Numa sexta-feira 13 de dezembro de 1963, sete pessoas morrem na cidade fictícia de Antares. Os coveiros aderiram à greve geral. Os corpos não entram na terra. Recuperam fala, memória e mau humor — e saem pelas ruas a cobrar enterro e a expor o que a cidade esconde. Incidente em Antares, publicado em 1971, é o Veríssimo da última fase: menos saga familiar, mais sátira política, escrito em plena ditadura militar.
O próprio autor resumiu o tom: desta vez abriu a veia da sátira e deixou o sangue correr. Quitéria Campolargo, matriarca, acorda na tumba achando que vai ver o Criador e encontra o cemitério trancado. Junto dela, outros seis defuntos — de classes, partidos e podridões diferentes — formam o coro. O cheiro dos corpos vira metáfora pouco sutil e muito eficaz da podridão moral da cidade.
Como o livro está armado
Quem espera o “incidente” na primeira página se engana. Há um bloco longo de história de Antares — antigo Povinho da Caveira —, das linhagens Vacariano e Campolargo, brigas, mandonismo, tortura e a política local que espelha o Brasil. Só depois o tempo da narrativa aperta: o que gastou cem anos na primeira parte cabe em poucos dias na segunda. O fantástico entra tarde de propósito. Sem o mapa da cidade, os mortos seriam só golpe de efeito.
Antares fica à margem do Uruguai, no Rio Grande do Sul inventado que Veríssimo já usava como laboratório. A diferença em relação a Santa Fé de O tempo e o vento é o sarcasmo. Aqui o regionalismo vira palco de denúncia: corrupção, coronelismo atualizado, violência de Estado. O livro circulou mesmo sob censura; não é panfleto datado, mas também não finge neutralidade.
Para quem este romance serve
- Leitor que já conhece o Veríssimo histórico e quer o autor político;
- Quem busca realismo fantástico brasileiro com chão concreto — greve, enterro, jornal, delegacia;
- Sala de aula que discute ditadura, sátira e cidade interiorana;
- Quem prefere um volume único à trilogia de O tempo e o vento.
O que não esperar
Não é terror. Os mortos não assombram à maneira de gênero; discursam, acusam, constrangem vivos. Também não é o livro mais leve do autor: as primeiras dezenas de páginas pedem paciência de crônica municipal. A recompensa chega quando o incidente de fato começa e a comédia macabra engata no retrato de classe.
A edição da Companhia das Letras / Companhia de Bolso traz o texto canônico em cerca de 440 páginas. Há edição especial posterior; o romance é o mesmo. Vale o volume corrente, estável, em português.
Lugar na obra
Depois de O senhor embaixador e O prisioneiro, Incidente em Antares fecha o arco em que Veríssimo abandona o otimismo do ciclo de Porto Alegre. O rapaz que pintava a capital como metrópole de poesia doméstica passa a olhar o lado sórdido que, segundo ele próprio, o romancista não podia fingir que não via. Se Olhai os lírios pergunta o que se perde na ascensão, Antares pergunta o que a cidade inteira enterra — e o que acontece quando a terra recusa o cadáver.




