Poliedro é um dos raros voos em prosa de Murilo Mendes e, paradoxalmente, um dos livros em que sua poesia mais aparece. Publicado em 1972, três anos antes da morte, reúne fragmentos que se aproximam do aforismo, do verbete, da memória e da crítica de arte. A reedição da Companhia das Letras, de 2017, devolveu o título ao circuito comercial depois de longa ausência.
Drummond chamou o conjunto de “fruto saboroso da cultura brasileira confrontada com valores universais”. A frase pega o que o livro faz: Mozart, Nijinski, pintura moderna, objetos miúdos e pensamento visual cabem no mesmo bloco, sem pedir uma tese única.
Como o livro está organizado?
São quatro partes: “Microzoo”, “Microlições de coisas”, “A palavra circular” e “Texto délfico”. A divisão não é acadêmica. Cada seção olha o mundo por uma faceta — daí o título. Em “Microzoo”, seres e bichos viram pretexto de observação. Em “Microlições de coisas”, objetos ganham densidade quase de natureza-morta verbal. “A palavra circular” trata da linguagem. “Texto délfico” aperta o oráculo, o enigma, a sentença curta.
Quem chega esperando romance se perde. Quem chega esperando ensaio contínuo também. O gosto está no corte: um parágrafo pode ser retrato, definição, piada ou oração. É o Murilo de Convergência e de Retratos-relâmpago em prosa, na mesma fase romana de reinvenção.
Para quem o livro foi feito
Para o leitor que já tem intimidade com a poesia e quer ver o método funcionar fora do verso. Para quem se interessa por artes visuais e desconfia de crítica em jargão. Para quem lê aforismo — de Nietzsche a Cioran — e tolera o salto. Não é livro de cabeceira “fácil”. É livro de mesa, para voltar, marcar e reler um bloco.
A edição brasileira traz aparato útil: cronologia da vida e da obra, fotos e retratos, contextualização de Júlio Castañon Guimarães e referências. Isso não pesa sobre o texto; ajuda quem não viveu a Roma dos anos 1960-70 nem o circuito de artistas do poeta.
Relação com o restante da obra
Poliedro não compete com a Poesia completa: complementa. Também não substitui A idade do serrote, mais narrativo e mais mineiro. Se o serrote corta a infância, o poliedro gira o olhar maduro — o colecionador, o crítico, o professor de literatura brasileira em Roma, o homem que via fronteiras artísticas “muito fluidas”.
Há humor. Há erudição. Há o risco, honesto, de o leitor achar alguns verbetes herméticos. Murilo nunca foi o poeta do recado único. Este livro deixa isso explícito: a prosa também recusa o rebanho.
Edição e acesso
A capa comum da Companhia das Letras (240 páginas, 2017) é a edição a procurar. Existe e-book com o mesmo conteúdo. O livro físico, em formato 14 × 21 cm, cabe no uso de anotar margens — prática que combina com a forma fragmentada. Quem quer um Murilo “de entrada” talvez comece pelo serrote; quem quer o laboratório tardio vem a este.



