Chico Anysio (1931–2012) construiu um tipo de carreira que o humor brasileiro ainda tenta repetir: criou mais de duas centenas de personagens, escreveu os próprios textos e ainda foi compositor, produtor, pintor e escritor. Nascido em Maranguape, no Ceará, começou no rádio em 1948 e atravessou mais de seis décadas de televisão, cinema e literatura. Quem chega ao seu nome pelo riso costuma descobrir uma obra que formou gerações de comediantes e permanece viva em bordões, referências e programas que continuam sendo reprisados.
Quem foi Chico Anysio
Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho nasceu em 12 de abril de 1931, em Maranguape, cidade do interior cearense. Ainda menino, mudou-se com a mãe e os irmãos para o Rio de Janeiro, onde a família foi morar em uma pensão no Catete depois que um incêndio destruiu a frota de ônibus do pai. Na capital fluminense, iniciou o curso de Direito, que não concluiu, e aos dezessete anos prestou teste de locutor na Rádio Guanabara: ficou em segundo lugar, atrás de um jovem Silvio Santos.
A partir de 1948, o rádio se tornou seu ofício. Chico foi locutor, radioator, comentarista esportivo e redator, passou por emissoras como a Mayrink Veiga e a Clube de Pernambuco e participou de programas de auditório. Nos anos 1950, escreveu diálogos para as chanchadas da Atlântida Cinematográfica e atuou em filmes como O Primo do Cangaceiro (1955). Na televisão, estreou na TV Rio, em 1957, com o programa Noite de Gala, e depois apresentou Só Tem Tantã, embrião do que viria a ser o Chico Total. Em 1969, assinou contrato com a Rede Globo, onde se tornou uma das estrelas mais populares da emissora e permaneceu por décadas.
Professor Raimundo e a galeria de personagens
O personagem mais célebre de Chico Anysio nasceu no rádio, na Mayrink Veiga, no início da década de 1950. O Professor Raimundo, um mestre de português atrapalhado e autoritário, ganhou as telas alguns anos depois e, em 1990, recebeu programa próprio na Globo: a Escolinha do Professor Raimundo, atração que funcionou como escola de novos humoristas e consagrou bordões repetidos até hoje.
Ao longo da carreira, o comediante deu vida a mais de 200 tipos. Entre os mais lembrados estão:
- Professor Raimundo — o professor de português que corrigia os alunos e errava a própria língua;
- Justo Veríssimo — o político corrupto cujo bordão dizia que queria que o povo se explodisse;
- Alberto Roberto — o ator canastrão que se achava uma estrela;
- Nazareno — o funcionário público especialista em empurrar serviço;
- Bento Carneiro — o vampiro brasileiro que preferia a luz do sol à tumba;
- Painho — o pai de santo de Chico City;
- Salomé — a empregada que conversava de mulher para mulher com figuras públicas;
- Coalhada — o jogador de futebol cuja popularidade levou Chico a comentar a Copa do Mundo de 1990.
Além desses, passaram por seus programas personagens como Gastão Franco, Roberval Taylor, Popó, Tavares, o pastor Tim Tones e a apresentadora Neide Taubaté.
Os programas que marcaram a televisão
Chico Anysio escreveu e supervisionou a criação de quase tudo o que interpretou. O Chico Anysio Show, criado no início dos anos 1960 com os roteiristas Haroldo Barbosa e Roberto Silveira e direção de Carlos Manga, serviu de base para os programas seguintes. Na Globo, comandou uma sequência de atrações que se tornaram marcos: Chico Anysio Especial (1970), Linguinha x Mr. Yes (1971), Chico em Quadrinhos (1972) e Chico City (1973), exibido até 1980 e considerado seu programa mais famoso.
Em 1981 veio o Chico Total, substituído em 1982 pelo retorno do Chico Anysio Show, que ficou no ar até 1990. No mesmo ano, estreou a Escolinha do Professor Raimundo, seguida por Estados Anysios de Chico City (1991). Ele ainda teve um quadro fixo no Fantástico por 17 anos, entre 1974 e 1991, foi supervisor de criação dos Trapalhões e atuou em novelas como Feijão Maravilha (1979), Terra Nostra (1999), Sinhá Moça (2006) e Caminho das Índias (2009).
Rádio, cinema, música e pintura
A versatilidade de Chico Anysio não cabia em um só meio. No cinema, participou de comédias e chanchadas desde os anos 1950 e voltou às telas em Tieta do Agreste (1996) e Se Eu Fosse Você 2 (2009). Em 2009, dublou o protagonista Carl Fredricksen na versão brasileira de Up – Altas Aventuras, ao lado do filho Nizo Neto.
