Há poetas cuja prosa de memória soa como rodapé da obra maior. A idade do serrote faz o contrário: é o livro em que Murilo Mendes reescreve a infância de Juiz de Fora com a mesma liberdade de imagem da poesia, só que em períodos largos, irônicos e cheios de gente.
Lançado originalmente em 1968 pela Editora Sabiá e reeditado em 2018 pela Companhia das Letras, o volume tem cerca de 200 páginas. Não é autobiografia linear. É um acerto de contas com o passado, escrito entre 1965 e 1966, quando o autor já vivia em Roma e podia olhar Minas de longe, sem sentimentalismo de cartão-postal.
O que o livro conta — e o que recusa contar
A frase mais citada descreve a cidade natal: Juiz de Fora, no começo do século XX, “era um trecho de terra cercado de pianos por todos os lados.” Dali saem o cometa Halley, o desejo de ir do Brasil à China a cavalo, a formação católica, as sonatas de Mozart e a descoberta da poesia na biblioteca de Belmiro Braga.
O livro recupera personagens e lugares da infância com humor seco. Não há plot de romance de formação. Há galeria: padres, vizinhos, professores, o irmão engenheiro, a segunda mãe, o menino que foge do internato para ver Nijinski. A memória vira matéria verbal, não depoimento de arquivo.
Para quem este livro funciona melhor
Funciona para quem quer conhecer Murilo sem começar por 900 páginas de poesia. Funciona para quem já leu Drummond memorialista e busca outro mineiro, mais fabuloso e menos contido. Funciona para quem estuda a relação entre infância, catolicismo e modernismo, porque o tom nunca é de doutrina: é de invenção.
A edição da Companhia das Letras inclui posfácios de Carlos Drummond de Andrade, Paulo Rónai e Reinaldo Moraes. O trio importa: Drummond lê o companheiro de geração; Rónai lê o artesanato da prosa; Moraes recoloca o livro para o leitor contemporâneo. Não é aparato pesado. É companhia de leitura.
Como ler junto com a poesia
Quem lê A idade do serrote depois da Poesia completa reconhece motivos que a lírica já tinha usado: o cometa, o piano, o internato, a farmácia abandonada, o Rio. Quem lê antes ganha chão biográfico sem ficha. O risco é tratar o livro como “contexto” da poesia. Ele se sustenta sozinho, como prosa inventiva.
O título vale a pausa. Serrote aqui não é só ferramenta: é idade de corte, de aprendizagem e de lâmina sobre o passado. Murilo não pede desculpa pela infância. Ele a recorta, a ilumina e, às vezes, a ridiculariza com ternura. Por isso o livro continua sendo a porta mais hospitaleira da obra em prosa.
O que esta edição não é
Não é diário íntimo, não é reportagem histórica e não é guia turístico de Juiz de Fora. Também não substitui a biografia crítica de Laís Corrêa de Araújo nem o volume da Nova Aguilar. É literatura. A edição impressa da Companhia das Letras, em capa comum, é a forma corrente de acesso; existe versão digital com o mesmo texto.
Se a pergunta for “por onde começar a prosa de Murilo Mendes?”, a resposta mais honesta ainda é esta: pelas memórias que ele mesmo deformou até ficarem fiéis.



