O livro de Jô Volume 1 chega com o subtítulo que o próprio autor escolheu para se proteger e se expor ao mesmo tempo: uma autobiografia desautorizada. Não é processo, não é depoimento de palanque. É Jô Soares, prestes a completar oitenta anos, ditando e recortando a própria formação com o jornalista Matinas Suzuki Jr., da infância no Rio dos anos 1930 até os trinta anos, quando o estrelato finalmente pega.
A Companhia das Letras lançou o volume em 22 de novembro de 2017. São 480 páginas de memória com verve de romancista. O primeiro tomo não cobre o Programa do Jô. Cobre o que veio antes: o menino do Copacabana Palace, o internato na Suíça, o jazz, as pontas no cinema, o primeiro casamento, a São Paulo em que o humorista se afirma. O segundo volume, de 2018, é que entra nos shows e na televisão. Este aqui é o livro da origem.
O que o volume conta — e o que deixa para depois
Jô reconstrói antecedentes familiares, a meninice privilegiada nos palácios da elite carioca, a mudança para Lausana, os marcos de formação cultural, a paixão pelo jazz, a estreia modesta em pontas no cinema e na TV. O tom é o de quem já escreveu Sherlock no Rio: anedota, detalhe, nome próprio, recusa do mito de self-made man. A infância é dourada e, ao mesmo tempo, material de palco. A conquista do sucesso não vem como epifania; vem como sequência de trabalhos, encontros e teimosia numa São Paulo que o texto descreve como fervilhante.
Matinas Suzuki Jr. não é coadjuvante invisível. O livro nasceu de conversas: Jô narra, o jornalista organiza, o resultado sai em primeira pessoa com o corte de quem sabe que memória é também edição. A “desautorizada” do título funciona como aviso: não esperem a biografia oficial de emissora, nem o acerto de contas jurídico. Esperem o apresentador tratando a própria vida com o mesmo gosto por caso e por citação que usava no sofá.
Para quem este volume vale o tempo
O livro serve a quem quer entender como o José Eugênio virou Jô, não a quem quer o índice do Programa do Jô. Fãs do talk show encontram aqui o menino, o internato, o jazz, o cinema com Oscarito, o começo na Record — o estoque de histórias que depois virava aparte na entrevista. Leitores dos romances reconhecem o narrador: o mesmo olho para época, o mesmo prazer em nomear gente e lugar.
Não é manual de humor nem “como fazer televisão”. Também não é fofoca solta de revista. Há intimidade pública, há família, há o Rio do Estado Novo visto da janela de quem morou perto do poder sem ser o poder. Há, sobretudo, o retrato de uma formação de elite que o autor não disfarça: palácio, colégio, Europa, idiomas. Jô não vende superação de pobreza. Vende o desvio — o diplomata que não houve, o humorista que houve.
Como se encaixa na obra e o que ler em seguida
Depois de quatro romances policiais, as memórias devolvem Jô ao assunto que o público mais pedia: ele mesmo. O Volume 1 é o mais literário dos dois no sentido de formação — infância, aprendizagem, primeira fama. O Volume 2 é o da carreira feita. Quem só puder ler um e vier pela curiosidade biográfica começa neste. Quem vier pelo talk show pode achar o segundo mais denso de televisão; ainda assim, o primeiro explica a voz.
O livro dialoga com o que Jô já tinha ensaiado em crônica e em entrevista: a infância no Rio, o apelido suíço, o jazz, o cinema. A diferença é a escala. São quase quinhentas páginas só até os trinta anos. Isso irrita quem quer o resumo da Globo e recompensa quem quer o romance da formação, com o autor usando a própria vida como tratou Holmes e Getúlio — detalhe, ironia, recusa do herói limpo.
A edição em português da Companhia das Letras, em capa comum e em digital, é a via de livraria. Não se cita preço porque ele oscila. O que não oscila é o recorte: este volume termina onde o mito televisivo ainda não começou de fato. Para o Jô da madrugada, é o prólogo. Para o Jô escritor, é o livro em que o romancista de Baker Street aplica o ofício a si mesmo.





