Antônio Arnaud Rodrigues (1942–2010) foi um artista de vários ofícios: redator de humor, ator, cantor e compositor. Quem procura o nome dele hoje costuma chegar por um personagem — o ingênuo Soró, de Pão Pão, Beijo Beijo, ou o Cego Jeremias, de Roque Santeiro — e acaba encontrando também discos que atravessaram o humor e a música popular brasileira, como os do Baiano & Os Novos Caetanos, grupo satírico que formou com Chico Anysio e o instrumentista Renato Piau.
Nascido em Serra Talhada, no sertão pernambucano, Arnaud começou a carreira em meados dos anos 1960 e nunca se prendeu a um único formato. Passou pela música de orquestra dos primeiros compactos, pela produção de programas de auditório, pela teledramaturgia e pela comédia de televisão, quase sempre como autor e intérprete do próprio material. Essa mistura explica por que ele é lembrado tanto por bordões e tipos cômicos quanto por canções que viraram sucesso de rádio e seguem sendo reeditadas décadas depois de sua morte.
Os primeiros compactos e a passagem pela TV Tupi
Antônio Arnaud Rodrigues nasceu em 6 de dezembro de 1942, em Serra Talhada, Pernambuco. A estreia em disco veio pela gravadora Copacabana, que lançou dois compactos simples seus em 1969, com músicas de autoria própria como "Reviravolta", "Eu Não Vou" e "Lema de Bom Brasileiro". Em 1970, assinou o LP Sound & Pyla – Arnaud Rodrigues e Unidade C, trabalho de música orquestrada com pitadas de experimentação que já deixava clara a veia cômica aplicada à canção.
Antes disso, a televisão já o havia chamado. Arnaud foi um dos nomes ligados à TV Tupi, onde produziu e atuou em programas humorísticos e ajudou a levar para a emissora artistas como Dedé Santana. Entre 1971 e 1972, esteve em Linguinha x Mr. Yes no papel do Espião, acumulando também a função de roteirista. A experiência na Tupi o colocou no circuito dos grandes nomes da comédia brasileira da época.
Chico City, novelas e os personagens da Praça
A parceria com Chico Anysio começou a render frutos a partir de 1973, quando Arnaud entrou para o elenco de Chico City, programa que ficou no ar até 1980. Na televisão, viveu o cantor Paulinho, personagem que mais tarde daria origem ao Baiano & Os Novos Caetanos. Na mesma fase, participou de Azambuja & Cia e, nos anos 1980, de temporadas do Chico Anysio Show, além de escrever textos para os programas do parceiro — para Chico Anysio, ele era "o melhor redator de humor do país".
Na teledramaturgia, colecionou papéis que o público decorou. Em Pão Pão, Beijo Beijo (1983), interpretou o imigrante nordestino Soró, criado pelo autor Walter Negrão, personagem tão popular que voltou no filme Os Trapalhões e o Mágico de Oróz, no ano seguinte. Em Partido Alto (1984), foi o Mr. Soul; em Roque Santeiro (1985), deu vida ao Cego Jeremias, o cantor ambulante que virou um dos momentos mais lembrados da novela.
Em 1991, Arnaud chegou a A Praça é Nossa, no SBT, onde permaneceu até 2004 sob o comando de Carlos Alberto de Nóbrega. Ali criou alguns de seus tipos mais conhecidos:
- O Povo Brasileiro, o cidadão pobre e cansado que desabafava sobre a vida e as contas;
- Coronel Totonho, o mulherengo típico do interior;
- Chitãoró, sátira aos cantores sertanejos no quadro "Chitãoró e Xorãozinho", ao lado de Marcelo de Nóbrega;
- Shop Centis e Mundinho, o Mudinho, outros tipos que passaram pelo programa.
Baiano & Os Novos Caetanos, a sátira que virou sucesso
Em 1974, no embalo do personagem criado em Chico City, Arnaud juntou-se a Chico Anysio e ao instrumentista Renato Piau para formar o Baiano & Os Novos Caetanos, uma brincadeira com o tropicalismo, com os Novos Baianos e com o próprio Caetano Veloso. Ele interpretava o cantor Paulinho Cabeça de Profeta; os discos, gravados entre 1974 e 1985, misturavam rock rural, samba-rock e humor em faixas como "Vô Batê Pá Tu", ironia sobre as delações na ditadura, e "Urubu Tá Com Raiva do Boi", crítica ao chamado milagre econômico. O projeto rendeu discos de ouro e transformou refrões de festa em clássicos do repertório popular.
