Antes de Policarpo Quaresma virar leitura de vestibular, Lima Barreto estreou cobrando a conta da imprensa. Recordações do Escrivão Isaías Caminha, de 1909, acompanha um jovem negro que chega à redação com a esperança do diploma e encontra o racismo vestido de profissionalismo. O livro é romance, sátira e acerto de contas. Muita gente lê Isaías e ouve o próprio autor no narrador — e essa superposição, ainda que perigosa, não é acidente.
A estreia saiu às custas do escritor e, em parte, pela via portuguesa, numa época em que as grandes casas do Rio fechavam a porta. O tema não era palatável para o gosto parnasiano: mediocridade, hipocrisia, cor e classe no jornalismo carioca. Isaías quer ser doutor porque o diploma parece o único elevador disponível. O que encontra é um ambiente em que o favor substitui o mérito e a pele decide o tom da conversa.
Imprensa, cor e o romance de formação às avessas
O enredo segue a trajetória de um mulato que tenta a ascensão pela letra. A redação, que deveria ser o lugar da opinião pública, aparece como clube de vaidades, fofoca e preconceito. Lima Barreto conhecia aquele chão: tinha passado pelo Correio da Manhã, pela Fon-Fon e por folhas menores. A força do livro está menos no inventário de tipos e mais no atrito psicológico. O ressentimento do narrador não é enfeite: é o preço de quem entrou num ofício que o olha de cima.
Críticos posteriores notaram o risco: às vezes quem fala é o autor, não só a personagem. Isso empana a distância ficcional e, ao mesmo tempo, dá ao texto uma temperatura que o naturalismo de gabinete não tinha. Isaías Caminha não é um tratado sobre racismo. É a crônica de um homem que descobre, na prática do jornal, que a República proclamada não o reconhece como igual. A crítica social passa pelo nervo, não pelo panfleto solto.
Por que começar por este livro
Quem já leu Policarpo e quer o Lima Barreto menos alegórico e mais autobiográfico encontra aqui o ponto de partida. O romance explica a militância posterior: a desconfiança da imprensa “séria”, o ódio ao bacharelismo, a recusa do estilo enfeitado. Também explica a biografia pública. Sem Isaías, a carreira de jornalista parece só currículo; com Isaías, vira conflito.
O livro serve a leitores de literatura brasileira que buscam o pré-modernismo fora da lista única, a estudantes que precisam entender a relação entre cor, classe e redação no Rio da Primeira República, e a quem pesquisa a formação do romance de imprensa no Brasil. Não promete conforto nem herói vitorioso. Promete um olhar de dentro sobre o ofício que Lima Barreto exerceu de fato.
Limites e o que o texto não disfarça
A estreia é desigual, e a crítica nunca escondeu isso. Antonio Candido viu lucidez no desmascaramento social e, ao mesmo tempo, um narrador que nem sempre transpôs a ideia em forma plena. Osman Lins, em compensação, insistiu na homogeneidade de uma personalidade que atravessa todos os livros. Isaías é o lugar em que essa tensão aparece crua: há páginas de invenção viva e há trechos em que o desabafo empurra a cena.
Isso não anula o livro. Ajuda a lê-lo como estreia de um escritor que recusou o dicionário como templo e pagou o preço. Quem busca uma edição em português na Amazon encontra reimpressões várias; a qualidade do texto e do aparato varia. O critério útil é o mesmo dos outros clássicos em domínio público: preferir edição com revisão responsável, e não a capa mais barulhenta. O que permanece é a pergunta que o romance faz à imprensa brasileira — quem entra, quem fala e quem só aparece como assunto.




