Quando o cometa Halley cruzou o céu de Juiz de Fora, em 1910, um menino de nove anos viu ali o que chamou de “subversão da vista”. Murilo Mendes diria depois que o astro lhe revelou o mundo da fábula cósmica. Manuel Bandeira, com mais humor do que teologia, afirmou que o poeta penetrou nos céus agarrado à cauda daquele cometa.
Quem busca o nome hoje costuma chegar por um descompasso: ele é citado como um dos poetas centrais do modernismo brasileiro e, ao mesmo tempo, permanece menos escolar do que Drummond ou Bandeira. A obra mistura humor, fé católica, imagens de guerra, barroco mineiro e um surrealismo que ele mesmo recusou tratar como cartilha. Em 2025, a Companhia das Letras reuniu pela primeira vez a poesia completa num volume de 904 páginas, o que devolve o autor à estante corrente sem transformar a biografia em sumário de catálogo.
Quem foi Murilo Mendes?
Murilo Monteiro Mendes nasceu em 13 de maio de 1901, em Juiz de Fora, Minas Gerais, no mesmo calendário em que o Brasil celebrava a Lei Áurea — detalhe que ele gostava de assinalar. Foi poeta, prosador e crítico de artes plásticas. A crítica costuma situá-lo na segunda geração do modernismo, aquela que se afirma a partir de 1930, mas o próprio autor preferia a imagem do franco-atirador: “Não me inscrevo em nenhuma teoria.”
A página de Mário de Andrade ajuda a entender o ambiente em que ele estreou. Em 1931, ao ler Poemas, Mário o colocou entre os “poetas feitos” daquele ano, ao lado de Drummond, Bandeira e Augusto Frederico Schmidt. O juízo importa porque não trata Murilo como epígono da Semana de 22: trata-o como voz já formada, com ritmo e vocabulário próprios.
Como a infância em Juiz de Fora entrou na obra?
Filho de Onofre Mendes, funcionário público, e de Elisa Valentina Monteiro de Barros, Murilo perdeu a mãe em 20 de outubro de 1902, no parto, aos 28 anos dela. O pai casou-se depois com Maria José Monteiro. O poeta riscou a palavra madrasta do vocabulário: chamava Maria José de segunda mãe e via nela “a ternura brasileira”.
Aos sete anos, aprendeu a rimar com o poeta Belmiro Braga, que lhe abriu a biblioteca. Leu Bocage, Antônio Nobre, Cesário Verde, Eça de Queirós. Passou pelo Colégio Moraes e Castro, pelo Colégio Malta e pela Academia de Comércio. Aos 14, já tinha lido Júlio Verne, La Fontaine, Racine, Corneille e Molière. Entrou na Escola de Farmácia por causa de uma garota e saiu logo depois, quando ela saiu.
Em 1917, interno no Colégio Santa Rosa, em Niterói, fugiu para ver os Ballets Russes de Diaghilev no Theatro Municipal do Rio. Viu Nijinski em Le spectre de la rose, Shéhérazade e L’après-midi d’un faune. Chamou o bailarino de segunda anunciação rumo à poesia — a primeira tinha sido o cometa. A família tentou ajeitá-lo em ofícios: telegrafista, prático de farmácia, guarda-livros, cartório, professor de francês em Palmira, hoje Santos Dumont.
No fim de 1920 mudou-se para o Rio, a convite do irmão engenheiro José Joaquim, e virou arquivista no Ministério da Fazenda. Ali, em 1921, conheceu o pintor Ismael Nery. A amizade durou até a morte precoce de Nery, em 1934, e atravessou retratos, discussões filosóficas na Rua São Clemente e a conversão definitiva de Murilo ao catolicismo.
Que relação ele teve com o modernismo e com o surrealismo?
Murilo não esteve no palco da Semana de 1922. Estava no Rio, tinha 21 anos e já frequentava o circuito de artes. Em 1928 publicou o poema-piada “República” na Revista de Antropofagia. Colaborou na segunda “dentição” da revista e na Revista Verde, de Cataguases. O primeiro livro, Poemas (1925-1929), saiu em 1930 pela Livraria Editora Dias Cardoso, em Juiz de Fora, por iniciativa do pai. Recebeu o Prêmio de Poesia da Fundação Graça Aranha.
O livro seguinte de humor, História do Brasil (1933), com capa de Di Cavalcanti, o próprio autor tirou depois da obra completa de 1959, por achar que destoa do conjunto. Ficou Tempo e eternidade (1935), escrito com Jorge de Lima depois da morte de Nery; A poesia em pânico (1937); O visionário (1941); As metamorfoses (1944), com ilustrações de Portinari; Poesia liberdade (1947), escrito sob o espectro da guerra; Contemplação de Ouro Preto (1954).
