Manuel Bastos Tigre (Recife, 12 de março de 1882 — Rio de Janeiro, 1957) foi poeta, humorista, jornalista, compositor, publicitário e bibliotecário. Ficou conhecido pelos versos satíricos publicados nas primeiras décadas do século XX, pela revista D. Quixote, que fundou e dirigiu entre 1917 e 1927, e por campanhas publicitárias que entraram para a história da propaganda no Brasil, como o slogan “Se é Bayer é bom”.
Quem chega ao nome dele costuma vir por caminhos diferentes: os versos de Versos Perversos, o primeiro jingle brasileiro, a data que homenageia os bibliotecários ou as coletâneas que reapresentam sua obra. Todos esses caminhos levam ao mesmo homem, que fez da ironia um ofício e da biblioteca uma carreira de quatro décadas. Esta página reúne a trajetória, as obras e os projetos ligados a ele.
De Olinda ao Rio: a formação de um homem de muitos ofícios
Filho de Delfino da Silva Tigre e Mari Leontina Bastos Tigre, estudou no Colégio Diocesano de Olinda, onde compôs os primeiros versos e criou o jornalzinho humorístico O Vigia. Diplomou-se pela Escola Politécnica em 1906 e trabalhou como engenheiro da General Electric antes de seguir para o Ceará, onde foi ajudante de geólogo nas obras contra as secas.
Já no Rio de Janeiro, tornou-se redator do suplemento Pingos e Respingos, do Correio da Manhã. Assinando como “Cyrano & Companhio”, comentava os acontecimentos do dia em tom debochado — prática que definiria sua voz pública e o levaria da crônica à publicidade, da poesia ao teatro.
D. Quixote, a revista que marcou o humor brasileiro
Em 16 de maio de 1917, saiu o primeiro número de D. Quixote, semanário humorístico fundado e dirigido por Bastos Tigre. A revista circulou até 1927 e fez da sátira política seu território principal: caricaturas de políticos, provérbios torcidos, um calendário cívico parodiado. Para os editores, a política era uma encenação — e o humor, o modo de expor essa farsa. Os editoriais apareciam assinados por pseudônimos como D. Caixote, Don Xicote e Pancito.
Pela redação passaram nomes como Emílio de Menezes, Lima Barreto, José do Patrocínio Filho, Raul Pederneiras, Julião Machado e J. Carlos. Com essa equipe, D. Quixote se tornou uma das referências do humor gráfico e escrito no Brasil da Primeira República.
Publicidade: os slogans que atravessaram o século
Bastos Tigre é apontado como autor de “Se é Bayer é bom”, slogan da Bayer que correu o mundo, e da letra de “Chopp em Garrafa”, musicada por Ary Barroso e gravada por Orlando Silva em 1934 para divulgar a cerveja Brahma engarrafada. A canção é considerada o primeiro jingle publicitário brasileiro.
O trabalho em publicidade não o afastou da literatura. Ao contrário: a escrita de versos por encomenda virou mais um território para o mesmo talento de versejar com ritmo, rima e deboche.
Bibliotecário por concurso e o Dia do Bibliotecário
Em 1915, prestou concurso para bibliotecário do Museu Nacional, com tese sobre a Classificação Decimal, e passou a ser considerado o primeiro bibliotecário concursado do Brasil. Mais tarde transferiu-se para a Biblioteca Central da Universidade do Brasil, onde serviu por mais de vinte anos. No total, exerceu a profissão por quatro décadas.
Qual é a relação de Bastos Tigre com o Dia do Bibliotecário?
O Dia do Bibliotecário é comemorado em 12 de março, data de nascimento de Bastos Tigre, em homenagem à trajetória dele na área.
Poesia, humor, teatro e música
A bibliografia de Bastos Tigre começa cedo e é extensa: Saguão da Posteridade (1902), Versos Perversos (1905), O Maxixe (1906), Moinhos de Vento (1913), Bolhas de Sabão (1919), Arlequim (1922), Penso, logo... eis isto (1923), A Ceia dos Coronéis (1924), Poesias Humorísticas (1933), Entardecer (1935), As Parábolas de Cristo (1937), Li-Vi-Ouvi (1938), Cancionário (1946), Musa Gaiata (1949) e Sol de Inverno (1955). A produção cobre registros que vão da trova e do poema humorístico à reflexão religiosa.
- Nascimento em 12 de março de 1882, no Recife; morte em 1957, no Rio de Janeiro
- Estreia em livro com Saguão da Posteridade, em 1902
- Fundação da revista D. Quixote em 1917, publicada até 1927
- Slogan “Se é Bayer é bom” e letra de “Chopp em Garrafa”, gravada por Orlando Silva em 1934
- Aprovação no concurso de bibliotecário do Museu Nacional, em 1915
- Candidatura à cadeira 6 da Academia Brasileira de Letras, em 1936
Também escreveu para o teatro — a Enciclopédia Itaú Cultural registra peças como Bric-à-Brac, Dito e Feito, Sorte Grande, Mão Única e Brotinhos e Tubarões — e deixou letras que circularam na música brasileira da era do rádio.
Academia, morte e a memória do poeta
Em 1936, Bastos Tigre apresentou-se candidato à cadeira 6 da Academia Brasileira de Letras, vaga deixada por Goulart de Andrade. Não foi eleito: a escolha recaiu sobre o jornalista Barbosa Lima Sobrinho. A derrota não interrompeu a produção — ele seguiu publicando versos e crônicas até meados da década de 1950.
Morreu no Rio de Janeiro, em 1957, aos 75 anos. A memória veio em camadas: em 1982, o centenário de nascimento rendeu um selo postal brasileiro e o catálogo “As vidas de Bastos Tigre”. Nas décadas seguintes, edições como Instantâneos do Rio Antigo (2003) e Migalhas de Bastos Tigre (2009) reapresentaram seus textos a novos leitores.
Bastos Tigre foi eleito para a Academia Brasileira de Letras?
Não. Ele disputou a cadeira 6 em 1936 e perdeu para Barbosa Lima Sobrinho. A poesia satírica e a atuação na imprensa e na publicidade, porém, garantiram a ele presença duradoura nos estudos sobre o humor e a imprensa no país.
Quem quiser ir além pode começar pelas edições modernas de suas obras, que seguem em catálogo, e pelos projetos reunidos nesta página, que mostram diferentes fases de um autor que fez rir — e pensar — em versos curtos.




