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Lima Barreto

Afonso Henriques de Lima Barreto

Nascimento: 1881 Rio de Janeiro, RJ
Jornalista e romancista carioca do pré-modernismo, autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma e crítico da Primeira República.

Em dezembro de 1915, Afonso Henriques de Lima Barreto pagou do próprio bolso a edição em livro de Triste Fim de Policarpo Quaresma. O romance já tinha saído em folhetim no Jornal do Commercio quatro anos antes; a crítica de gabinete, porém, cercou o autor com o que ele chamou de silêncio implacável. Quem procura esse nome hoje costuma chegar pelo vestibular, pelo subúrbio carioca ou pela pergunta incômoda: como um dos romancistas mais lidos da língua portuguesa foi recusado três vezes pela Academia Brasileira de Letras?

O recorte que importa não é o do mártir póstumo. Lima Barreto foi jornalista, amanuense da Secretaria da Guerra e cronista da Primeira República. Chamou o próprio projeto de literatura militante — expressão que tomou de Eça de Queiroz — e usou romance, conto e crônica para desmontar ufanismo, bacharelismo, racismo e a farsa republicana do Rio de Janeiro em que nasceu e morreu.

Quem foi Lima Barreto

Lima Barreto (1881-1922) é o nome público de um escritor negro carioca identificado com o pré-modernismo. Publicou romances, sátiras, contos e uma massa de textos em revistas ilustradas e periódicos de esquerda. A obra mais conhecida é Triste Fim de Policarpo Quaresma, sátira do patriotismo oficial nos primeiros anos da República. Ao redor dela gravitam o romance de estreia Recordações do Escrivão Isaías Caminha, o póstumo Clara dos Anjos e a coletânea Os Bruzundangas.

A busca contemporânea mistura três intenções. Há o leitor escolar que precisa do enredo de Policarpo Quaresma. Há quem queira a biografia de um autor que escreveu o Rio dos subúrbios, dos amanuenses e dos botequins, longe da confeitaria dos parnasianos. E há quem procure o lugar dele na história intelectual brasileira: um crítico da República que recusou o culto ao dicionário e antecipou, na prosa, o que Manuel Bandeira chamou de fala brasileira.

Essa autoridade não se sustenta por um único título de catálogo. Sustenta-se por um modo de olhar a cidade, a imprensa, o funcionalismo e a cor. Lima Barreto escreveu como quem vive dentro do arranjo que descreve, não como quem observa o povo da janela do centro.

Origem, família e o Rio que ele nunca deixou

Nasceu em 13 de maio de 1881 no Rio de Janeiro, na rua Ipiranga, perto do Largo do Machado. O pai, João Henriques de Lima Barreto, era tipógrafo, funcionário da Imprensa Oficial e tradutor de um manual de compositor. A mãe, Amália Augusta, professora, dirigiu a Escola Santa Rosa e morreu de tuberculose aos 25 anos, quando o filho tinha seis. O viúvo criou quatro filhos. O padrinho do futuro escritor era o visconde de Ouro Preto, ministro do Império — vínculo que abriu escola e, ao mesmo tempo, deixou uma relação fria entre padrinho e afilhado.

A família vinha de uma linhagem marcada pela escravidão: o pai era filho de uma antiga escrava e de um madeireiro português; a mãe, filha de uma escrava agregada. Essa origem atravessa a ficção sem virar slogan. Ela aparece no modo como Isaías Caminha encontra a redação, no destino de Clara dos Anjos e na irritação permanente de Lima Barreto com a República que se proclamou moderna sem desmontar o privilégio.

Cursou o Colégio Pedro II e ingressou na Escola Politécnica em 1897. Não concluiu engenharia. O pai adoeceu psiquicamente e o filho mais velho assumiu o sustento dos irmãos. Em 1903 entrou no funcionalismo da Secretaria da Guerra, onde permaneceu até se aposentar em 1918. A carreira pública não foi detalhe: deu-lhe o ponto de vista do amanuense, do protocolo e da hierarquia que depois viraria matéria de romance.

  • Nascimento e morte no mesmo Rio de Janeiro, entre Laranjeiras, o funcionalismo e o bairro de Todos os Santos.
  • Formação interrompida na Escola Politécnica e vida profissional como amanuense da Secretaria da Guerra.
  • Estreia em livro em 1909, com Recordações do Escrivão Isaías Caminha.
  • Obra-prima em folhetim em 1911 e em livro, por conta própria, em 1915: Triste Fim de Policarpo Quaresma.
  • Três candidaturas à Academia Brasileira de Letras, nenhuma aceita; morte por infarto em 1º de novembro de 1922, aos 41 anos.

Como Lima Barreto se tornou jornalista e romancista

A imprensa veio antes da glória literária e durou mais que ela. Em 1905 colaborou com o Correio da Manhã. Em 1907 passou pela revista Fon-Fon e, sentindo-se desvalorizado, saiu para dirigir Floreal, publicação de vida curta. Também escreveu em ABC e Careta, e em folhas de viés socialista e anarquista. O jornalismo não foi trampolim mundano: foi oficina e campo de batalha. A redação, o furo, o favor e o preconceito racial viraram enredo em Isaías Caminha.

