de reportagem, repórter especial e editor assistente. Em 1989 passou pela Agência Estado e, no começo de 1992, voltou ao Estadão como editor de Esportes, cargo que ocupou até o fim de 1993.
Entre 1994 e 2000, trabalhou no Diário Popular como chefe de reportagem, editor assistente e colunista. Retornou ao Estadão no fim de 2000, a convite do jornalista Sandro Vaia, e entre setembro de 2006 e dezembro de 2009 foi novamente editor de Esportes do jornal. Deixou a redação em novembro de 2018, encerrando a terceira passagem pelo diário onde começou.
Na televisão, uma passagem pouco lembrada antecede a fama: em 1983, na Band, participou das primeiras transmissões do Campeonato Italiano ao lado do narrador Edgard de Mello Filho e do comentarista Pedro Luiz Paoliello. Era o começo de uma relação longa com o futebol italiano, que ele acompanharia por décadas como um dos comentaristas brasileiros que melhor conheciam a Serie A.
A era ESPN: SportsCenter, Amigão e as risadas que viraram memória
A ligação com a ESPN Brasil começou em fevereiro de 1994, quando José Trajano o chamou para a primeira equipe de transmissão do canal, então TVA Esportes, ao lado do narrador Nivaldo Prieto e dos repórteres Paulo Calçade e Gilvan Ribeiro. Na emissora, ajudou a criar o programa Futebol no Mundo, do qual foi um dos redatores até o começo dos anos 2000.
Foi no SportsCenter, a partir de 2000, que a voz dele se tornou presença de fim de noite no país. Ao lado de Paulo Soares, o Amigão, Antero apresentou o telejornal por mais de duas décadas. A dupla ficou conhecida pela descontração — os ataques de riso provocados por nomes engraçados de atletas e por cacofonias viraram hits da internet —, mas a base do programa era o jornalismo esportivo bem apurado, com comentários ponderados sobre futebol brasileiro e internacional.
Pelo canal, participou ainda de programas como Linha de Passe e É Rapidinho e, em 2013, passou a comandar com Paulo Soares o semanal Duetto. Também atuou como comentarista da rádio Estadão/ESPN a partir de abril de 2007 e cobriu, no local, as Copas do Mundo de 1982, 1986, 1998, 2002, 2006, 2010 e 2014.
Viramundo: o jornalista que escrevia sobre esporte e sobre quase tudo
Apesar da imagem televisiva, a escrita sempre foi o centro do trabalho. Entre setembro de 2010 e 2018, assinou o blog Viramundo — Esportes daqui e de lá, no portal do Estadão, espaço em que misturava futebol, comportamento, cinema e literatura. A coluna no jornal e as participações na rádio completavam a rotina de quem lia e escrevia diariamente.
Ele mantinha em casa uma biblioteca de mais de dez mil exemplares e chegou a cursar Letras antes de abandonar a graduação para focar no Jornalismo — detalhes que ajudam a explicar o cuidado com a palavra e o tom de crônica que atravessa os seus textos.
Os livros: Seleção Nunca Vista e A Goleada
Em 2018, assinou com a jornalista Silvia Herrera o livro Seleção Nunca Vista, publicado pela Capella Editorial, que reúne fotografias de Antonio Lucio feitas na concentração da Seleção Brasileira em Poços de Caldas, em 1958 — o período de preparação para a Copa da Suécia, a primeira estrela do Brasil. O lançamento aconteceu no Museu do Futebol, em São Paulo, junto da exposição Primeira Estrela.
Cinco anos depois, em 2023, veio A Goleada, também pela Capella Editorial e também com fotos de Antonio Lucio: o registro completo do Santos 11 a 0 Botafogo de Ribeirão Preto, pelo Campeonato Paulista de 1964, partida em que Pelé marcou oito gols e Pepe fez um gol olímpico. Os textos são dele e do jornalista Roberto Salim. O livro foi lançado no Memorial das Conquistas, na Vila Belmiro.
Reconhecimento público e a forma de trabalhar
O trabalho de Antero Greco foi reconhecido em premiações da imprensa: indicações ao Troféu ACEESP em 2011 e 2014, na categoria Colunista de Jornal Impresso, e ao Prêmio Comunique-se de 2021, em Esportes na Mídia Escrita. Em comunicado, a ESPN o descrevia como um profissional que equilibrava comentários sérios e ponderados com momentos muito bem-humorados.
Palmeirense declarado, ele costumava separar clube e profissão. Em depoimento reproduzido pela ECA-USP, resumiu: "Sou palmeirense, de família palmeirense. Mas, no trabalho, sou São Paulo, Corinthians, Flamengo, Vasco, Santos… sou o que for. É uma coisa que a gente aprende com o tempo". Essa capacidade de cobrir todos os clubes com o mesmo respeito ajudou a construir uma reputação rara na crônica esportiva brasileira.
- 1954 — nasce em São Paulo, no bairro do Bom Retiro
- 1974 — entra no Estadão como revisor, aos 19 anos
- 1983 — estreia na TV, na Band, comentando o Campeonato Italiano
- 1994 — integra a primeira equipe da TVA Esportes, futura ESPN Brasil
- 2000 — estreia como apresentador do SportsCenter ao lado de Paulo Soares
- 2018 — publica Seleção Nunca Vista
- 2023 — publica A Goleada
- 2024 — morre em 16 de maio, em São Paulo
Doença, despedida e o lugar que ele ocupa no jornalismo esportivo
O tumor cerebral foi descoberto em junho de 2022, depois de uma dormência na mão que ele sentiu em casa. Seguiram-se duas cirurgias e sessões de radioterapia e quimioterapia. Em maio de 2023, voltou ao estúdio do SportsCenter para uma participação que virou símbolo da luta: "Estar aqui na bancada que eu ocupo há mais de 20 anos é uma emoção. E também uma vitória de ciência e de fé", disse na ocasião.
Em 10 de maio de 2024, a família comunicou, por carta publicada na coluna de Juca Kfouri, no UOL, que a doença estava em estágio avançado. Antero morreu na manhã de 16 de maio de 2024, aos 69 anos, e foi sepultado no Cemitério do Redentor, em São Paulo, com a camisa do Palmeiras. Clubes de todo o país e colegas de imprensa prestaram homenagens, e a ESPN exibiu uma edição especial do SportsCenter, que o apresentou como a maior unanimidade da história do programa.
Ao lado de José Trajano, Juca Kfouri, Paulo Soares e de tantos nomes formados na mesma geração de redação, Antero Greco ajudou a consolidar um jeito de fazer jornalismo esportivo na TV por assinatura: informar com contexto, sem abrir mão do humor e do afeto com o público. Quem investiga esportes e literatura no diretório encontra, em nomes como o dele, o elo entre a crônica escrita e a cobertura esportiva moderna.



