Athos Damasceno Ferreira fez de Porto Alegre o assunto de uma vida. Nascido na cidade em 3 de setembro de 1902, ele foi poeta, cronista, jornalista, tradutor, crítico literário e historiador, e ficou conhecido sobretudo pelos livros que dedicou à história cultural de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul. Teatro, imprensa, carnaval, indumentária e artes plásticas passaram por suas pesquisas, que seguem sendo consultadas por quem estuda a formação da vida urbana e cultural gaúcha.
Boa parte dessa obra nasceu de um cotidiano pouco literário. Filho de João Armando Damasceno Ferreira e Ana Dias da Silva, estudou em colégios religiosos, aprendeu línguas com Ildefonso Gomes e humanidades com Henrique Emílio Meyer. Iniciou o curso de Direito no Rio de Janeiro, mas não o concluiu. De volta a Porto Alegre, tornou-se funcionário público estadual: trabalhou na Secretaria do Interior e depois na Secretaria de Educação e Cultura, onde se aposentou chefiando a Diretoria de Letras, conciliando o expediente com a pesquisa em arquivos e a colaboração em jornais.
Como começou a carreira de jornalista e tradutor
A partir de 1917, passou a assinar reportagens e crônicas. Colaborou em publicações como Máscara, Província de São Pedro, Eco do Sul, Ilustração Rio-Grandense, Tribuna Ilustrada, Gazeta do Povo, A Federação, Diário de Notícias e Correio do Povo. Foi também tradutor da Editora Globo, um dos fundadores da Fundação Eduardo Guimarães, que chegou a presidir, e integrou o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul e a Comissão Estadual do Folclore.
Na década de 1920, frequentou o grupo de intelectuais que se reunia no Café Colombo, um dos principais pontos de debate literário e político da capital. Ali conviveu com autores que renovavam a literatura local e, segundo depoimentos de colegas, manteve uma posição discreta: preferia observar a cidade a disputar o centro da conversa.
A polêmica com Vargas Netto e a crítica ao regionalismo
Em 1932, Athos Damasceno entrou em uma polêmica que se tornaria célebre ao questionar o regionalismo literário então em voga. Discordando do tradicionalista Vargas Netto, escreveu que a poesia regionalista repetia cenas e tipos — o cavalo, a moça abandonada, a casa velha — sem dar conta de um estado que já tinha cidades, colônias e população diversa. Para ele, o Rio Grande do Sul moderno não caberia na imagem fixa do gaúcho campeiro, e a tradição deveria ser estudada sem embelezamento.
A discussão, recuperada depois em pesquisas acadêmicas, ajuda a entender o método que ele levaria para a história: desconfiar do mito e procurar o cotidiano.
Poesia e ficção: a cidade como personagem
Antes de se dedicar à pesquisa histórica, Athos Damasceno publicou poemas marcados pelo Simbolismo. Poemas do Sonho e da Desesperança (1925), dedicado à esposa Clara, traz um amor espiritualizado e melancólico. Lua de Vidro (1930) já experimenta o Modernismo, e Poemas de Minha Cidade (1936) é apontado como um dos pontos altos do Simbolismo no Rio Grande do Sul, misturando atmosfera crepuscular, humor e ironia. Na prosa de ficção, publicou as novelas Moleque: novelinha de arrabalde (1938) e Menininha (1941) e o livro de contos Persianas Verdes (1967), ambientados em ruas pobres, bares e festas populares.
O historiador da arte e da cultura gaúchas
Foi na história que sua produção ganhou peso duradouro. Imagens Sentimentais da Cidade (1940) recebeu o Prêmio Cidade de Porto Alegre e, junto com Sacadas e Sacadinhas Porto-Alegrenses (1945), entrelaça crônica e ensaio para acompanhar as transformações da paisagem urbana. Vieram depois estudos pioneiros como Jornais Críticos e Humorísticos de Porto Alegre no século XIX (1954), O Teatro em Porto Alegre no século XIX (1954), Palco, Salão e Picadeiro em Porto Alegre no Século XIX (1956) e Apontamentos para o estudo da indumentária no Rio Grande do Sul (1957).
Em Artes Plásticas no Rio Grande do Sul (1971), traçou um panorama da arte no estado desde as origens até o século XX. A pesquisadora Joana Bosak de Figueiredo trata a obra como um discurso fundador e compara o papel do autor na historiografia da arte rio-grandense ao de Vasari para a arte italiana do Renascimento. Guilhermino César afirmou que Athos produziu "a maior escrita de um homem só sobre a capital do Rio Grande do Sul".
Quais livros de Athos Damasceno Ferreira conhecer
Quem chega à obra dele por curiosidade sobre Porto Alegre pode começar por três frentes:
- Poemas de Minha Cidade (1936): a capital vista pela poesia, entre o Simbolismo e a ironia moderna;
- Imagens Sentimentais da Cidade (1940): crônicas de memória e mudança urbana, premiadas na época;
- Artes Plásticas no Rio Grande do Sul (1971): o panorama que fundou a história da arte no estado.
Leitores interessados em teatro, imprensa e cotidiano do século XIX encontram nos estudos históricos o lado mais documental da produção. A obra completa e 28 pastas de pesquisa e correspondência estão depositadas no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul.
Os últimos anos e a memória do escritor
Em 1975, ano de sua morte, Athos Damasceno foi escolhido patrono da Feira do Livro de Porto Alegre. A cidade também batizou uma praça com seu nome. Sua poesia, muito lida enquanto viveu, acabou ofuscada pela geração seguinte — o crítico Luís Augusto Fischer o descreveu como um dos grandes escritores sul-rio-grandenses que ficaram à sombra da qualidade literária de Erico Verissimo. Já a obra histórica continuou sendo citada por quem pesquisa a história da literatura, da imprensa e das artes no sul do Brasil.
O compositor Armando Albuquerque musicou vários de seus poemas, e o crítico Carlos Reverbel o chamava de poeta "de primeira água". O reconhecimento maior, porém, veio dos arquivos: seus levantamentos sobre jornais, palcos e artistas do século XIX atravessaram décadas sem perder utilidade para a pesquisa.




