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O tempo e o vento — parte I: O continente

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Abertura da saga O tempo e o vento: Ana Terra, o capitão Rodrigo e a formação da família Terra-Cambará no Rio Grande do Sul.

Quem chega a O tempo e o vento costuma trazer uma pergunta prática: por onde entrar numa trilogia de mais de duas mil páginas? A resposta mais honesta é esta primeira parte. O continente reúne os dois volumes iniciais da saga e entrega os personagens que o Brasil memorizou — Ana Terra, Pedro Missioneiro, Bibiana e o capitão Rodrigo Cambará — antes que a política do século XX tome o primeiro plano.

Érico Veríssimo começou a escrever a obra em 1947 com a ideia de cobrir duzentos anos do Rio Grande do Sul num único livro. O material transbordou. O continente saiu em 1949; O retrato, em 1951; O arquipélago, em 1961–1962. Esta edição da Companhia das Letras junta os vols. I e II de O continente: das Missões e da fundação do povoado de Santa Fé ao Sobrado sitiado pelas forças federalistas, em 1895.

O que esta parte conta

A família Terra-Cambará nasce na fronteira. Pedro Missioneiro, mestiço das Missões, encontra Ana Terra; da relação sai Pedro Terra; Bibiana se casa com o capitão Rodrigo, gaúcho de capa, faca e discurso. O romance não ilustra a história oficial: encena ocupação, guerra, estância, sobrado e o modo como as mulheres sustentam o clã quando os homens partem ou morrem.

Ana Terra é o centro de gravidade. Não é heroína de cartaz; é mulher de trabalho, gravidez, perda e teimosia numa terra que muda de dono à bala. O capitão Rodrigo entra como o tipo do caudilho sedutor — e a saga o usa para mostrar o preço dessa sedução. Santa Fé, cidade inventada, funciona como laboratório do estado: cada geração herda briga, sobrenome e conta a pagar.

Para quem faz sentido

  • Leitor que quer a porta de entrada da saga, não o atalho escolar de Ana Terra avulso;
  • Quem busca romance histórico brasileiro com família no centro, não tratado de batalhas;
  • Professor e vestibular que precisam do Veríssimo “grande”, o da geração de 30 no sul;
  • Quem viu a minissérie ou o filme de 2013 e quer o texto que os personagens realmente habitam.

Como ler sem se perder

O livro vai e volta no tempo. O cerco ao Sobrado em 1895 emoldura relatos mais antigos. Vale aceitar essa oscilação: o presente da família se explica pelo passado que o narrador recupera. A linguagem é clara; o volume é que impõe ritmo. Quem quiser letra maior e tomos mais finos encontra a divisão em sete livros da mesma editora; esta parte I em volume único concentra O continente com custo menor.

Depois desta abertura, O retrato desloca o foco para o doutor Rodrigo Cambará no início do século XX, e O arquipélago mete o clã na política nacional, Getúlio Vargas e o Estado Novo. Começar pelo continente não é capricho: é o único jeito de chegar aos Cambará do século XX sabendo de onde veio o sobrenome.

Por que ainda circula

Érico considerou a publicação de 1949 o marco da carreira: o sucesso de público de Olhai os lírios do campo pagava as contas; O continente lhe deu também a crítica. A trilogia virou telenovela, minissérie e filme, e Ana Terra ganhou volume separado para escola. Nada disso substitui esta parte. Se a busca é pela obra-prima do autor, é aqui que a família Terra-Cambará começa — e é daqui que o resto da saga depende.

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