Em 1975, um operário subia um muro no palco enquanto o rádio anunciava a final de um campeonato de futebol. Era Muro de Arrimo, monólogo que Carlos Queiroz Telles escreveu, que Antônio Abujamra dirigiu e que Antonio Fagundes levou ao palco como um dos retratos mais duros do Brasil que se apresentava como milagre econômico. O autor da cena nasceu em São Paulo, em 9 de março de 1936, e morreu na mesma cidade em 17 de fevereiro de 1993, aos 57 anos, depois de complicações de uma cirurgia de ponte de safena. Entre uma data e outra, ajudou a fundar o Teatro Oficina, escreveu quase vinte peças, adaptou Camões para os palcos, assinou uma telenovela na TV Tupi e publicou manuais de comunicação que continuam a ser procurados.
Quem foi Carlos Queiroz Telles
Formado em Direito pela Universidade de São Paulo em 1959, José Carlos Botelho de Queiróz Telles — como também aparece registrado — entrou no teatro antes de receber o diploma. Participou da fundação do Teatro Oficina e foi com uma peça de sua autoria, A Ponte, escrita em 1958 e dirigida por Amir Haddad, que o grupo estreou, ainda em fase amadora. A estreia liga o nome do dramaturgo a um dos núcleos que mudariam a cena teatral paulistana nas décadas seguintes.
Antes de viver de dramaturgia, trabalhou como jornalista e publicitário. Desde 1957 passou por empresas de publicidade como empregado ou proprietário, atividade que conhecia por dentro e que mais tarde viraria matéria de peça e de livro. Também lecionou na Fundação Armando Álvares Penteado, a FAAP, em São Paulo.
A virada de 1972 e a dramaturgia dos anos 1970
Queiroz voltou à dramaturgia em 1972 com dois textos que olhavam para a história do Brasil: A Semana — Esses Intrépidos Rapazes e Sua Maravilhosa Semana de Arte Moderna, sobre o movimento de 1922, e Frei Caneca, sobre o religioso que participou da Confederação do Equador. Os dois foram dirigidos por Fernando Peixoto e integrados à recuperação do Theatro São Pedro, projeto conduzido por Maurício e Beatriz Segall.
No mesmo ano veio A Viagem, espetáculo de Celso Nunes produzido por Ruth Escobar que transpôs para o palco o poema épico Os Lusíadas, de Luís de Camões. O trabalho rendeu a Queiroz o prêmio Molière de melhor autor, o Troféu APCA e o prêmio Independência, do Conselho Estadual de Cultura. Em 1973, a APCA voltaria a premiá-lo como melhor autor de teatro.
Em 1975, dois textos consolidaram seu nome. A Bolsinha Mágica de Marly Emboaba partiu de uma notícia de jornal sobre a vida de uma prostituta de baixa condição para falar do milagre econômico em curso; traduzida para o francês, circulou pela Europa e pela América Latina. Muro de Arrimo transformou em monólogo a rotina de um operário da construção civil que ouve a final de um campeonato enquanto levanta um muro, contraponto entre condições de vida duras e a ilusão de um futuro de glórias. A montagem de Antônio Abujamra teve Antonio Fagundes no papel central, em desempenho premiado.
Depois vieram Arte Final, de 1978, em que o autor acerta contas com o mundo da publicidade e reencontra Fagundes sob a direção de Cecil Thiré, Um Trágico Acidente, de 1976, e o infantil A Revolta dos Perus, encenado em 1984 pela Troupe Teatral com direção e cenografia de Augusto Francisco. A peça A Heróica Pancada, escrita sobre um grupo de ex-alunos da Faculdade de Direito, foi proibida em 1973 e permaneceu inédita. O autor também traduziu para os palcos clássicos como Medéia e Ricardo III.
O que Carlos Queiroz Telles escreveu para a televisão e o cinema
Na televisão, assinou com Renata Pallottini a telenovela O Julgamento, exibida pela Rede Tupi às 20h entre 4 de outubro de 1976 e 30 de abril de 1977, com 178 capítulos baseados no romance Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski. A trama acompanha a família Paixão na cidade de Feira das Almas e o assassinato do patriarca, crime pelo qual o filho mais velho é acusado. Dos 178 capítulos, 31 sobrevivem sob guarda da Cinemateca Brasileira e do Arquivo Nacional. Ele escreveu ainda episódios de séries como Carga Pesada e Malu Mulher.
No cinema, foi um dos roteiristas de Os Amantes da Chuva, filme de 1979 dirigido por Roberto Santos, ao lado de Francisco Ramalho Jr. A história do casal cujo amor provoca chuva também chegou ao público jovem em livro publicado pela Editora Moderna.
Comunicação, poesia e livros fora do palco
A veia de publicitário e jornalista rendeu livros que tiveram vida longa fora do teatro. Manual do Cara-de-Pau, ou É Fácil Falar Difícil, publicado pela Best Seller, satiriza o jargão de escritórios, repartições e campanhas publicitárias. Tirando de Letra, apresentado como um manual de sobrevivência na selva da comunicação, da publicidade, do teatro, do jornalismo e da televisão, reúne a experiência de quem circulou por todas essas áreas.
Também escreveu poesia e literatura para jovens, publicada sobretudo pela Editora Moderna — caso de Os Amantes da Chuva, A cama que sonhava e Sonhos, grilos e paixões —, e levou o teatro para o público infantil em A Revolta dos Perus, editado pela Agir. Quem quiser encontrar outros autores do mesmo campo pode navegar pela categoria de literatura do site. O interesse pela linguagem acompanha toda a obra: nos palcos, nos manuais e nos livros juvenis, o autor trabalha com a palavra como matéria-prima.
Principais obras de Carlos Queiroz Telles
- A Ponte (1958), que estreou o Teatro Oficina;
- A Semana e Frei Caneca (1972), dirigidas por Fernando Peixoto;
- A Viagem (1972), adaptação de Os Lusíadas premiada com o Molière;
- Muro de Arrimo (1975), monólogo com Antonio Fagundes;
- A Bolsinha Mágica de Marly Emboaba (1975), montada na Europa e na América Latina;
- Arte Final (1978), sobre o mundo da publicidade;
- A Revolta dos Perus (1984), texto infantil encenado pela Troupe Teatral;
- O Julgamento (1976–1977), telenovela escrita com Renata Pallottini.
Como a obra de Carlos Queiroz Telles é lembrada
Desde 1976, textos seus ganharam montagens em Paris e em outras capitais europeias, com tradução de Jacques Thieriot, e A Bolsinha Mágica de Marly Emboaba também subiu a palcos latino-americanos. A dramaturgia de Queiroz continua sendo estudada: o professor Marco Antônio Guerra dedicou-lhe a pesquisa que virou o livro Carlos Queiroz Telles: história e dramaturgia em cena, no qual resume o projeto do autor como um teatro de eficiência — o teatro possível de quem trabalhava o conteúdo histórico em musical, tragédia, chanchada e drama.
Quem procura entender o teatro brasileiro dos anos 1970 encontra em Queiroz um autor que uniu resistência política, ofício publicitário e experimentação de linguagem. A Enciclopédia Itaú Cultural mantém seu verbete com a ficha completa dos espetáculos, e parte da fortuna crítica está reunida em acervos de teatro do país. Na literatura, seus livros juvenis seguem em catálogo; no palco, peças como Muro de Arrimo e A Bolsinha Mágica de Marly Emboaba continuam sendo referência para montagens e estudos sobre o período.






