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Foto de perfil de Bernardo Guimarães

Bernardo Guimarães

Nascimento: 1825 Ouro Preto, MG
Bernardo Guimarães (1825-1884) foi romancista e poeta de Ouro Preto, patrono da cadeira 5 da ABL e autor de A Escrava Isaura e O Seminarista.

Bernardo Guimarães entrou na memória brasileira por uma heroína que muita gente conheceu na televisão antes de abrir o livro. Isaura virou nome próprio, novela e debate sobre escravidão; o homem que a escreveu era um mineiro de Ouro Preto, juiz em Catalão, professor de retórica e poeta formado nas Arcadas, e morreu pobre na mesma cidade em que nasceu.

Quem busca o autor hoje quase sempre quer desfazer esse descompasso: entender quem foi Bernardo Joaquim da Silva Guimarães, por que A Escrava Isaura explodiu em 1875 e por que a crítica insiste em apontar O Seminarista como o romance mais denso da carreira. O perfil trata da pessoa, da formação e do lugar público dele. As obras principais ganham páginas próprias.

Quem foi Bernardo Guimarães

Bernardo Joaquim da Silva Guimarães nasceu em 15 de agosto de 1825, em Ouro Preto, Minas Gerais, e morreu ali em 10 de março de 1884. Foi romancista, poeta, jornalista, magistrado e professor. É o patrono da cadeira nº 5 da Academia Brasileira de Letras, escolhido por Raimundo Correia, e também patrono da cadeira nº 15 da Academia Mineira de Letras.

Filho de João Joaquim da Silva Guimarães, poeta e colaborador de periódicos, e de Constança Beatriz de Oliveira Guimarães, passou a infância e a adolescência em Uberaba e Campo Belo. Voltou a Ouro Preto ainda jovem. Em 1842, com cerca de 17 anos, envolveu-se na Revolução Liberal. Em 1847 entrou na Faculdade de Direito de São Paulo, onde se formou em 1851 e colou grau em 1852.

Na capital paulista conviveu com Álvares de Azevedo e Aureliano Lessa. Com outros estudantes, os três fundaram a Sociedade Epicureia, de inspiração byroniana. Desse período vem a fama de boêmio e a produção de versos satíricos, burlescos e do chamado bestialógico, poesia metrificada sem sentido deliberado. Haroldo de Campos chegou a ler aí um precursor brasileiro do surrealismo. Boa parte dessa poesia, considerada pornográfica à época, não foi publicada e se perdeu.

Direito, magistratura e a vida entre Minas, Goiás e o Rio

Em 1852, no mesmo ano em que estreou em livro com Cantos da Solidão, assumiu o cargo de juiz municipal e de órfãos em Catalão, Goiás, até 1854. Em 1858 foi para o Rio de Janeiro e, no ano seguinte, trabalhou como jornalista e crítico no jornal Atualidade. Em 1861 reassumiu a magistratura em Catalão. Há registro de que, ocupando interinamente o juizado de direito, convocou sessão extraordinária do júri e libertou 11 réus porque a cadeia não tinha condição de abrigá-los.

Voltou ao Rio em 1864. Em 1866 foi nomeado professor de retórica e poética do Liceu Mineiro, em Ouro Preto. Casou-se em 1867 com Teresa Maria Gomes de Lima; tiveram oito filhos. Uma das filhas, Constança, foi noiva do primo poeta Alphonsus de Guimaraens e morreu aos 17 anos. Em 1873 lecionou latim e francês em Queluz, atual Conselheiro Lafaiete. Perdeu empregos, viveu de literatura e morreu sem fortuna. Em 1881, durante visita a Minas, Dom Pedro II quis conhecê-lo e o homenageou.

O romance sertanejo e o lugar no romantismo

Bernardo Guimarães é lido como um dos nomes centrais do regionalismo romântico brasileiro. Enquanto o romantismo de corte e o indianismo de José de Alencar ocupavam o centro do cânone, ele escreveu o interior: fazenda, garimpo, seminário, sertão mineiro e goiano, costumes rurais e o conflito entre desejo, fé, classe e honra patriarcal.

A estreia foi poética, mas o peso público veio da prosa. O Ermitão de Muquém, escrito em 1858 e publicado em 1869, já desloca a ação para o sertão e para o convívio com os índios Tocantins. Em 1872 saíram, em sequência densa, O Garimpeiro, O Seminarista e O Índio Afonso, além de crônicas e novelas de Minas. Três anos depois, a Garnier lançou A Escrava Isaura, o livro que o tornou o romancista mais popular de sua geração.

