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Foto de perfil de Cecília Meireles

Cecília Meireles

Nascimento: 1901 Rio de Janeiro, Brasil
Poeta, professora e jornalista carioca, voz central da poesia brasileira do século XX, autora de Viagem, Romanceiro da Inconfidência e Ou Isto ou Aquilo.

Na escola, Cecília Meireles entra pelo dilema da chuva e do sol. Fora da cartilha, a mesma voz recusava o rótulo de poetisa, como se o verso tivesse uma prateleira menor para mulher, e seguia escrevendo sem se filiar de fato ao modernismo paulista da Semana de 22.

Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu no Rio de Janeiro em 7 de novembro de 1901 e morreu na mesma cidade em 9 de novembro de 1964. Foi poeta, professora, jornalista, tradutora, folclorista e cronista. Quem a procura hoje quase sempre mistura dois leitores: quem precisa da biografia escolar e quem quer entender como uma escritora carioca, órfã cedo e ligada ao magistério, virou nome permanente da poesia em língua portuguesa.

Quem foi Cecília Meireles além do poema da escola?

O nome público esconde um dado de origem que explica muita coisa da obra. O pai, Carlos Alberto de Carvalho Meireles, funcionário do Banco do Brasil, morreu três meses antes do nascimento da filha. A mãe, Mathilde Benevides Meireles, professora da rede pública, morreu quando Cecília tinha três anos. A menina foi criada pela avó materna, Jacinta Garcia Benevides, portuguesa da Ilha de São Miguel, nos Açores. A infância no bairro do Rio Comprido, com livros, silêncio e histórias da babá Pedrina, virou matéria-prima de uma poesia atenta ao tempo, à ausência e ao que não se segura.

Em 1910, ao concluir o curso na Escola Modelo Estácio de Sá, recebeu das mãos de Olavo Bilac, então inspetor escolar, a Medalha de Ouro Olavo Bilac. Estudou canto, violão e violino no Conservatório Nacional de Música, mas o magistério e a literatura ganharam a frente. Formou-se em 1917 na Escola Normal do Distrito Federal, foi oradora da turma e começou a lecionar no ano seguinte, na Escola Pública Deodoro.

A estreia literária veio cedo. Em 1919, aos dezoito anos, publicou Espectros, volume de sonetos sobre temas históricos, lendários e mitológicos, ainda marcado pelo simbolismo. Não era o livro da Semana de Arte Moderna, e Cecília nunca pretendeu ser. O contato com o modernismo paulista de Mário de Andrade foi pequeno. No Rio, ela se aproximou do grupo da revista Festa, de Tasso da Silveira e Andrade Muricy, mais espiritualista do que antropófago. Essa distância não a tirou do cânone: a crítica posterior a colocou na segunda geração modernista precisamente porque encontrou um caminho próprio, neossimbolista, sem copiar o verso livre de São Paulo nem o nacionalismo de cor local.

Como o magistério e o jornalismo entram nessa biografia?

Antes de ser a poeta dos vestibulares, Cecília Meireles foi professora. Escreveu para o ensino primário, publicou em 1924 o livro infantil Criança, Meu Amor e defendeu a escola moderna na tese O Espírito Vitorioso, apresentada em concurso da Escola Normal em 1930. Entre 1930 e 1933 manteve página diária sobre educação no Diário de Notícias. Em 1932, assinou o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova ao lado de Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo e Afrânio Peixoto. Em 1934 organizou a primeira biblioteca infantil do Brasil, no Pavilhão Mourisco, no Rio de Janeiro.

De 1935 a 1938 lecionou Literatura Luso-Brasileira e Técnica e Crítica Literária na Universidade do Distrito Federal. Em 1940 deu curso de literatura e cultura brasileira na Universidade do Texas, em Austin. As viagens da década seguinte — México, Chile, Argentina, Uruguai, França, Bélgica, Holanda, Açores, Índia e Israel — alimentaram crônicas, poemas e traduções. Em 1953, a convite de Jawaharlal Nehru, foi à Índia, participou de um congresso sobre Gandhi em Goa e recebeu o título de doutora honoris causa da Universidade de Delhi pelas traduções de Rabindranath Tagore.

