Macário é a peça completa de Álvares de Azevedo, escrita entre 1850 e 1852 e publicada no ano da morte do autor. Não é drama de palco no sentido estreito. É texto para ser lido: duas partes, diálogo contínuo, pouco cenário e muita ideia. Um jovem chega a uma estalagem, encontra um estranho e descobre que conversa com Satã. Na segunda parte entra Penseroso, figura de traço angelical, e o debate muda de eixo.
O parentesco com o Fausto é evidente e assumido. Macário não “copia Goethe” como exercício de colégio. Usa o pacto, o tédio e a tentação para pôr na mesa o que o poeta já ensaiava em verso: viver sem amar, amar sem crer, crer sem descanso. A crítica costuma chamar o texto de tentativa dramática, rótulo do próprio ambiente romântico. O rótulo acerta o gênero e erra o peso. A peça é curta, de cerca de noventa páginas na edição recente, e ainda assim concentra o teatro de ideias do autor.
Duas partes, três vozes
Na primeira parte, o diálogo com Satã é o motor. Macário chega, fala, ouve, se deixa levar. O Diabo aqui não é só assombração de folheto. É interlocutor culto, irônico, disposto a discutir amor, glória e o vazio de quem tem vinte anos e já se declara gasto. Na segunda parte, Penseroso desloca o jogo. Diante dele, Macário fala de esperança, felicidade e da morte do coração. O conflito deixa de ser só sedução e vira comparação de almas, no mesmo espírito da medalha de duas faces da Lira.
Quem lê teatro no papel precisa aceitar a falta de grande aparato. Pouca rubrica, muita fala. O prazer está no vaivém dos argumentos e em frases que poderiam estar num poema e estão numa boca. Há trechos de lirismo alto e trechos em que o tédio se declara sem metáfora. A peça não esconde essa oscilação. Ela vive dela.
Para quem e em que ordem
Macário serve a quem já conhece a poesia e quer o autor em diálogo, e a quem prefere teatro filosófico antes do cancioneiro. Não é o melhor primeiro livro para o leitor que busca enredo de crime; esse leitor está em Noite na taverna. Tampouco substitui a Lira como mapa da voz. Completa o mapa. Depois da lira e da taverna, a estalagem fecha o triângulo: verso, conto e drama, o mesmo homem em três formas.
Na sala de aula, o texto funciona como contraponto ao resumo de “poeta triste”. Satã e Penseroso obrigam o estudante a ouvir o debate, não só a biografia. Fora da escola, a peça cabe numa tarde. A leitura em voz alta, ainda que caseira, devolve o que a página plana esconde: o ritmo de pergunta e resposta, o sarcasmo, a queixa.
Edição
Como o restante da obra, Macário está em domínio público. A edição da Principis, em português, traz a peça isolada, com 96 páginas, útil para quem não quer o volume misturado com os contos da taverna. Há casas que publicam os dois textos juntos; a escolha depende do uso. Separar a peça evita que o drama vire apêndice do livro de horror. Juntar os dois, por outro lado, mostra como o Diabo da estalagem e os convivas da taverna frequentam a mesma noite mental.
Não se compra aqui novidade de enredo. Se compra o único teatro acabado de um autor que morreu aos vinte e deixou, nesse diálogo, o recado mais nítido da juventude que ele mesmo transformou em matéria: viver era sentir, e o tédio, quando ganhava fala, pedia um interlocutor à altura — fosse o Diabo, fosse o anjo.



