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Os Bruzundangas

Livro
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Crônicas satíricas póstumas sobre uma república inventada que espelha o Brasil da Primeira República.

Bruzundanga é um país inventado para que o Brasil apareça sem o nome na capa. Em Os Bruzundangas, Lima Barreto reúne crônicas satíricas sobre falsa nobreza, pseudoerudição, racismo, pobreza e a política de privilégio da Primeira República. O narrador viaja por uma república de opereta e vai reconhecendo, a cada posto, ministério e salão, o arranjo que o autor já denunciava no Rio real.

O volume saiu em dezembro de 1922, semanas depois da morte do escritor, com nota de Jacinto Ribeiro dos Santos apresentando o texto como o último livro que Lima Barreto havia revisado. O prefácio, no entanto, aponta manuscrito completado em 1917. Ou seja: não é um recado póstumo improvisado. É sátira amadurecida, publicada quando o autor já não podia responder. O gênero é o da crônica de combate, não o do romance de personagens contínuos.

Como a sátira funciona

Em vez de um enredo único, o livro oferece um painel. A República dos Bruzundangas serve de laboratório: ali cabem o doutor sem substância, o político de fachada, o preconceito de cor, a sonegação, o nepotismo e a cultura de aparências que O Homem que Sabia Javanês já tinha condensado num conto. A invenção do nome estrangeirado liberta o texto da crônica datada sem perder o alvo. Quem lia jornais da época reconhecia o Brasil; quem lê agora reconhece o método.

Lima Barreto estava, nesses anos, colaborando com a imprensa de esquerda, apoiando pautas operárias e escrevendo contra o poder dominante. Os Bruzundangas é o desdobramento literário dessa militância, com humor mais largo que o desabafo de Isaías e menos fábula que Policarpo. A graça é o veículo. A mercadoria é o diagnóstico: um país que imita fidalguia, cultua diploma e trata o negro e o pobre como decoração do discurso republicano.

Quem ganha ao ler esta coletânea

O livro serve a quem já conhece o romance maior e quer o Lima Barreto cronista, fragmentado, de ataque curto. Serve a leitores de história da Primeira República que buscam o tom da oposição cultural, não só o manual. E serve a quem estuda sátira política brasileira: aqui está um elo entre o folhetim, a revista ilustrada e o ensaio disfarçado de viagem.

Não é o melhor ponto de partida absoluto — Policarpo continua sendo a porta mais larga. É o livro certo para o segundo passo, quando o leitor já entendeu que Lima Barreto não estava brincando de ufanismo às avessas. A coletânea também interessa a quem pesquisa a recepção póstuma: publicada no ano da morte, ela inaugura o paradoxo do autor que a cidade enterra e, no mesmo movimento, começa a imprimir.

Edição original e edições de agora

A capa histórica de 1922, hoje em domínio público, ainda circula em repositórios e reimpressões fac-símile. No varejo contemporâneo, a Amazon reúne volumes em português de editoras distintas, da coleção escolar à reimpressão simples. Como em todo clássico liberado de direito autoral, o risco é a edição descuidada. O critério prático é texto íntegro, revisão visível e, quando possível, nota que situe as crônicas no jornalismo da época.

Ler Os Bruzundangas ao lado de Policarpo e de Isaías Caminha completa o triângulo. Um mostra o patriota triturado pelo Estado; o outro, o jornalista triturado pela redação; este, o país inteiro triturado pelo próprio teatro institucional. A literatura militante que Lima Barreto reivindicou está aqui em estado puro: menos preocupação com a arquitetura do romance, mais gosto de crônica que encara o poder e não pede desculpa pelo sarcasmo.

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