Quem digita o nome de Jô Soares quase sempre chega pela cadeira da madrugada: o entrevistador de gravata, copo na mesa e pergunta que parecia simples até virar um recado. Menos óbvio, e mais interessante, é que o mesmo humorista que ocupou o SBT e a Globo por décadas também botou Sherlock Holmes para andar no Rio de 1886 e inventou um anarquista de seis dedos atrás de Getúlio Vargas.
José Eugênio Soares nasceu no Rio de Janeiro em 16 de janeiro de 1938 e morreu em São Paulo em 5 de agosto de 2022. Foi apresentador, escritor, dramaturgo, diretor teatral, ator, músico e artista plástico. A página que segue trata da pessoa pública — o humorista que virou talk show, o romancista da Companhia das Letras e o apresentador que a televisão brasileira ainda cita quando discute entrevista ao vivo.
Quem foi Jô Soares e por que o nome ainda é buscado
Jô não é um cargo. É um formato que o Brasil reconhece de longe. Entre 1988 e 1999, no SBT, comandou Jô Soares Onze e Meia. De 2000 a 2016, na TV Globo, apresentou o Programa do Jô. Os dois ciclos somam quase trinta anos de conversa noturna com artistas, políticos, desconhecidos e visitas internacionais. Quem procura o nome hoje costuma querer encaixar esse apresentador no escritor, o ator no diretor, o homem do humorístico no autor de romance policial.
O apelido veio cedo. Na Suíça, no Lycée Jaccard, em Lausana, o José Eugênio virou “Joe”, hipocorístico de Joseph e eco da canção Hey Joe!, de Frankie Laine. Depois encolheu para Jô. A infância carioca passou pelo Colégio de São Bento e pelo Colégio São José de Petrópolis. A família paterna vinha da Paraíba; o pai, Orlando Heitor Soares, era empresário. A mãe, Mercedes Pereira Leal, era dona de casa. Havia diplomacia no horizonte — bisavô conselheiro, estudo no exterior, cinco idiomas em graus diferentes de fluência — e houve um desvio definitivo para o palco e a câmera.
A busca contemporânea também esbarra em trechos do Programa do Jô que seguem circulando no YouTube e em entrevistas que atravessaram gerações. A youtuber Julia Tolezano, por exemplo, passou pelo estúdio quando a web brasileira ainda negociava espaço na TV aberta. O ponto não é nostalgia vazia: é entender por que uma mesma figura pública serve de âncora para humor, televisão e literatura.
Como Jô Soares entrou na televisão e no humor brasileiro
A carreira artística começa na segunda metade dos anos 1950. Estreou no cinema em pontas e, em 1959, apareceu em O Homem do Sputnik, de Carlos Manga, ao lado de Oscarito. Na Record, ficou uma década no elenco da Praça da Alegria. Em 1965 protagonizou as comédias Ceará contra 007 e Mãos ao Ar. Em Família Trapo, a partir de 1967, roteirizava com Carlos Alberto de Nóbrega e interpretava Gordon, o mordomo atrapalhado — último trabalho na emissora.
Na Globo, o humor virou série de sátiras com nome de filme. Faça Humor, Não Faça Guerra (1971) brincava com o slogan hippie em plena Guerra Fria. Satiricom (1973) pisava no título de Fellini e se vendia como “sátira da comunicação”. Planeta dos Homens (1976) desviava O Planeta dos Macacos. Em 1981 veio o primeiro programa solo: Viva o Gordo, com abertura que colava Jô em cenas de cinema e em políticos da época. O espetáculo de palco Viva o Gordo, Abaixo o Regime explicitava o trocadilho com a ditadura ainda vigente. No SBT, o mesmo espírito reapareceu em Veja o Gordo (1988–1990), já em paralelo ao talk show.
- Família Trapo (Record): Gordon, o mordomo, e roteiro ao lado de Carlos Alberto de Nóbrega
- Viva o Gordo (Globo, 1981–1987): primeiro programa solo, sátira e one-man show no palco
- Jô Soares Onze e Meia (SBT, 1988–1999): o talk show que fixou o formato no Brasil
- Programa do Jô (Globo, 2000–2016): a versão mais longa e a aposentadoria da televisão
- Romances na Companhia das Letras, de O xangô de Baker Street (1995) a As esganadas (2011)
O talk show: Onze e Meia, Programa do Jô e o que mudou na entrevista brasileira
Antes de Jô, entrevista noturna no Brasil não tinha o peso de instituição que o formato americano já carregava. Jô Soares Onze e Meia instalou banda ao vivo, convidado no sofá e um apresentador que misturava erudição, deboche e silêncio estratégico. O Quinteto Onze e Meia virou marca de ouvido. Quando voltou à Globo, o aparato cresceu: o Programa do Jô trouxe o Sexteto, produção maior e uma bancada que recebia desde estreante de novela até chefe de Estado.
