Ele se definia como “contador de histórias”. O país o leu como romancista de família, cidade e fronteira — e como um dos poucos escritores brasileiros do século XX que chegou a viver só do livro. Quem busca Érico Veríssimo hoje raramente quer uma lista de títulos: quer o homem por trás de Ana Terra, do capitão Rodrigo e da greve de cadáveres em Antares.
Érico Lopes Veríssimo nasceu em Cruz Alta, no Rio Grande do Sul, em 17 de dezembro de 1905, e morreu em Porto Alegre em 28 de novembro de 1975. Pai de Luis Fernando Verissimo, passou pela farmácia falida, pela Revista do Globo, pelas salas de Berkeley e pela direção cultural da União Pan-Americana em Washington. A grafia original, sem acentos — Erico Verissimo —, ainda aparece nas edições da Companhia das Letras.
Quem foi Érico Veríssimo
Foi romancista, contista, tradutor, revisor, diretor de revista e, por um tempo, professor de literatura brasileira nos Estados Unidos. Enquadra-se na geração de 30 do modernismo, a mesma faixa de Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz e Jorge Amado — com uma diferença de recorte: em vez do engenho, da seca ou do cangaço, ele cortou a pequena burguesia urbana de Porto Alegre e, depois, dois séculos de formação gaúcha.
A prosa é clara, quase oral. Antonio Candido o descreveu como romancista “horizontal”: rico em extensão, em destinos cruzados, menos dado ao mergulho psicológico de um único herói. Essa horizontalidade virou método. Em Caminhos cruzados, influenciado pela tradução que fez de Point Counter Point, de Aldous Huxley, várias vidas correm ao mesmo tempo. Em O tempo e o vento, o clã Terra-Cambará carrega o Rio Grande do Sul de 1745 a 1945.
Cruz Alta, a farmácia e a aposta em Porto Alegre
Filho de Sebastião Veríssimo da Fonseca e Abegahy Lopes Veríssimo, cresceu numa casa que hoje é museu. O pai tinha biblioteca grande e gosto por música; a família vinha de proprietários que perderam terra e farmácia. Aos quatro anos, uma meningite complicada com broncopneumonia quase o mata. Estudou no Colégio Venâncio Aires e, em 1920, foi interno no Colégio Cruzeiro do Sul, em Porto Alegre. Em 1922 os pais se separaram. Érico voltou a Cruz Alta, foi balconista no armazém do tio, empregado do Banco Nacional do Comércio, professor particular de inglês e literatura, sócio da Farmácia Central.
A farmácia faliu em 1930. A dívida o perseguiu por dezessete anos. Em dezembro daquele ano, desempregado, mudou-se para Porto Alegre disposto a viver de texto. No ano seguinte casou-se com Mafalda Halfen Volpe, voltou à capital e entrou na Revista do Globo como secretário de redação. Em 1932 já dirigia a revista. Conviveu com Mário Quintana, Augusto Meyer e o círculo do bar Antonello. Os filhos Clarissa (1935) e Luis Fernando (1936) nasceram nesse período.
O primeiro livro, Fantoches (1932), era volume de contos; as vendas foram fracas e um incêndio destruiu o estoque. O primeiro romance, Clarissa (1933), inaugurou o ciclo urbano: uma adolescente do interior numa pensão de Porto Alegre. Caminhos cruzados (1935) lhe valeu o Prêmio da Fundação Graça Aranha — e um depoimento no DOPS, sob suspeita de simpatia comunista. A Igreja também reagiu mal. Ele não era militante de partido; era romancista que expunha desigualdade.
Olhai os lírios do campo e o ofício de viver de literatura
Em 1938 saiu Olhai os lírios do campo. Eugênio Pontes, médico de origem humilde, casa por interesse, abandona o amor e os ideais, e o romance vira o primeiro grande sucesso comercial do autor. Ele próprio escreveu depois: só então pôde fazer da literatura profissão. O livro foi traduzido para várias línguas, virou filme argentino em 1947 e telenovela da TV Globo em 1980.
