O homem que matou Getúlio Vargas finge ser biografia e se declara comédia no mesmo fôlego. O protagonista chama-se Dimitri Borja Korozec: pai sérvio, mãe brasileira, seis dedos em cada mão, formação em escola de assassinos, ideologia anarquista de contornos frouxos e uma especialidade — matar tiranos. O problema crônico é a falta de jeito. Com ele, a História quase acontece, quase desanda, quase vira outra.
Lançado em 1998 pela Companhia das Letras, o segundo romance de Jô Soares troca o policial clássico pela farsa histórica de longo curso. O arco público vai de 1914 a 1954, com escalas em episódios que o leitor já viu no livro didático: a Europa da Grande Guerra, Mata Hari, Al Capone, Franklin Roosevelt, Getúlio Vargas. A piada estrutural é a “sincronia arquitetada pelo acaso”: o anarquista está sempre no lugar errado na hora certa, ou no lugar certo com a arma falhando.
Uma biografia inventada para atravessar o século
Jô declara o pacto nas primeiras páginas: isto não é a vida de alguém que existiu. É o retrato de um tipo — o profissional do atentado que nunca fecha o serviço como o manual manda. Dimitri percorre o mundo com a seriedade de quem se formou para o ofício e a desgraça de quem escorrega na casca. O texto trata tiranos e celebridades como figurantes de um vaudeville planetário. A História “verdadeira”, no comentário do próprio livro, às vezes parece coisa de humorista; o romancista só empurra a porta que já estava entreaberta.
O título brasileiro aponta para o desfecho que o leitor nacional espera. Getúlio é o ímã. Jô disse, em depoimento posterior, ter partido da ideia de um sujeito obcecado pelo “grande personagem histórico brasileiro”. O restante da geografia — Chicago, Paris, palácios e porões — existe para atrasar e sabotar esse encontro. O livro é longo o bastante para o gag se transformar em método: cada capítulo planta um fato conhecido e deixa Dimitri tropeçar nele.
Humor, violência e o limite da farsa
Há mortes, atentados e figuras sombrias. O tom, porém, não é o do thriller moral. Jô escreve como quem conta caso no palco: a frase arma o disparo, o detalhe histórico dá o figurino, o fracasso do assassino entrega a risa. Isso não torna o assunto leve para todo mundo. Quem busca biografia real de Vargas, estudo da Era Vargas ou denúncia política vai se frustrar. Quem aceita o anarquista de seis dedos como lente distorcida para o século XX encontra um romance de costume mundial com sotaque brasileiro.
O público natural é o leitor de Jô que já passou pelo Xangô e quer a variação: menos enigma de quarto fechado, mais desfile de nomes célebres. Também serve a quem gosta de ficção histórica irreverente e não se ofende quando a aula vira palhaçada controlada. A prosa é clara, recheada de aparte e de nota de quem leu jornal velho e livraria de história.
O que este livro revela do autor
No estúdio, Jô era o entrevistador que citava. No romance, vira o citador que inventa a testemunha. O homem que matou Getúlio Vargas mostra o mesmo apetite por arquivo — datas, lugares, figurões — agora a serviço de um personagem que nunca acerta a pontaria. É um retrato oblíquo do próprio autor: o brasileiro cosmopolita, o leitor de política internacional, o comediante que desconfia do herói infalível.
Não é continuação do Xangô. Holmes não volta. O gênero muda de policial para biografia apócrifa. O que se repete é o gosto por plantar o crime no miolo da história oficial e deixar o humor trabalhar no detalhe. Quem for ler os dois, o Xangô é o cartão de visitas; este é o livro em que Jô testa até onde a farsa aguenta um século inteiro sem perder o fio do palco.
A edição em português da Companhia das Letras permanece a referência de livraria. Não há preço estável a citar, nem “versão definitiva” além da que circula em capa comum e em digital. O leitor que quer Vargas de historiador deve ir a Lira Neto e afins; o que quer Vargas de Jô Soares entra por esta porta e aceita o anarquista desastrado como guia.





