A infância que o Brasil ainda recita — bananeiras, laranjais, pés descalços à beira do mar — saiu da pena de um poeta que viveu pouco e publicou ainda menos. Casimiro José Marques de Abreu nasceu em 4 de janeiro de 1839, em Barra de São João, no Rio de Janeiro, e morreu aos 21 anos, em 18 de outubro de 1860. Deixou um único livro de poemas em vida, As Primaveras, e um nome tão colado à memória escolar que muita gente chega até ele pelo poema Meus oito anos antes de saber quem foi o autor.
Essa fama fácil esconde um percurso curto e tenso. Filho natural de um comerciante português e de uma fazendeira fluminense, Casimiro foi empurrado para o comércio, escreveu boa parte da obra em Lisboa com saudade do Brasil e voltou ao Rio para frequentar as mesmas rodas em que andavam Machado de Assis e Manuel Antônio de Almeida. A Academia Brasileira de Letras o escolheu depois como patrono da cadeira 6. O município natal, por sua vez, passou a levar o nome dele.
Quem foi Casimiro de Abreu
Casimiro de Abreu foi poeta, dramaturgo, romancista e ensaísta da segunda geração do romantismo brasileiro, também chamada de ultrarromantismo. A Academia Brasileira de Letras descreve a obra dele por um conjunto reconhecível: nostalgia da infância, saudade da terra natal, gosto da natureza, religiosidade ingênua, pressentimento da morte, exaltação da juventude, devoção pela pátria e idealização da mulher amada.
Não era o poeta da vigília sombria de Álvares de Azevedo, nem o versificador da paixão carnal que a própria ABL associa a Junqueira Freire. Casimiro escreveu de dia, em estrofe regular, com cadência cantante. Manuel Bandeira chegou a dizer que ninguém exprimiu melhor as saudades da infância do que o fluminense nas oitavas de Meus oito anos. Massaud Moisés, no outro extremo, usou o mesmo autor como exemplo de lírica imediata, “poeta sem problema”. Os dois juízos convivem até hoje, e ajudam a explicar por que ele continua tão lido e tão discutido.
Da fazenda ao balcão, e de Lisboa de volta ao Rio
Nasceu na Barra de São João, distrito da cidade que hoje se chama Casimiro de Abreu. Era filho de José Joaquim Marques de Abreu, comerciante e fazendeiro português, e de Luísa Joaquina das Neves. Os pais não viveram juntos de modo permanente. A ABL registra essa origem como “filho natural”, dado que o próprio poeta carregou numa sociedade imperial pouco indulgente com essa condição.
Passou a maior parte da infância na propriedade materna, a Fazenda da Prata, em Correntezas. Estudou só o primário: entre 1849 e 1852 frequentou o Instituto Freeze, em Nova Friburgo, onde foi colega de Pedro Luís. Em 1852 foi para o Rio de Janeiro praticar o comércio, ofício que lhe desagradava e ao qual se submeteu por vontade do pai. No ano seguinte embarcou com ele para Portugal.
Lisboa virou oficina literária. Lá Casimiro publicou conto, escreveu a maior parte das poesias, exaltou o Brasil de longe e estreou no teatro. A peça Camões e o Jau foi representada em 1856 no teatro D. Fernando, com sucesso, quando o autor tinha dezessete anos. No mesmo ano, o jornal O Progresso imprimiu o folhetim “Carolina”, e a revista Ilustração Luso-Brasileira publicou os primeiros capítulos de “Camila”. Também colaborou na imprensa portuguesa ao lado de nomes como Alexandre Herculano e Rebelo da Silva.
Voltou ao Rio em 1857, ainda a pretexto de continuar os estudos comerciais. Frequentou festas, bailes e rodas literárias. Escreveu em A Marmota, O Espelho, Revista Popular e no Correio Mercantil, de Francisco Otaviano. Nesse jornal trabalhavam Manuel Antônio de Almeida e o revisor Machado de Assis, companheiros de convívio intelectual. Em 1859 saiu As Primaveras, custeado pelo pai. Em 1860 o velho Abreu morreu. Seis meses depois, o filho também.