Nesse mesmo eixo urbano vieram Música ao longe, Um lugar ao sol, Saga e O resto é silêncio. Como conselheiro literário da Editora Globo, ao lado de Henrique Bertaso, indicou Thomas Mann, Virginia Woolf, Balzac. Traduziu Edgar Wallace, Huxley, Hans Fallada, James Hilton, John Steinbeck. A carreira de editor e a de romancista andavam juntas: ele escolhia o que o Brasil lia enquanto escrevia o que o Brasil comprava.
O tempo e o vento: a saga que ficou maior que o autor
A partir de 1947, Érico começou a trilogia que o consagrou. Queria reunir duzentos anos do Rio Grande do Sul num volume; saíram três partes e mais de duas mil páginas: O continente (1949), O retrato (1951) e O arquipélago (1961–1962). De O continente saíram Ana Terra, Pedro Missioneiro, Bibiana e o capitão Rodrigo Cambará — nomes que a escola, a TV e o cinema de 2013 recolocaram em circulação.
O próprio autor marcou 1949 como o ano decisivo: o sucesso popular de Olhai pagava as contas; O continente lhe deu também o succès d’estime da crítica. Em 1961, infartou enquanto revisava O arquipélago. Entregou o original e viajou à Grécia. A saga virou telenovela, minissérie e filme. Continua sendo a porta de entrada mais procurada para quem chega agora.
Berkeley, Washington e a sátira dos mortos
Em 1941, a convite do Departamento de Estado americano, passou três meses nos Estados Unidos e escreveu Gato preto em campo de neve. Entre 1943 e 1945 lecionou literatura brasileira em Berkeley; o diário dessa temporada é A volta do gato preto. Entre 1953 e 1956 dirigiu o Departamento de Assuntos Culturais da União Pan-Americana, em Washington, sucedendo Alceu Amoroso Lima. A família viveu nos Estados Unidos; o filho cresceu entre jazz e colégio americano — o que explica, em parte, o cronista que o país leu depois.
A última fase endurece. O senhor embaixador (1965) ganhou o Prêmio Jabuti. O prisioneiro (1967) fala de guerra absurda e racismo. Incidente em Antares (1971), escrito em plena ditadura, põe sete cadáveres insepultos a denunciar a cidade durante uma greve de coveiros. Em 1964, posicionou-se contra o golpe. A Academia Brasileira de Letras lhe dera o Machado de Assis pelo conjunto da obra em 1954. Recebeu o Troféu Juca Pato. Em 1973 saiu o primeiro volume de Solo de clarineta; o segundo ficou incompleto. Morreu de infarto, em casa, no bairro Petrópolis, em Porto Alegre, dezenove dias antes de completar setenta anos. Deixou esboços de um romance chamado A hora do sétimo anjo.
Por onde começar a leitura
Há pelo menos três entradas honestas, conforme o que se procura:
- Olhai os lírios do campo — o romance de formação e dinheiro, curto o bastante para uma primeira semana;
- O tempo e o vento — O continente — a saga histórica, Ana Terra e o capitão Rodrigo;
- Incidente em Antares — a sátira política tardia, se o interesse for ditadura, moral pública e fantástico.
Clarissa serve a quem quer o ciclo de Porto Alegre no nascedouro. Ana Terra, extraída de O continente, circula em sala de aula como volume autônomo: é atalho, não substituto da trilogia.
O que permanece da obra
Buscar Érico Veríssimo é buscar o romancista que ensinou o sul sem virar cartão-postal, o editor que abriu o catálogo estrangeiro no Brasil e o pai de outra linhagem da literatura brasileira. A casa natal em Cruz Alta é museu. O acervo está no Instituto Moreira Salles. A Companhia das Letras mantém a obra em circulação. O leitor que chega pelo vestibular, pela minissérie ou pelo sobrenome do filho encontra a mesma pergunta útil: por qual livro entrar — e o que essa prosa ainda diz sobre família, poder e cidade no Brasil.





