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Cartola

Nascimento: 1908 Rio de Janeiro, RJ
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Compositor, cantor e violonista carioca, Cartola (1908-1980) fundou a Estação Primeira de Mangueira e assinou clássicos como "As Rosas Não Falam" e "O Mundo É um Moinho".

Em 1974, quando gravou o primeiro disco solo, Cartola já tinha 65 anos, quatro décadas de sambas compostos e um período de quase uma década em que chegou a ser dado como morto no Rio de Janeiro. O álbum de estreia, lançado pelo selo Marcus Pereira, veio depois de uma trajetória iniciada no Morro da Mangueira e marcada pela fundação de uma das escolas de samba mais conhecidas do país.

Angenor de Oliveira nasceu no Rio de Janeiro em 11 de outubro de 1908 e morreu na mesma cidade em 30 de novembro de 1980. Cantor, compositor e violonista, tornou-se um dos nomes centrais da música brasileira e deixou canções como "As Rosas Não Falam", "O Mundo É um Moinho", "O Sol Nascerá" e "Alvorada", regravadas por sucessivas gerações de intérpretes.

De onde veio o apelido Cartola

Angenor de Oliveira nasceu no bairro do Catete, no Rio de Janeiro, o mais velho de oito filhos. A família logo se mudou para Laranjeiras, onde o menino aprendeu a tocar violão com o pai e recebeu dele, aos oito anos, um cavaquinho. Passou a frequentar ranchos carnavalescos do bairro, como o Arrepiados, e desse convívio levou para a vida adulta boa parte do gosto musical que o definiria. Em 1919, as dificuldades financeiras empurraram a família para o Morro da Mangueira, então uma favela com menos de cinquenta barracos.

Aos 15 anos, abandonou os estudos, que haviam parado no quarto ano primário, e foi trabalhar como aprendiz de tipógrafo e, depois, como servente de obras. Para proteger os cabelos do cimento que caía de cima, passou a usar um chapéu-coco que os colegas comparavam a uma cartolinha. O apelido pegou. O nome também guardava uma história: registrado como Angenor em vez de Agenor, ele só descobriu o equívoco décadas mais tarde, ao tratar dos papéis do casamento com Dona Zica, e preferiu adotar a grafia do documento.

A fundação da Mangueira e o primeiro samba da escola

No morro, Cartola conheceu Carlos Cachaça, amigo por toda a vida e parceiro de dezenas de sambas. Os dois integraram o Bloco dos Arengueiros, criado em 1925 para brincar o carnaval, embrião da Estação Primeira de Mangueira, fundada em 28 de abril de 1928 com Cartola entre os fundadores. O nome e as cores verde e rosa teriam partido dele, que também assinou "Chega de Demanda", o primeiro samba escolhido para o desfile da escola.

A Mangueira venceu desfiles com sambas dele em 1932, com "Pudesse Meu Ideal", parceria com Carlos Cachaça, e em 1948, com "Vale do São Francisco". Em 1935, "Não Quero Mais", também com Carlos Cachaça, saiu premiado. Além de compor, Cartola foi diretor de harmonia da agremiação até o fim dos anos 1930.

Os sucessos dos anos 1930 e o desaparecimento

A primeira gravação de um samba seu veio em 1929, quando "Que Infeliz Sorte" foi lançada por Francisco Alves. O contato com o meio artístico se ampliou: compôs com Noel Rosa, vendeu sambas para Mário Reis e teve "Divina Dama" transformada em sucesso comercial por Francisco Alves em 1933. Carmen Miranda, Aracy de Almeida e Sílvio Caldas estão entre os intérpretes da época que gravaram suas composições.

Em 1940, o maestro Heitor Villa-Lobos o convidou para integrar o grupo de sambistas que gravou, a bordo do navio Uruguai, faixas reunidas pelo maestro americano Leopold Stokowski. Daquela sessão saiu "Quem Me Vê Sorrindo", composição com Carlos Cachaça editada nos Estados Unidos pela Columbia. No mesmo período, Cartola apresentou o programa "A Voz do Morro" na Rádio Cruzeiro do Sul, ao lado de Paulo da Portela, e ajudou a formar o Conjunto Carioca.

A interrupção veio em 1947. Cartola contraiu meningite, ficou três dias em coma e andou de muletas por um ano. Pouco depois, perdeu Deolinda, companheira desde a juventude, e deixou o morro da Mangueira. Passou por empregos modestos, como lavador de carros e vigia, e ficou quase sete anos sem notícias no meio musical, a ponto de conhecidos o darem como morto.

