As esganadas não esconde o assassino. Jô Soares, alinhado ao desprezo de Hitchcock pelo mistério cujo único jogo é descobrir o culpado, entrega cedo quem mata, por que mata e qual a mola psicanalítica da coisa. O delicioso, no sentido torto do termo, está na polícia aparvalhada tentando caçar um criminoso que não desperta suspeita e ainda carrega uma rara característica física, capaz de sabotar os “métodos científicos” da polícia carioca de 1938.
O romance saiu em 2011 pela Companhia das Letras. O Rio é o do Estado Novo. Ao fundo, o nazismo avança e a Segunda Guerra se anuncia. No rádio, o Brasil de Leônidas da Silva perde para a Itália na semifinal da Copa na França. Na Gávea, há corrida de automóveis com Manoel de Oliveira e Chico Landi. Jô usa esses eventos como tapete, não como enfeite: o crime caminha no mesmo chão da ditadura de Getúlio e da cidade que ainda se imaginava capital do país.
O caso, a polícia e a repórter
O alvo do assassino são mulheres jovens, bonitas e gordas. A arma, na síntese pública do livro, passa por doces portugueses irresistíveis — o tom é de crueldade com verniz de farsa. Filinto Müller, o chefe de polícia do Estado Novo, designa um delegado ranzinza, assessorado por um auxiliar obtuso e medroso, com a ajuda de um ex-inspetor sofisticado e culto. A perseguição ganha a companhia de uma repórter-fotógrafa da principal revista ilustrada do país: jovem, viajada, moderna, destemida.
O núcleo narrativo não é o “quem foi”. É o “como essa tropa vai tropeçar até chegar lá”. Jô escreve o policial invertido: o leitor sabe demais, a polícia sabe de menos, a época fornece o figurino e a ironia. O Estado Novo entra como clima de vigilância e de aparato, não como tratado político. Quem conhece Filinto Müller pelo noticiário histórico o reconhece no papel de chefe que manda investigar; o livro não vira biografia dele.
Para que leitor este livro foi escrito
As esganadas conversa com quem já riu no Xangô e na Academia e aguenta um serial killer de premissa pesada contado em tom de comédia. A combinação é deliberada: crimes brutais, requintes de crueldade, sorriso no fim da página. Nem todo leitor assina esse pacto. Se a violência contra mulheres é limite, este não é o livro. Se o limite é o humor de Jô aplicado a assunto feio, o texto avisa cedo o que vem pela frente.
Para o leitor de ficção histórica, o ganho está no Rio de 1938: rádio, revista ilustrada, autódromo, polícia política, vida noturna. Para o leitor de Jô apresentador, o ganho está na frase — a verve de quem conta caso, a nota de época, o personagem secundário que parece ter saído de sketch. O livro tem 264 páginas na edição de estreia: mais curto que o Getúlio, mais concentrado que o Xangô.
O último romance policial e o método Jô
Depois de 2011 Jô não voltou ao romance de assassinato. Foram para as memórias. As esganadas fica, portanto, como o último exercício da fórmula que ele afinou em quatro livros: escolher um ano brasileiro carregado, plantar um crime em série, misturar gente inventada com figurões reais e deixar o humor trabalhar no detalhe. Aqui o ano é o do Estado Novo e da Copa; o figurão policial é Filinto; o tom é o mais explícito quanto à identidade do criminoso.
Não é continuação de Assassinatos na Academia Brasileira de Letras. Machado Machado não reaparece. O Rio é outro, treze anos depois no calendário interno da ficção, sessenta e tantos no calendário do autor. O que se repete é a recusa do policial “limpo”. Jô quer o arquivo e a palhaçada na mesma frase. Quem lê os quatro romances em ordem vê o Império, a primeira metade do século XX, os anos 1920 e o Estado Novo — um tour de crimes pela história oficial, sempre com o apresentador rindo no corredor.
A edição da Companhia das Letras em português é a referência de compra. Há capa comum e digital. O título, no feminino plural, é o do livro e o das vítimas: não há subtítulo a acrescentar, nem versão “definitiva” além da que está em livraria. Quem quer só o Jô da madrugada pode passar. Quem quer o Jô que escreveu crime no Brasil antigo termina aqui o ciclo — e, se ainda restar pergunta sobre o homem, segue para as memórias.