O método público era reconhecível. Jô lia, citava, cortava o elogio fácil e deixava o convidado se enrolar. Havia espaço para o anônimo e para a celebridade. Havia também o risco do espetáculo: a entrevista longa na TV aberta brasileira sempre oscilou entre conversa e vitrine. O que distinguiu o programa foi a combinação de humor de palco com curiosidade de leitor. Quem assiste hoje a um recorte antigo percebe o ritmo — a pergunta curta, a piada lateral, o retorno seco ao assunto.
Em 2016, Jô se aposentou da televisão. Em 2018 ainda apareceu como comentarista da Copa no Fox Sports, no Debate Final. Não houve volta ao talk show diário. A ausência, para o público que cresceu com a madrugada, explica parte da busca: o formato ficou associado a um nome, e o nome saiu do ar.
Os livros: romance policial, história brasileira e a autobiografia desautorizada
Na prateleira, Jô Soares é outra pessoa. A Companhia das Letras publicou os romances que o deslocaram do estúdio para o século XIX e para o Estado Novo. O xangô de Baker Street (1995) traz Sherlock Holmes e o dr. Watson ao Rio de 1886, a pedido de Dom Pedro II, por causa de um Stradivarius desaparecido — e acaba em série de crimes com orelhas decepadas. O livro virou filme em 2001, dirigido por Miguel Faria Jr., com Joaquim de Almeida, Cláudia Abreu e Caco Ciocler; Jô fez uma ponta como o desembargador Coelho Bastos.
O homem que matou Getúlio Vargas (1998) finge biografia de Dimitri Borja Korozec, anarquista de pai sérvio e mãe brasileira, seis dedos em cada mão, assassino desastrado de tiranos. Assassinatos na Academia Brasileira de Letras (2005) mata imortais no Petit Trianon de 1924 e entrega o caso ao comissário Machado Machado. As esganadas (2011) volta ao Rio de 1938, com serial killer, Filinto Müller e o rádio da Copa do Mundo. Em 2017 e 2018 saíram os dois volumes de O livro de Jô, memórias ditas desautorizadas, escritas com o jornalista Matinas Suzuki Jr.: o primeiro vai do Copacabana Palace aos trinta anos; o segundo entra nos shows e na televisão.
Há títulos anteriores e paralelos — O astronauta sem regime, colaborações com Luis Fernando Verissimo e Millôr Fernandes, crônicas de Copa com Armando Nogueira e Roberto Muylaert — mas os romances da Companhia das Letras são o núcleo literário que o leitor encontra na livraria. A página de cada obra aprofunda proposta e público; aqui basta o arco: o apresentador que leu história o bastante para devolvê-la em tom de comédia sem abrir mão do detalhe de época.
Música, palco, idiomas e o que ficou fora do sofá
Jô tocava, apresentava jazz no rádio (Jornal do Brasil AM e Antena 1 Rio) e gravou discos. Há o compacto O Volks do Ronaldo (1963), o álbum Norminha (1972, Som Livre), o disco de piadas A B... e Outras Estórias (1980) e Jô Soares e O Sexteto - Ao Vivo no Tom Brasil (2000). No teatro, atuou, dirigiu e escreveu. Traduziu quadrinhos de Barbarella, de Jean-Claude Forest. Falava português, inglês, francês, italiano e espanhol, com noções de alemão. Era católico, devoto de Santa Rita de Cássia. Torcedor do Fluminense. Em 2016 foi eleito para a Academia Paulista de Letras, cadeira 33, que pertencera a Francisco Marins.
A vida privada atravessou a tela em poucos episódios públicos. Casou-se com Therezinha Millet Austregésilo, Sílvia Bandeira e Flávia Junqueira Pedras. O filho Rafael morreu em 2014; Jô dedicou-lhe um programa. Em 2007, numa entrevista com Maria Rita, falou do transtorno obsessivo-compulsivo. Nada disso substitui a obra. Serve só para não fingir que o apresentador era apenas o personagem da gravata.
Morte, documentários e como acompanhar a obra agora
Jô Soares morreu aos 84 anos no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, onde estava internado por pneumonia desde 28 de julho de 2022. A notícia veio pela ex-mulher Flávia Pedras e pela assessoria. Em dezembro daquele ano, documentos apontaram insuficiência renal e cardíaca, estenose aórtica e fibrilação atrial. Emissoras reorganizaram a grade. A imprensa internacional registrou a morte. Em 2024 o Globoplay lançou a minissérie Um Beijo do Gordo; em 2025 o +SBT estreou Um Gênio Chamado Jô.
Não há site pessoal ativo que concentre a obra. O caminho público passa pelos livros em circulação, pelos acervos da Globo e do SBT, pelos discos e pelas entrevistas que continuam no ar em recortes. Para quem chega agora, três entradas costumam funcionar: um episódio clássico do talk show, O xangô de Baker Street se o interesse for o romancista, e o primeiro volume das memórias se a pergunta for “como esse homem foi parar naquela cadeira”.
Jô Soares permanece como uma das figuras mais buscadas do humor e da televisão brasileira porque ocupou, ao mesmo tempo, o palco, o estúdio e a estante. A cadeira da madrugada acabou. Os livros e as reprises não.






