No enterro de Álvares de Azevedo, em abril de 1852, Joaquim Manuel de Macedo leu um poema escrito um mês antes, com o poeta ainda acamado: Se eu morresse amanhã. Não era efeito de palco. Era um rapaz de vinte anos, paulista, aluno de Direito no Largo de São Francisco, que saiu da cama para o mito.
Quem busca o nome hoje quase sempre chega pela escola: segunda geração romântica, mal do século, Byron, morte precoce. O atalho funciona e engana ao mesmo tempo. Álvares de Azevedo publicou pouco em vida. A obra que o fixou — Lira dos vinte anos, Noite na taverna, Macário — veio depois, e veio com duas vozes, uma lânguida e outra irônica. O perfil que segue trata da pessoa e dessa divisão, sem transformar o poeta num cartaz de sofrimento.
Quem foi Álvares de Azevedo
Manuel Antônio Álvares de Azevedo nasceu em São Paulo em 12 de setembro de 1831 e morreu no Rio de Janeiro em 25 de abril de 1852. Foi poeta, contista, dramaturgo e ensaísta. Na Academia Brasileira de Letras, é o patrono da cadeira 2, escolhido por Coelho Neto. Na literatura brasileira do século XIX, ocupa o centro da segunda geração romântica, a linha byroniana que a escola chama de ultrarromantismo.
O nome completo importa porque a busca mistura gente. Há quem confunda o poeta com Aluísio Azevedo, romancista naturalista de O Cortiço, nascido um quarto de século depois. São autoridades distintas, de escolas distintas. Álvares de Azevedo é o rapaz da lira, da taverna e do diálogo com o Diabo; Aluísio é o romancista do cortiço e da pensão.
A reputação pública dele se apoia em três fatos duros. Viveu pouco. Escreveu depressa. Quase tudo o que o leitor encontra hoje saiu depois da morte. Em 1866, Machado de Assis escreveu na Semana Literária que Álvares de Azevedo era realmente um grande talento e que só lhe faltou o tempo. O juízo não pede lenda. Pede o catálogo curto e a idade no atestado.
São Paulo, o Rio e o Largo de São Francisco
Filho de Inácio Manuel Álvares de Azevedo e de Maria Luísa Mota Azevedo, o poeta nasceu na casa do avô materno, na esquina das atuais Senador Feijó e Quintino Bocaiuva, em São Paulo. A família logo se transferiu para o Rio de Janeiro, então capital do Império. Lá fez os estudos primários e secundários. Em 1840 frequentou o Colégio Stoll, em Botafogo. Em 1845 entrou no internato do Colégio Pedro II, onde teve como professor Domingos José Gonçalves de Magalhães. Em 5 de dezembro de 1847 recebeu o grau de bacharel em Letras.
Em 1º de março de 1848 matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo, no Largo de São Francisco. A cidade lhe parecia provinciana. Mesmo assim foi aluno aplicado, fundou a Revista Mensal da Sociedade Ensaio Filosófico Paulistano e conviveu com outros nomes da letra, entre eles José de Alencar e Bernardo Guimarães. Há relatos de uma Sociedade Epicureia inspirada em Byron; a existência do grupo e o grau de participação do poeta ainda dividem estudiosos. O que não se discute é o volume de escrita nesses quatro anos: poemas, contos, tentativas dramáticas, ensaios, discursos e cartas.
A morte, aos 20 anos, continua mal contada. A versão tradicional fala em tuberculose, doença que o século XIX gostava de colar nos poetas do mal do século. A versão mais aceita hoje descreve uma queda de cavalo em Itaboraí, um abscesso na fossa ilíaca e septicemia. O enterro foi no dia seguinte. Os restos mortais estão no Cemitério de São João Batista, no Rio. No Largo de São Francisco, o busto do Centro Acadêmico XI de Agosto ainda marca o estudante que a faculdade não viu diplomar.
- Nascimento: 12 de setembro de 1831, São Paulo.
- Formação: Colégio Pedro II e Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.
- Morte: 25 de abril de 1852, Rio de Janeiro, aos 20 anos.
- Reconhecimento institucional: patrono da cadeira 2 da Academia Brasileira de Letras.
- Núcleo da obra: Lira dos vinte anos, Noite na taverna e Macário, publicados em grande parte após 1852.
