Antes da saga, antes do best-seller, houve uma menina numa pensão. Clarissa, primeiro romance de Érico Veríssimo, saiu em 1933 pela Livraria do Globo. Sete mil exemplares levaram cinco anos para se esgotar — número tímido ao lado do que viria, mas suficiente para inaugurar o ciclo de Porto Alegre e um grupo de personagens que reaparece em Música ao longe e Um lugar ao sol. O autor batizou a filha, nascida em 1935, com o mesmo nome.
Clarissa deixa a cidadezinha do interior para estudar na capital e mora na pensão da tia Eufrasina. O olhar é de adolescente: futuro pela frente, pensão pequeno-burguesa ao redor, o Brasil e o mundo dos anos 1930 vazando pelo rádio, pelo jornal e pelas conversas da mesa. O contraponto é Amaro, músico da casa, preso a sonhos que o presente recusa. O livro é curto. A edição da Companhia de Bolso mal passa de 180 páginas.
O que se vê nessa pensão
Veríssimo isola uma fatia da vida — hóspedes, refeitório, vozes que se cruzam — em vez de amarrar um enredo de reviravoltas. Há quem chame isso de “fatia da vida”; o efeito é de ouvido atento. Clarissa é personagem central, não dona absoluta da narrativa: outras falas ocupam o mesmo ar. O próprio texto descreve o refeitório como choque de vozes, tosses, cadeiras e assuntos que não se deixam hierarquizar. É o germe da polifonia que o autor levaria a Caminhos cruzados.
O recorte importa porque desmente a ideia de que Veríssimo “sempre foi” o romancista do pampa. Aqui a Porto Alegre ainda é provinciana, a heroína ainda acredita no amanhã, e o autor, relendo depois, acharia a estória pouco satisfatória como literatura: a vida, escreveu, não era só cromo de poesia doméstica. O comentário é justo e não anula o livro. Clarissa vale exatamente por ser o ponto de partida — o tom claro, o cotidiano, a menina que ainda não viu o lado sórdido que o romancista mais velho passaria a pintar.
Para quem ler agora
- Quem quer o primeiro romance do autor, não o mais famoso;
- Leitor de formação adolescente e romance de pensão, sem fôlego de saga;
- Quem pretende seguir o ciclo: Música ao longe, Um lugar ao sol, a volta de Clarissa e Vasco Bruno;
- Estudo da geração de 30 no sul, quando o modernismo urbano ainda ensaiava o passo.
Como se situa na carreira
Entre Fantoches (contos, 1932) e Caminhos cruzados (1935), Clarissa é a estreia em romance e o ensaio de método. Não tem a força comercial de Olhai os lírios do campo nem a escala de O tempo e o vento. Tem outra utilidade: mostra de onde veio a prosa que o Brasil depois tomou por “fácil” — fácil no vocabulário, não no projeto. O projeto já era ouvir muita gente ao mesmo tempo, numa cidade que o autor insistia em tratar como palco suficiente.
A edição corrente da Companhia das Letras / Companhia de Bolso, com ilustração de Paulo von Poser, é a via estável em português. Quem terminar e quiser o mesmo universo em chave mais dura vai a Caminhos cruzados. Quem quiser o salto de público vai a Olhai os lírios do campo. Clarissa fica como a porta estreita: a menina da pensão, o escritor ainda secretário de revista, o Rio Grande do Sul ainda sem Ana Terra.