  • A Escrava Isaura (1875): o romance que o leitor encontra primeiro, ligado à campanha abolicionista e às adaptações para a televisão.
  • O Seminarista (1872): a obra que a crítica costuma preferir, sobre vocação forçada, celibato e amor de infância.
  • O Garimpeiro (1872): o regionalismo de Araxá, Patrocínio e Bagagem, com Elias tentando subir na vida para casar com Lúcia.

Esses três títulos bastam para entender o recorte: um autor de interior que usou o romance para discutir escravidão, religião e desigualdade sem sair do vocabulário romântico de herói, vilão, paisagem e sentimento exagerado.

A Escrava Isaura e o debate que o livro ainda provoca

A Escrava Isaura conta a história de Isaura, filha do feitor branco Miguel e de uma escravizada negra, criada na casa-grande de uma fazenda em Campos dos Goytacazes, no norte fluminense. Educada como moça da elite, ela sofre a perseguição de Leôncio depois da morte da protetora, foge, encontra o abolicionista Álvaro e volta a ser caçada. O enredo é direto. O problema que o livro coloca não é.

Publicado no auge da campanha pela abolição, o romance fez sucesso porque encenou a crueldade da escravidão numa heroína de pele clara, instruída e recatada. O neto do escritor, José Armelim Bernardo Guimarães, argumentou que uma escrava negra não teria o mesmo efeito sobre o público daquele tempo. A crítica posterior viu aí tanto força antiescravista quanto o limite do romantismo: a denúncia passa por uma protagonista distante da senzala. Vale ler o livro com os dois olhos abertos.

A versão da Rede Globo, de 1976, com Lucélia Santos e Rubens de Falco, saiu do Brasil e circulou em dezenas de países; na China, o impacto foi grande o bastante para Lucélia integrar comitiva presidencial décadas depois. A Record fez nova adaptação em 2004. O fenômeno televisivo explica boa parte da busca atual pelo autor. Não explica sozinho o restante da obra.

O Seminarista, a poesia e o que ficou fora da novela

O Seminarista é outra porta, mais áspera. Eugênio, filho de fazendeiro, ama Margarida desde a infância. A família o manda ao Seminário de Congonhas e inventa que a moça se casou. Ele se ordena. No regresso para a primeira missa, encontra o cadáver de Margarida. O romance questiona o celibato clerical e a autoridade paterna com um desfecho trágico, longe do final feliz de Isaura. Por isso tantos leitores e críticos o consideram o livro mais conseguido de Bernardo Guimarães.

Há ainda o poeta. Além de Cantos da Solidão e Inspirações da Tarde, publicou versos em Poesias (1865), Novas Poesias (1876) e Folhas de Outono (1883). Dois poemas satírico-eróticos, O Elixir do Pajé e A Origem do Mênstruo, circularam de forma clandestina em 1875. A viúva Teresa editou póstumo O Bandido do Rio das Mortes.

No mapa da literatura brasileira do século XIX, ele conversa com o romantismo de Alencar e, na instituição que o tomou por patrono, com o realismo de Machado de Assis, primeiro presidente da ABL. Não é o mesmo projeto estético. É o mesmo século discutindo nação, escravidão e forma literária.

Como ler Bernardo Guimarães hoje

Há dois caminhos honestos. Quem chega pela novela pode começar por A Escrava Isaura e em seguida ler O Seminarista, para ver o autor sem o filtro da adaptação. Quem quer o regionalismo mineiro de chão e ofício vai a O Garimpeiro ou ao Ermitão de Muquém.

A página de literatura do site reúne outros nomes do cânone brasileiro. No caso de Bernardo Guimarães, a biografia e a obra precisam andar juntas: a popularidade de Isaura é fato; o juiz de Catalão, o professor de Ouro Preto e o romancista de seminário e garimpo são o resto da pessoa, e é esse resto que a busca costuma esquecer.

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A Escrava Isaura
A Escrava Isaura
A Escrava Isaura, romance de 1875 de Bernardo Guimarães, narra a perseguição de Isaura por Leôncio e virou clássico abolicionista e escolar.
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O Seminarista
O Seminarista
O Seminarista, romance de 1872 de Bernardo Guimarães, narra Eugênio e Margarida e é o livro que a crítica costuma preferir a A Escrava Isaura.
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O Garimpeiro
O Garimpeiro
O Garimpeiro, romance de 1872 de Bernardo Guimarães, segue Elias no interior de Minas em busca de fortuna para casar com Lúcia.
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