O xangô de Baker Street começa com um Rio de 1886 que o leitor reconhece de gravura e de piada ao mesmo tempo: Sarah Bernhardt em turnê, Dom Pedro II no paço e um violino Stradivarius que some da baronesa Maria Luíza. A diva francesa sugere chamar Sherlock Holmes. O imperador aceita. O detetive e o dr. Watson desembarcam no Brasil sem saber que o calor, a feijoada e um serial killer de orelhas decepadas vão estragar o método.
Publicado em 1995 pela Companhia das Letras, o romance de estreia de Jô Soares no gênero policial mistura o cânone de Arthur Conan Doyle com reconstituição do Segundo Reinado. A proposta não é “Sherlock no trópico” como fantasia solta. É um livro que usa o detetive inglês para varrer cortiço, salão, candomblé, polícia e nobreza bajuladora — e, no meio do caminho, humilhar a onisciência de Holmes com uma dor de barriga de vatapá.
O que a trama realmente entrega
Há dois mistérios entrelaçados. Um é o instrumento desaparecido, presente imperial. O outro é uma sequência de assassinatos de prostitutas, com orelhas cortadas e corda de violino deixada no corpo. O delegado Mello Pimenta corre atrás de pistas enquanto Holmes e Watson tentam aplicar a lógica bakeriana a uma cidade que não colabora. O humor nasce do choque de códigos: o detetive analítico contra a malandragem carioca, o Império contra o lodo da rua, a alta cultura francesa contra o terreiro.
Jô não esconde o gosto pelo detalhe de época. Comida, transporte, protocolo de palácio e o circo em torno de Sarah Bernhardt ocupam espaço real na prosa. Quem busca só o “whodunit” pode achar que o cenário fala demais. Quem busca um Rio oitocentista em tom de comédia encontra exatamente isso: reconstituição com piada, sem virar manual escolar.
Para quem este livro faz sentido
O romance serve a três leitores distintos. O primeiro já conhece Holmes e quer ver o personagem fora de Londres, falível, suado, fora do controle. O segundo chega por Jô Soares apresentador e descobre que o humor de palco sobrevive no parágrafo — a frase curta, a citação culta, o trocadilho de salão. O terceiro quer ficção histórica brasileira com crime, sem o tom sisudo do romance de tese.
Não é livro infantil nem pastiche preguiçoso. Há crimes viscerais, prostituição, racismo de época e uma galeria de tipos que o autor trata com ironia, não com folheto. A linguagem é acessível, mas o pacto é adulto: o leitor aceita o anacronismo controlado e a gozação com o mito do detetive infalível.
O filme e o lugar na carreira de Jô
Em 2001, Miguel Faria Jr. adaptou a obra para o cinema, com Joaquim de Almeida, Cláudia Abreu e Caco Ciocler. Jô apareceu como o desembargador Coelho Bastos. A adaptação ampliou o alcance do título e, ao mesmo tempo, fixou a imagem de “o livro do Jô” para quem nunca tinha aberto um romance dele. Na estante, o Xangô continua sendo a porta de entrada: é o mais citado, o mais reeditado e o que melhor explica por que o apresentador insistiu em escrever ficção em vez de só lançar coletânea de piadas.
Quem já leu os romances seguintes percebe o método que nasce aqui. Jô escolhe um recorte histórico brasileiro, planta um crime, mistura figuras reais e inventadas e deixa o humor trabalhar na margem do horror. O Xangô é o laboratório. Os livros posteriores — Getúlio, a Academia, o Estado Novo — repetem a fórmula com outros palcos, nunca com o mesmo detetive inglês.
Como ler e o que não esperar
Não espere fidelidade dogmática ao cânone holmesiano. O prazer está no desajuste. Holmes no Rio perde parte da máquina analítica; o Brasil do Império ganha um olhar estrangeiro que o autor usa para rir da corte e da polícia. Tampouco espere um tratado de candomblé: o xangô do título é gancho cultural e de enredo, não aula de teologia.
A edição em português da Companhia das Letras é o caminho natural para quem lê no Brasil. Há reimpressões e edição econômica em circulação. O livro dialoga bem com quem vem do talk show e quer a outra face de Jô: menos sofá, mais século XIX, o mesmo gosto por citar o que leu e por não deixar o leitor confortável demais com o herói.