Na música, assinou canções como "Rio Antigo" e "A Fia de Chico Brito" e formou com Arnaud Rodrigues e Renato Piau o grupo Baiano & Os Novos Caetanos, sátira musical que rendeu dois discos de ouro. Também pintou cerca de 300 quadros, apresentados em mostras como a que abriu em Brasília, em 2003. Era, como resume a Enciclopédia Itaú Cultural, um artista completo: rádio, televisão, cinema, música, literatura e artes plásticas na mesma trajetória.
Os livros de Chico Anysio
A literatura acompanhou o comediante desde cedo. Ele publicou mais de vinte livros, a maioria de contos e crônicas, nos quais o humor convive com a observação social. A estreia foi com O Batizado da Vaca (1972), seguida por títulos como O Enterro do Anão (1973), A Curva do Calombo (1974), Negro Léo (1985), O Analista (1996), Salão de Sinuca (2004), 3 Casos de Polícia (2008), O Fim do Mundo é Ali (2011) e a autobiografia Sou Francisco. Na literatura brasileira, sua obra dialoga com a tradição do conto e da crônica de costumes.
Família, casamentos e parcerias
Chico Anysio veio de uma família de artistas: era irmão da atriz Lupe Gigliotti e do cineasta Zelito Viana, tio do ator Marcos Palmeira e pai de oito filhos. Três deles seguiram o humor: Lug de Paula, Nizo Neto e Bruno Mazzeo. Foi casado com as atrizes Nancy Wanderley, Rose Rondelli, Alcione Mazzeo e Regina Chaves, com a economista Zélia Cardoso de Mello e, por último, com a empresária Malga Di Paula, com quem ficou até a morte.
No rádio e na televisão, trabalhou ao lado de nomes que ajudaram a formar o humor moderno brasileiro, como Paulo Gracindo, Grande Otelo, Costinha, Renato Aragão, Agildo Ribeiro e Jô Soares. Muitos desses encontros aconteceram em programas escritos e dirigidos pelo próprio Chico, que fazia questão de controlar o texto e a criação dos quadros.
Últimos anos, morte e legado
Em dezembro de 2010, Chico Anysio foi internado com falta de ar e passou por uma angioplastia; ficou 109 dias hospitalizado e só recebeu alta em março de 2011. Ainda voltou ao ar no Zorra Total, no papel de Salomé, e gravou participações em especiais como Chico e Amigos. Uma nova internação, em novembro de 2011, deu início ao período que terminaria com sua morte em 23 de março de 2012, no Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro, aos 80 anos, por falência múltipla de órgãos.
O velório no Theatro Municipal do Rio de Janeiro reuniu milhares de pessoas. Ele foi cremado, conforme pedido em vida, e parte das cinzas seguiu para Maranguape. Em 2009, havia recebido a Ordem do Mérito Cultural, a mais alta honraria da cultura brasileira; antes, em 1963, ganhara o Troféu Roquette Pinto de melhor humorista. O Vasco da Gama batizou sua sala de imprensa em São Januário com o nome dele, e sua obra segue revisitada em reprises, livros e homenagens.
Por que Chico Anysio ainda é buscado
Quem procura Chico Anysio hoje costuma querer três coisas: rever os personagens e bordões de programas como a Escolinha do Professor Raimundo, entender como ele construiu uma carreira múltipla no rádio, na TV e na literatura, ou encontrar seus livros, muitos deles esgotados e procurados em sebos. A obra dele permanece referência para quem estuda comédia no Brasil, e os números ajudam a explicar por quê: mais de seis décadas de carreira, mais de 200 personagens, mais de vinte livros, dezenas de programas e um acervo de cerca de 300 pinturas.
Marcos da trajetória de Chico Anysio
- 1931 — nasce em Maranguape, Ceará, em 12 de abril;
- 1948 — inicia a carreira na Rádio Guanabara, como locutor e radioator;
- 1957 — estreia na TV Rio com o programa Noite de Gala;
- 1960 — cria o Chico Anysio Show, base de sua produção televisiva;
- 1969 — assina com a Rede Globo;
- 1973 — lança Chico City, seu programa de maior sucesso;
- 1990 — estreia a Escolinha do Professor Raimundo;
- 2004 — publica Salão de Sinuca;
- 2009 — recebe a Ordem do Mérito Cultural e dubla Up – Altas Aventuras;
- 2012 — morre no Rio de Janeiro, em 23 de março, aos 80 anos.