O surrealismo nele não é adesão de manifesto. Em carta a Francis Picabia, ilustrador de Janela do caos (1949), escreveu que não era surrealista ortodoxo, mas que havia “um estado surrealista na vida”. Conheceu André Breton, René Char, Magritte, Joan Miró. João Cabral de Melo Neto, que o visitou em 1940 na pensão da Rua Marquês de Abrantes, no Flamengo, disse que a poesia de Murilo lhe ensinou a dar precedência à imagem sobre a mensagem, ao plástico sobre o discursivo.
- Poemas (1930) abre o caminho com verso livre e recusa de escola.
- Tempo e eternidade (1935) marca a virada católica após a morte de Ismael Nery.
- Poesia liberdade (1947) enfrenta a Segunda Guerra sem largar a fé na comunhão humana.
- Contemplação de Ouro Preto (1954) assume a mineiridade barroca, o Aleijadinho e as igrejas de Minas.
- Convergência (1970) experimenta grafitos, murilogramas e uma sintaxe que dialoga com o concretismo sem se filiar a ele.
Por que Murilo Mendes foi para Roma?
Em 1947 casou-se com a poeta e tradutora portuguesa Maria da Saudade Cortesão, filha do historiador Jaime Cortesão, exilado do salazarismo. Em 1949, no Rio, encontraram Albert Camus em viagem de conferências. Camus anotou um espírito “fino e resistente”, porém melancólico.
Entre 1952 e 1956 cumpriu missão cultural na Europa: conferências na Sorbonne — inclusive sobre Jorge de Lima, recém-falecido —, Bruxelas, Louvain, Amsterdã e Paris. Em 1956 o governo de Franco o declarou persona non grata e negou visto para lecionar na Espanha. Em 1957, contratado pelo Itamaraty, tornou-se professor de cultura brasileira na Universidade de Roma “La Sapienza” e também em Pisa. Fixou-se na Via del Consolato, 6, endereço que virou ponto de artistas e intelectuais.
Na Itália aproximou-se de Ungaretti, Magnelli, Sophia de Mello Breyner Andresen, Rafael Alberti, Ezra Pound. Publicou Siciliana (1959), bilíngue com prefácio de Ungaretti; Tempo espanhol (1959); a reunião Poesias 1925-1955; depois a prosa de A idade do serrote (1968), Poliedro (1972) e Retratos-relâmpago (1973). Em 1964 selecionou a delegação brasileira da Bienal de Veneza. Em 1972 recebeu o Prêmio Internacional de Poesia Etna-Taormina, já dado a Dylan Thomas, Quasimodo e Ungaretti. Drummond cobrou, no Jornal do Brasil, a indiferença brasileira diante de uma obra “fruto saboroso da cultura brasileira confrontada com valores universais”.
Onde está o acervo e o que sobrou da presença pública?
Murilo Mendes morreu em 13 de agosto de 1975, em Lisboa, na casa do sogro Jaime Cortesão, de síncope cardíaca. Foi sepultado no Cemitério dos Prazeres. A viúva doou biblioteca, documentos e a coleção de arte à Universidade Federal de Juiz de Fora. Em 2005 o acervo ganhou casa própria no Museu de Arte Murilo Mendes (MAMM): livros, correspondência e obras de Vieira da Silva, Magritte, Portinari, Guignard, Flávio de Carvalho e outros nomes com quem ele conviveu.
Entre setembro de 2023 e janeiro de 2024, o MAM São Paulo apresentou a exposição “Murilo Mendes, o poeta crítico: o infinito íntimo”, com curadoria de Lorenzo Mammì, Maria Betânia Amoroso e Taisa Palhares. O recorte mostra o que a escola às vezes esquece: além do verso, ele foi crítico, curador e incentivador de artistas brasileiros na Europa, de Volpi a Goeldi e Weissmann.
Para quem quer sair da ficha de geração literária, o caminho mais limpo hoje é a Poesia completa da Companhia das Letras, as memórias de A idade do serrote e a prosa fragmentada de Poliedro. Outros nomes da literatura brasileira ajudam a montar o mapa; o de Murilo pede leitura lenta, porque a imagem chega antes do recado.
Perguntas frequentes
Murilo Mendes foi surrealista?
Ele absorveu o surrealismo como estado de linguagem e de vida, não como programa de grupo. Frequentou Breton e outros nomes do movimento, mas recusou manifesto e rebanho.
Qual livro começar?
Quem quer o arco inteiro encontra a Poesia completa. Quem prefere prosa de memória, A idade do serrote. Quem busca a fase romana de invenção, Poliedro ou Convergência.
Murilo Mendes tem museu?
Sim. O Museu de Arte Murilo Mendes, em Juiz de Fora, guarda o acervo literário e a coleção de artes plásticas reunida pelo poeta e doada por Maria da Saudade Cortesão Mendes.




