Em 1988, a Editora Duas Cidades entregou a Augusto Massi a direção de uma coleção de poesia que mudou o lugar dos poetas contemporâneos nas livrarias brasileiras. Até 1991, a Claro Enigma publicou Francisco Alvim, Orides Fontela, José Paulo Paes, Sebastião Uchoa Leite, Alcides Villaça, Paulo Henriques Britto e outros nomes que a crítica passou a ler com atenção renovada. Era o primeiro gesto de um percurso que atravessaria o jornalismo cultural, a universidade e a edição de alguns dos livros mais cuidados da literatura brasileira recente.
Nascido em São Paulo, em 8 de junho de 1959, Massi formou-se em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) em 1983. No ano seguinte, entrou no caderno Ilustrada, da Folha de S.Paulo, onde dirigiu a seção de literatura e entrevistou Adélia Prado, Raduan Nassar e Carlos Drummond de Andrade. Foi também quem organizou a primeira viagem do escritor argentino Jorge Luis Borges ao Brasil.
Quem é Augusto Massi na literatura brasileira?
Massi é poeta, crítico literário e editor, com atuação que se desdobra em quatro frentes complementares: escreve, ensina, edita e pesquisa. Desde 1990, é professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo. Defendeu o mestrado em 1992, com uma tradução comentada de um poema em prosa do espanhol Juan Ramón Jiménez, e o doutorado em 2004, dedicado ao crítico Prudente de Morais, Neto. Na pesquisa, dedica-se à poesia modernista e contemporânea — Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Raul Bopp e João Cabral de Melo Neto entre os modernos; Francisco Alvim, Orides Fontela, Dalton Trevisan e Adélia Prado entre os contemporâneos.
O que Augusto Massi fez como editor?
Entre 2001 e 2011, foi diretor editorial da Cosac Naify, casa que ajudou a transformar o padrão gráfico do livro brasileiro. Antes disso, em 1990, organizou a semana "Artes e ofícios da poesia", no MASP, que reuniu Adélia Prado, Manoel de Barros, Armando Freitas Filho, Glauco Mattoso e outros poetas em depoimentos publicados no ano seguinte em livro. Foi ainda um dos editores da revista de poesia Inimigo Rumor, ao lado de Carlito Azevedo, e da revista Teresa, da pós-graduação em Literatura Brasileira da USP.
À frente da coleção Espírito Crítico, publicada pela Editora 34 com a Duas Cidades, editou volumes de Antonio Candido, Alfredo Bosi, Davi Arrigucci Jr., Flora Süssekind, Roberto Schwarz e João Luiz Lafetá, além de traduções de Walter Benjamin, Theodor Adorno e Erich Auerbach.
Quais são os livros de poesia de Augusto Massi?
Negativo (1991)
Estreia em versos livres que combinam economia de linguagem e observação do cotidiano urbano. Os poemas vão da morte ("Ser") à metalinguagem ("Caixa de ferramentas"), passando pela vida na cidade ("Rondó da consolação", "Cemitério do Araçá") e pelo encontro amoroso ("Bicicleta", "Confissão banal"). O título remete às pranchas da fotografia analógica, que revelam em preto e branco a imagem final.
Vida errada (2001)
Dez anos depois, o segundo livro saiu em tiragem de cem cópias pela coleção Moby Dick, da 7 Letras. Os doze poemas tratam de crises de identidade e de família — tema pouco frequente na poesia brasileira —, com ritmo mais forte dentro das estrofes e aproximação da linguagem oral. A perspectiva de crônica jornalística aparece em textos de humor seco, como "Ponto morto".
Gabinete de curiosidades (2016)
Escrito a quatro mãos com a poeta maranhense Lu Menezes e publicado pela Luna Parque, o livro parte de objetos de uso cotidiano guardados em caixas de ferramentas. Massi escreve sobre pregos, parafusos, argolas, grampos, correntes e dobradiças; Lu Menezes, sobre agulhas, alfinetes e o ato de bordar. A crítica social atravessa os poemas, do automatismo da vida moderna à violência. Em 2020, o poeta lançou ainda a plaquete Borra.
Por que ele escreve livros para crianças?
A parceria com o ilustrador Daniel Kondo rendeu dois títulos de literatura infantil. Monstros do cinema (SESI-SP Editora, 2016) reúne onze monstros clássicos das telas em um livro-brinquedo que pode ser desmontado e remontado; a obra recebeu o prêmio FNLIJ 2017 de melhor livro-brinquedo e o Selo Altamente Recomendável da fundação. Em 2025, os dois publicaram Eletricista (Elo Editora), narrativa verbo-visual sobre o dia a dia de um pai de família que trabalha como eletricista.
O que Augusto Massi edita e pesquisa hoje?
Além da obra própria, Massi assina a organização de edições que reúnem acervos e materiais dispersos. Organizou Poesia completa de Raul Bopp (José Olympio, 1998), Poesia traduzida, de Carlos Drummond de Andrade (Cosac Naify, 2011), Poesia reunida, de Adélia Prado (Record, 2015), e os volumes Diário do hospício e O cemitério dos vivos, de Lima Barreto (Companhia das Letras, 2017). Em 2021, organizou e prefaciou Os sabiás da crônica (Autêntica), antologia que reúne seis mestres da crônica brasileira e foi finalista do Prêmio Jabuti 2022.
Nos últimos anos, o trabalho se concentra em edições críticas: em 2025, assinou com Júlio Castañon e Murilo Marcondes de Moura a Poesia completa de Murilo Mendes (Companhia das Letras); em 2026, colaborou com Ieda Lebensztayn na reedição dos cinco volumes da poesia de Orides Fontela (Hedra).
Por onde começar a ler Augusto Massi?
- Poesia: comece por Negativo e siga por Vida errada, que mostram as duas fases da dicção do autor.
- Diálogo entre poetas: Gabinete de curiosidades, escrito com Lu Menezes, funciona como porta de entrada para quem gosta de poesia que parte de objetos e cenas do cotidiano.
- Prosa de mestre: Os sabiás da crônica apresenta o gênero que Massi pesquisa e ensina, com organização e prefácio assinados por ele.
- Com crianças: Monstros do cinema e Eletricista levam a poesia de Massi ao leitor iniciante, em livros ilustrados por Daniel Kondo.
Para acompanhar a produção acadêmica e as novas edições, vale seguir o perfil dele no Instituto de Estudos Avançados da USP e o verbete da Enciclopédia Itaú Cultural, que registra a obra e a fortuna crítica do poeta. Para conhecer autores que passaram pelas coleções que ele editou, a página de Adélia Prado e a de Carlos Drummond de Andrade ajudam a medir o alcance desse trabalho. E quem quiser entender a poesia que formou sua geração de leitura pode voltar a João Cabral de Melo Neto, uma das referências centrais de Negativo, e a Murilo Mendes, cuja obra completa ganhou nova edição com sua assinatura.