O que ele escreveu e o que virou lenda
Em vida, Álvares de Azevedo publicou poemas soltos, artigos e discursos. O restante chegou em volumes póstumos. A poesia completa se organiza em Lira dos vinte anos, Poesias diversas, O poema do frade e O Conde Lopo. A prosa narrativa que o leitor realmente procura é Noite na taverna. A peça completa é Macário. Há ainda estudos críticos, traduções, fragmentos de romance e a correspondência.
Lira dos vinte anos é a única coletânea de poemas que o próprio autor organizou. Ele a descreveu como medalha de duas faces: de um lado Ariel, o sublime; do outro Calibã, o grotesco. Na primeira parte, a mulher aparece como virgem ideal, e o amor, a saudade e a morte são tratados com seriedade. Na segunda, o tom vira zombaria: a “fada aérea” do poema É ela! É ela! É ela! É ela! é a lavadeira na janela, com o ferro de engomar na mão. Quem só conhece o Álvares de antologia escolar perde exatamente essa segunda corda.
Quando em meu peito rebentar-se a fibra
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nem uma lágrima
Em pálpebra demente.
O trecho é de Lembrança de morrer, na primeira parte da Lira. O contraste com a lavadeira não é capricho. É o método. O mesmo cérebro escreve o soneto pálido e a charge. Por isso a página da pessoa não pode virar só um altar do spleen. O tédio, o charuto, a orgia imaginada e a ironia de estudante pertencem ao mesmo autor.
Noite na taverna leva essa liberdade para a prosa. Cinco amigos embriagados relatam experiências amorosas atravessadas por crime, assassinato e violações que a prosa romântica brasileira raramente encara de frente. Macário, “tentativa dramática”, põe um jovem diante de Satã numa estalagem e, na segunda parte, diante de Penseroso. São textos curtos, lidos em poucas horas, e ainda assim densos o bastante para vestibular, estudo universitário e leitura noturna de quem quer o gótico em português do Brasil.
Por que a obra ainda circula
Há um motivo escolar e um motivo literário, e os dois se cruzam. Na educação básica e no vestibular, Álvares de Azevedo é o exemplo pronto da segunda geração: subjetividade, pessimismo, fuga, morte. O risco dessa ficha é achatar o autor num único humor. A Lira não é só lamento. É também troça, cena doméstica e desejo sem eufemismo. A crítica recente tem insistido exatamente nisso: o erótico sem subterfúgio, a prosa gótica e a “lira de duas cordas”.
O outro motivo é biográfico, e precisa de contenção. A morte aos 20 anos, o poema lido no enterro e a tuberculose da lenda formam um pacote irresistível. Ele ajuda a vender o mito e atrapalha a leitura. O acidente a cavalo e a infecção não são menos trágicos; são só menos teatrais. Tratar a biografia com essa nuance evita transformar o estudante do Largo de São Francisco num santo do spleen.
Machado de Assis, ao medir a idade contra os papéis deixados, viu seiva e imaginação. Lopes de Mendonça, em 1855, descreveu um jovem que cantava porque lhe ardia no peito um fogo, não para comover a plateia. São juízos de época, úteis porque mostram que a autoridade pública de Álvares de Azevedo não nasceu no livro didático do século XXI. Nasceu cedo, na imprensa do Império, e sobreviveu à troca de gerações.
Por onde começar a leitura
Quem quer o poeta da antologia começa por Lira dos vinte anos e lê as duas primeiras partes seguidas, sem pular a ironia. Quem quer o gótico em prosa vai direto a Noite na taverna. Quem quer o teatro de ideias abre Macário. Os três textos se conversam: o mesmo tédio, o mesmo desejo, a mesma recusa do bom-mocismo romântico.
Na hora de escolher edição, o critério prático é texto integral em português, sem recorte escolar que apague a segunda parte da Lira ou os contos mais ásperos da taverna. Há muitas reimpressões. O que muda é capa, notas e formato. A obra, essa, cabe numa estante curta. Álvares de Azevedo não deixou velhice literária. Deixou um núcleo fechado, lido demais em resumo e de menos em volume. A melhor correção é abrir o livro e ouvir as duas almas que ele mesmo confessou ter colocado ali.




