Noite na taverna é o livro de contos que firmou Álvares de Azevedo na prosa. Cinco amigos embriagados se reúnem, bebem e relatam experiências amorosas atravessadas por crime. O pretexto é de conversa de bar. O resultado é o texto gótico brasileiro que mais circula até hoje, curto o bastante para uma noite e áspero o bastante para incomodar quem espera só o poeta da lira escolar.
A estrutura ajuda a leitura. Cada capítulo funciona como relato autônomo, narrado por um dos convivas, e alguns fios se cruzam. Há assassinato, adultério, violência sexual, necrofilia e um humor sombrio que não pede desculpa. A linguagem é oitocentista, com vocabulário largo e referências que hoje pedem nota. Depois de algumas páginas, o ritmo puxa. O livro cabe em cerca de cem páginas na edição de bolso.
O que o leitor encontra
O cenário da taverna é só a moldura. O que vale são as narrativas encaixadas, no parentesco da noite de horror em que cada um paga o preço de contar a própria ruína. A crítica costuma ligar o volume ao byronismo, ao mal do século e à liberdade erótica que a prosa romântica brasileira raramente encara de frente. Não é um manual de terror inglês traduzido. É um estudante de Direito no Império escrevendo, em português, o que a sala de aula do Largo de São Francisco não autorizava.
Por isso o livro interessa a quem chega pelo vestibular e a quem chega pelo gosto de horror. No primeiro caso, Noite na taverna ilustra a segunda geração para além do poema de antologia. No segundo, oferece uma prosa de clima, delito e desejo, sem o verniz moral que o romantismo de primeira geração preferia. A leitura é rápida. A digestão, não: alguns relatos pesam mais do que outros, e essa desigualdade é típica de livro de contos, não defeito escondido.
Como ler e o que não esperar
Não espere romance de personagem única, com arco pedagógico. Espere uma noite, uma mesa e um relator depois do outro. Dá para ler um conto por vez. Dá para ler de uma sentada. O que não dá é tratar o volume como biografia disfarçada. Os crimes da taverna não são o diário do autor. São invenção, excesso e ensaio de prosa fantástica num país que ainda aprendia a escrever o escuro.
Quem já leu Lira dos vinte anos reconhece o mesmo cérebro: o tédio, o corpo, a recusa do sublime contínuo. Quem ainda não leu a poesia pode começar por aqui se quiser o choque primeiro e o lirismo depois. O caminho inverso também funciona. Os dois livros se explicam um ao outro sem se repetir. A Lira é verso e máscara dupla. A taverna é prosa e confissão em voz alta.
Edição
O texto está em domínio público. As edições contemporâneas diferem em capa, notas e formato. A edição de bolso da L&PM traz o volume em português, compacto, com a capa preta que o leitor de clube e de ônibus reconhece. Serve para quem quer o livro inteiro, sem aparato de tese. Outras reimpressões existem; o que não muda é o miolo: a noite, os cinco amigos e as histórias que eles não deveriam ter contado.
Para o leitor atual, o valor está menos no “clássico obrigatório” e mais no fato de a prosa continuar desconfortável. Noite na taverna não envelheceu como peça de museu. Envelheceu como texto que ainda testa até onde o romantismo brasileiro estava disposto a ir quando a taverna fechava e a bebida fazia o resto.