Doente de tuberculose, buscou alívio no clima de Nova Friburgo. Sem melhora, recolheu-se à fazenda de Indaiaçu, no município que hoje leva o seu nome, e faleceu em 18 de outubro de 1860, faltando três meses para completar vinte e dois anos.
As Primaveras e o que o Brasil ainda recita
As Primaveras reúne a produção lírica que Casimiro conseguiu publicar em vida. O livro correu o país não só pelos círculos da Corte: caixeiros-viajantes levaram os poemas para províncias distantes, inclusive em edições portuguesas não autorizadas, como registrou o organizador Vagner Camilo. No prefácio, o próprio poeta tratou o volume como “ramalhete das flores próprias da estação”, flores que o vento esfolharia no dia seguinte.
O poema mais conhecido é Meus oito anos. A primeira estrofe — saudade da aurora da vida, tardes à sombra das bananeiras, debaixo dos laranjais — entrou na memória coletiva e na escola. Jean Pierre Chauvin observou que o texto “está gravado em nossa memória coletiva”. Outros poemas pedidos com frequência são A valsa, de musicalidade de salão, e Amor e Medo, o mais celebrado entre críticos. Há ainda Minh'alma é triste, Saudades e a Canção do exílio de Casimiro, paródia consciente da de Gonçalves Dias, não o poema original das palmeiras.
- Meus oito anos: infância, natureza e perda, o texto que mais abre a porta para o autor.
- Amor e Medo: o recuo diante da mulher amada, lido como o ponto de maior densidade lírica.
- A valsa: ritmo de salão, verso curto, musicalidade que a crítica costuma apontar como exemplo.
- Camões e o Jau: estreia teatral em Lisboa, aos dezessete anos.
- Carolina e Camila: prosa de 1856, menos lembrada do que a poesia, mas parte da mesma carreira curta.
Quem busca Casimiro de Abreu para estudo, vestibular ou leitura de literatura brasileira encontra, portanto, um autor de catálogo pequeno e penetração grande. O livro único concentra o que ele teve tempo de publicar; o resto da presença pública veio da circulação posterior, das antologias e da escola.
Crítica, Academia e o município que leva o nome dele
A popularidade nunca livrou Casimiro de um juízo áspero. Bandeira considerou injusta a opinião que se formou em torno dele, mesmo quando veio de nomes prestigiosos. A ABL, ao mesmo tempo em que reconhece o sentimentalismo e a simplicidade, observa que a visão de mundo do poeta está ligada ao universo burguês das chácaras e jardins do Império: caçar passarinho na infância, armar rede para o devaneio, namorar quando rapaz.
Esse recorte importa para não transformar o autor numa estátua de “poeta da infância” e nada mais. Há ternura, sim. Há também medo da morte precoce, idealização amorosa e um patriotismo de quem escreveu longe de casa. O único momento que a ABL aponta como amargura mais violenta é o poema “Meu livro negro”. No restante, o drama entra menos compacto.
Teixeira de Melo, fundador da cadeira 6 da Academia Brasileira de Letras, escolheu Casimiro como patrono. A homenagem institucional cruzou com outra, geográfica: a antiga Barra de São João passou a se chamar Casimiro de Abreu. A casa natal hoje abriga o Museu Casa de Casimiro de Abreu. Para quem visita a região ou pesquisa a biografia, o mapa e o nome da cidade são parte da fortuna póstuma do poeta, não um detalhe turístico solto.
Como ler Casimiro de Abreu hoje
O caminho mais direto continua sendo As Primaveras. A edição da Martin Claret, com organização e estudo, é uma porta frequente no catálogo brasileiro. Quem quiser um recorte menor encontra antologias como os Melhores poemas com seleção e prefácio de Rubem Braga. Em qualquer caso, vale ler o poema famoso e seguir para Amor e Medo e A valsa antes de decidir se o autor “é só infância”.
Casimiro de Abreu não deixou método, curso, empresa nem rede social. A autoridade dele é outra: um poeta do século XIX que ainda organiza a conversa sobre saudade, juventude e lirismo no Brasil, com um livro só e um município inteiro no nome. Para o leitor de agora, o ganho está em separar o retrato escolar da obra que de fato existe, curta, musical e disputada pela crítica.



