Assassinatos na Academia Brasileira de Letras abre no Petit Trianon com um imortal caindo fulminado no meio do discurso de posse. O senador Belizário Bezerra mal estreou na casa de Machado de Assis e já vira cadáver. Logo outro confrade segue o mesmo caminho: morte súbita, sem sangue, sem violência aparente. A imprensa marrom batiza o caso de “Crimes do Penacho”. Um serial killer literário parece disposto a esvaziar a imortalidade no Rio de 1924.
Publicado em 2005 pela Companhia das Letras, o terceiro romance policial de Jô Soares troca Holmes e o anarquista internacional pelo comissário Machado Machado — chapéu-palheta, fama de sedutor, obstinação de bar. A investigação serpenteia entre o Café Lamas, o teatro São José, o cemitério São João Batista e a Lapa. Suspeitos sobram: políticos, jornalistas, religiosos, nobres falidos, embaixadores, poetas maiores e menores, magnatas da imprensa, atrizes francesas.
O Rio de 1924 como palco do crime
Jô reconstitui um Rio que o texto descreve como ainda não estar nos manuais, só na memória de quem o viveu: chope, teatro, malandragem, assanhamento, protocolo da Academia. A casa de Machado de Assis, habitualmente tratada com solenidade, vira cena de envenenamento e fofoca. O contraste é o motor. A ABL vende eternidade; o assassino trata os imortais como mortalha com penacho.
O comissário Machado Machado é o anti-Holmes por vocação local. Em vez da lógica fria, o método carioca: conversa, ciúme, pista que aparece no café. O livro alia suspense e comédia de costumes. Quem já leu o Xangô reconhece a fórmula — crime em série, figura pública real ou verossímil, miolo histórico carregado de nota de época. A diferença está no clube: aqui o alvo é o próprio panteão das letras, não o Império nem o anarquismo europeu.
Quem aproveita a leitura — e quem pode largar
O livro rende para quem gosta de mistério com humor e para quem tem curiosidade pela Academia como instituição mundana, não só como mármore. Também funciona como retrato de uma elite letrada que Jô conhecia de ouvido: vaidade, discurso, inimizade de gabinete. O leitor que cobra enigma inexpugnável pode se irritar. Críticas públicas já apontaram que o assassino se deixa ver cedo e que a ambientação às vezes sobra à narrativa. Isso não anula o prazer de quem veio pelo tom, não pelo puzzle.
Há veneno, há mortes, há o gosto de Jô por misturar texto e imagem, erudição e gozação. Não é libelo contra a ABL nem biografia disfarçada de acadêmico real. É um romance que usa a casa dos imortais como cenário porque o contraste é irresistível: a língua mais solene do país, o crime mais de chanchada.
O lugar na obra e o que vem depois
Depois do Rio imperial do Xangô e da biografia apócrifa de Dimitri, Assassinatos na Academia Brasileira de Letras fecha um triângulo: três recortes da história brasileira, três modos de matar gente importante, o mesmo autor saído da televisão para a ficção de livraria. O comissário Machado Machado não virou série. Ficou neste livro, o que o torna peça única na prateleira de Jô — um policial de 256 páginas, mais curto que os anteriores, mais concentrado no miolo carioca dos anos 1920.
Em 2011 Jô voltaria ao crime em série com As esganadas, já no Estado Novo. Quem quiser a trilogia informal de assassinatos lê nesta ordem: Holmes no Império, o anarquista no século XX, os imortais em 1924, as vítimas gordas em 1938. Cada um se aguenta sozinho. Este é o mais “de salão”: menos viagem internacional, mais Lapa, mais Academia, mais chapéu-palheta.
A edição de 2005 da Companhia das Letras segue em capa comum e em digital. O título completo importa: não é um ensaio sobre a ABL, é um romance de assassinato ambientado nela. Quem abre o livro atrás de história institucional da casa encontra só o que o enredo precisa. Quem abre atrás de Jô Soares escritor encontra o terceiro round da mesma briga — fazer o Brasil antigo caber numa prosa que ainda ri.