Monteiro Lobato, que depois publicaria Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá pela editora da Revista do Brasil em 1919, já tinha reconhecido o talento em carta de 1916: via na prosa de Lima Barreto fluência e engenho capazes de sombrear os colegas da época. O elogio de Lobato importa porque veio de um editor-escritor, não de um culto póstumo. Em vida, o reconhecimento chegou aos solavancos. Editores do Rio recusavam originais; parte da estreia passou por Portugal.

O estilo que irritou contemporâneos é o mesmo que o sustenta agora. Lima Barreto recusou o preciosismo parnasiano de Coelho Neto e declarou não compreender literatura como culto ao dicionário. Queria beleza intrínseca, substância, não aparência. A prosa coloquial, a frase direta e o humor ácido não eram desleixo: eram ética. Para desmascarar a sociedade, a língua precisava parecer falada. Essa escolha o afastou da elite letrada e o aproximou, depois da morte, dos modernistas e de leitores que reconhecem o Brasil no tom, não no ornamento.

Que livros importam para quem chega agora

Quem entra por Policarpo Quaresma encontra o major patriota que quer o tupi como língua oficial, estuda agricultura em manual e esbarra na República de Floriano Peixoto. O livro é engraçado até deixar de ser. A boa-fé do personagem vira diagnóstico: o país que ele imagina não cabe no país que o cerca. Osman Lins resumiu o desajuste entre o imaginário e o real; o vestibular, com todos os seus defeitos, pelo menos impede que essa sátira suma da circulação.

Quem prefere o choque de estreia vai a Recordações do Escrivão Isaías Caminha, romance de 1909 em que um jovem negro tenta a imprensa e encontra o racismo de classe média disfarçado de profissionalismo. Clara dos Anjos, escrito no fim da vida e publicado em livro só em 1948, leva o mesmo nervo para o subúrbio de Inhaúma, no destino de uma jovem seduzida e abandonada. Os Bruzundangas, saído imediatamente após a morte, inventa uma república para falar do Brasil sem o nome no frontispício. O aprofundamento de cada obra fica nas páginas próprias; aqui basta o mapa: sátira política, romance de imprensa, drama suburbano e crônica de um país que se olha no espelho e não se reconhece.

Há ainda o conto O Homem que Sabia Javanês, atalho perfeito para o método. Um charlatão inventa domínio de um idioma, sobe na carreira e quase representa o Brasil em congresso de sábios. A farsa é leve; a acusação, não. Na Primeira República de Lima Barreto, o título vale mais que o saber, e a aparência governa.

Academia, hospício e a morte aos 41

A recusa da Academia Brasileira de Letras não foi um episódio isolado. Lima Barreto tentou a imortalidade institucional três vezes; nas duas primeiras foi preterido, na terceira retirou a candidatura. O mesmo cemitério de São João Batista que guarda seus restos — quadra 14, jazigo 8024 — abriga o mausoléu dos imortais da ABL. O detalhe geográfico é cruel e verdadeiro. A instituição que fechou a porta ficou, no mapa da cidade, a poucos passos do túmulo.

O alcoolismo e as crises nervosas levaram a internações no Hospício Nacional de Alienados, a primeira em 1914, outra em 1919-1920. Dessas estadias saíram o Diário do Hospício e o romance inacabado Cemitério dos Vivos. Não convém transformar a doença em lenda. Convém ler o que ele escreveu de dentro: o poder psiquiátrico, a classificação racial na ficha de entrada — em 1914 o escrivão o registrou como branco —, a lucidez que insiste em se narrar. Em 1º de novembro de 1922, já aposentado, tuberculoso e alcoólatra, morreu de infarto em casa, no bairro de Todos os Santos. Tinha 41 anos. O pai morreu cerca de 48 horas depois. O enterro foi custeado por amigos.

Por que Lima Barreto ainda é autoridade pública

A redescoberta veio sobretudo a partir das décadas de 1940 e 1950, com o trabalho de Francisco de Assis Barbosa sobre manuscritos, diários e correspondência. Em 2017, a Flip o homenageou, e Lilia Moritz Schwarcz publicou a biografia Lima Barreto: triste visionário, que recoloca o escritor entre raça, cidade e República. Em 1982 a Unidos da Tijuca já o tinha levado para a avenida com o samba-enredo Lima Barreto, mulato pobre mas livre. A filatelia de 1981 e o busto no Rio completam um reconhecimento que a vida negou.

Para o leitor de agora, Lima Barreto continua útil porque escreveu o Brasil oficial contra o Brasil habitado. Não pediu licença ao gosto acadêmico. Não suavizou o funcionalismo, a imprensa nem o racismo de salão. Quem chega pelos livros na Amazon, pela edição da Penguin-Companhia com notas de Schwarcz ou pelo texto em domínio público no Wikisource encontra a mesma tensão: uma literatura que quer intervir, não apenas representar. Essa é a razão pela qual o nome permanece vivo — não como relíquia do pré-modernismo, mas como diagnóstico que ainda reconhece a rua.

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Projetos de Lima Barreto

Clara dos Anjos
Clara dos Anjos
Romance póstumo sobre sedução, raça e subúrbio carioca, escrito no último ano de vida do autor.
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Os Bruzundangas
Os Bruzundangas
Crônicas satíricas póstumas sobre uma república inventada que espelha o Brasil da Primeira República.
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