Os discos solo e o rap precursor do Brasil
Paralelamente à comédia, Arnaud manteve uma discografia própria consistente. Em 1974, gravou Murituri; em 1976, lançou Som do Paulinho, pela RCA Victor, com dez composições de sua autoria; em 1979, veio Redescobrimento, pela EMI-Odeon, quase todo assinado em parceria com Renato Piau. A parceria com o violonista foi a mais longa de sua carreira musical e assinou dezenas de faixas, de "Na Boca do Povo" a "A Volta de Lampião".
Na virada da década, participou de um capítulo curioso da música nacional. O compacto "Melô do Tagarela", lançado em 1980, levou aos discos a versão brasileira de "Rapper's Delight", do Sugarhill Gang, com letra sobre o cotidiano do país e interpretação de Luiz Carlos Miele. A faixa, assinada por Miele e Arnaud Rodrigues, é apontada por estudiosos como o primeiro registro de rap em português do Brasil e rendeu ao humorista o reconhecimento como um dos precursores do gênero no país.
Tocantins, Palmas e a direção do futebol
Em 1999, depois de dois shows em Palmas, Arnaud decidiu mudar-se com a família para o Tocantins. Na nova casa, assumiu a direção do Palmas Futebol e Regatas, clube que passou a dividir espaço com os compromissos artísticos. Em 2004, deixou o elenco de A Praça é Nossa para se dedicar aos shows solo e ao futebol, mas planejava voltar ao humor e produzir um programa de variedades em um canal de televisão do estado.
Os planos foram interrompidos em 16 de fevereiro de 2010. Arnaud estava em uma embarcação no lago da Usina de Lajeado, a cerca de 26 quilômetros de Palmas, quando o barco virou após uma chuva com ventania. Nove ocupantes foram resgatados por moradores da região; o corpo do humorista foi encontrado pelos bombeiros horas depois. Ele tinha 67 anos.
Homenagens e a presença da obra hoje
A obra de Arnaud Rodrigues continuou circulando depois de sua morte. Em 2021, os selos Guitarra Brasileira e Tratore lançaram o EP digital Arnaud Rodrigues & Renato Piau, com parcerias dos dois como "A Volta de um Lampião", "Poeta da Lua", "Na Boca do Povo", "1968" e "Saquarema", além de regravações. Em 2026, a Prefeitura de Serra Talhada, por meio da Fundação Cultural do município, criou o Teatro Arnaud Rodrigues — espaço batizado com o nome do artista no bairro Nossa Senhora da Penha.
Na música popular brasileira, suas composições seguem sendo revisitadas por intérpretes e pesquisadores, e os personagens criados para a televisão mantêm o nome dele ligado à história do humor no Brasil.
Marcos da trajetória de Arnaud Rodrigues
- 1942 — nasce em Serra Talhada, Pernambuco, em 6 de dezembro;
- 1969 — lança os primeiros compactos, pela gravadora Copacabana;
- 1970 — grava o LP Sound & Pyla, com a Unidade C;
- 1973–1980 — atua em Chico City e se firma como parceiro de criação de Chico Anysio;
- 1974 — nasce o Baiano & Os Novos Caetanos, com disco de estreia que traz "Vô Batê Pá Tu" e "Véio Zuza";
- 1983 — interpreta Soró em Pão Pão, Beijo Beijo;
- 1985 — vive o Cego Jeremias em Roque Santeiro;
- 1991–2004 — integra o elenco de A Praça é Nossa;
- 1999 — muda-se para Palmas e assume a direção do Palmas Futebol e Regatas;
- 2010 — morre em acidente de barco no lago da Usina de Lajeado, no Tocantins;
- 2026 — a Prefeitura de Serra Talhada cria o Teatro Arnaud Rodrigues.