A redescoberta e o Zicartola

Em 1957, o jornalista Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, reconheceu Cartola em Ipanema, onde ele trabalhava como vigia e lavador de carros. A divulgação da redescoberta rendeu apresentações na Rádio Mayrink Veiga e matérias na imprensa. No ano seguinte, ele conseguiu um emprego de contínuo no jornal Diário Carioca e, em 1959, no Ministério da Indústria e Comércio. Nessa fase, Zica — Eusébia Silva do Nascimento, admiradora de seus sambas — o levou de volta ao morro da Mangueira. Os dois se casaram em 1964, e para ela Cartola compôs "Nós Dois".

Em 1963, o casal abriu o Zicartola, restaurante na rua da Carioca, no centro do Rio. Zica cozinhava e Cartola recebia os convidados, transformando a casa em ponto de encontro entre sambistas do morro e a geração ligada à bossa nova. Foi ali que, desafiado pelo amigo Renato Agostini, compôs com Elton Medeiros o clássico "O Sol Nascerá" em cerca de trinta minutos. O bar fechou as portas dois anos depois, mas ficou marcado na história da música popular.

A carreira solo e os discos de 1974 a 1979

O reconhecimento de uma geração mais jovem, que passou a valorizar os sambistas da velha guarda, abriu caminho para a carreira fonográfica de Cartola. Em 1974, aos 65 anos, ele gravou o primeiro LP solo. Em cinco anos, lançou quatro álbuns que reúnem parte essencial de sua obra.

  • Cartola (1974) — disco de estreia solo, pelo selo Marcus Pereira, com produção de João Carlos Botezelli, o Pelão, e arranjos de Dino 7 Cordas. Traz "Alvorada", "O Sol Nascerá" e "Tive Sim".
  • Cartola II (1976) — também pelo selo Marcus Pereira, com produção de Juarez Barroso. Reúne "O Mundo É um Moinho", "As Rosas Não Falam" e "Cordas de Aço", além de "Sala de Recepção" e "Ensaboa", com participação da filha Creusa.
  • Verde Que Te Quero Rosa (1977) — primeiro disco pela RCA Victor, com produção de Sérgio Cabral. A capa, com xícara verde e pires rosa, foi ideia do próprio Cartola. Inclui "Nós Dois", "Tempos Idos" e "Grande Deus".
  • Cartola 70 Anos (1979) — quarto e último álbum de estúdio, também pela RCA Victor e produzido por Sérgio Cabral, com parcerias de Carlos Cachaça, Elton Medeiros e Nuno Veloso.

O legado e as homenagens

A obra de Cartola continuou a circular depois de sua morte. "Não Quero Mais Amar a Ninguém", parceria com Carlos Cachaça e Zé da Zilda, ganhou nova versão com Paulinho da Viola nos anos 1970. Cazuza, Marisa Monte e Ney Matogrosso estão entre os artistas que regravaram seus sambas. Em 1997, Chico Buarque lançou o álbum Chico Buarque de Mangueira, com "Divina Dama" e um medley que inclui "Sala de Recepção" e "Alvorada".

Em 2007, chegou aos cinemas o documentário "Cartola: Música para os Olhos", dirigido por Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, que reconstrói sua vida com imagens de arquivo e depoimentos. O Museu do Samba, no Rio de Janeiro, nasceu como Centro Cultural Cartola, fundado em 2001 pelos netos do sambista e de Dona Zica. Em 2016, a Enciclopédia Itaú Cultural dedicou a ele a exposição Ocupação Cartola. A obra do compositor também foi reconhecida com a Ordem do Mérito Cultural.

Perguntas frequentes sobre Cartola

Qual é a música mais conhecida de Cartola?

"As Rosas Não Falam" e "O Mundo É um Moinho" estão entre as composições mais gravadas e lembradas de sua discografia. Ambas saíram no álbum Cartola II, de 1976.

Qual escola de samba Cartola ajudou a fundar?

A Estação Primeira de Mangueira, fundada em 28 de abril de 1928. Cartola participou da criação e assinou "Chega de Demanda", o primeiro samba da escola.

Quantos anos Cartola tinha quando gravou o primeiro disco?

Ele tinha 65 anos quando lançou o primeiro álbum solo, em 1974.

Com quem Cartola foi casado?

Com Eusébia Silva do Nascimento, a Dona Zica, com quem se casou em 1964 e viveu até 1980. Antes, foi companheiro de Deolinda, que o acolheu na juventude.

Onde Cartola nasceu e morreu?

Nasceu e morreu na cidade do Rio de Janeiro, em 11 de outubro de 1908 e em 30 de novembro de 1980.

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