A página de educação também deixou marca política. A biblioteca infantil que ela criou foi fechada no Estado Novo; a Enciclopédia Itaú Cultural registra o episódio ligado a uma acusação infundada, a partir de um livro de capa vermelha. O dado importa porque mostra o outro lado da poeta contemplativa: uma educadora que discutiu escola mista, livro para criança e liberdade de leitura em público, não só em verso.

Onde Cecília Meireles se encaixa no modernismo brasileiro?

A pergunta escolar pede uma gaveta. A obra resiste. Cecília não adotou o verso de ruptura da Semana de 22, não fez da fala cotidiana o centro da página e não tratou o Brasil como inventário folclórico. Seu modernismo é outro: métrica trabalhada, musicalidade, temas de transitoriedade, solidão, viagem e contemplação. Alfredo Bosi observou que ela foi talvez o poeta moderno que modulou com mais felicidade os metros breves, visíveis nas Canções e no Romanceiro da Inconfidência.

Isso não a deixa fora da conversa nacional. Pelo contrário: o Romanceiro da Inconfidência, de 1953, responde exatamente a quem a acusava de poesia alheia à história. Depois de pesquisar arquivos, cartas, autos e a memória de Ouro Preto, ela recriou a Conjuração Mineira em romanceiro de tradição ibérica, com Tiradentes, Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa e Bárbara Heliodora em versos que também funcionam isolados. É o livro em que a lírica encontra o fato político sem virar panfleto.

Alguns títulos ajudam a mapear a carreira sem transformar a biografia em catálogo:

  • Espectros (1919), a estreia em sonetos;
  • Viagem (1939), o livro que a consolidou e recebeu o Prêmio de Poesia Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras;
  • Mar Absoluto (1945) e Retrato Natural (1949), a maturidade lírica;
  • Romanceiro da Inconfidência (1953), a obra histórica mais conhecida;
  • Ou Isto ou Aquilo (1964), a porta de entrada infantil que ainda circula em casa e em escola.

Quais livros de Cecília Meireles realmente explicam a carreira?

Viagem costuma ser o marco. Publicado em 1939, o volume reuniu a voz que a crítica passou a reconhecer como sua: equilíbrio entre tradição e modernidade, poemas como Motivo e Retrato, e o prêmio da ABL que tirou a autora da margem simbolista tardia. Quem lê só o Romanceiro perde essa virada; quem lê só a poesia infantil perde a densidade adulta.

O Romanceiro da Inconfidência é o livro mais citado em vestibular, Fuvest e conversa sobre liberdade. A frase “Liberdade — essa palavra que o sonho humano alimenta” atravessou gerações porque junta música popular, pesquisa histórica e um juízo moral sobre delação, medo e heroísmo fabricado. Não substitui o tratado de história; oferece outra entrada, poética, para o mesmo episódio.

Ou Isto ou Aquilo, publicado no ano da morte, é o clássico que mais circula fora da universidade. Brinca com rima, escolha e impossibilidade: chuva ou sol, luva ou anel, chão ou ar. A Global Editora, que reúne hoje o catálogo da autora, mantém o livro em edição ilustrada por Odilon Moraes. É literatura infantil sem concessões bobas — e, para muita gente, o primeiro contato com o nome Cecília Meireles.

Há ainda o trabalho de tradução, menos visível na escola e decisivo na reputação internacional: Tagore, Virginia Woolf (Orlando), García Lorca (Bodas de Sangue), Rilke, Pushkin, antologias de poesia hebraica e chinesa. Em 1963 recebeu o Prêmio Jabuti de Tradução de Obra Literária por Poemas de Israel; em 1964, o Jabuti de Poesia por Solombra; em 1965, postumamente, o Prêmio Machado de Assis da ABL pelo conjunto da obra.

O que ficou depois de 1964?

Cecília Meireles morreu no Rio de Janeiro aos 63 anos e foi sepultada no Cemitério São João Batista. A reputação não parou na data. A Sala Cecília Meireles, na Lapa, leva o nome dela. Escolas no Brasil e nos Açores também. No fim dos anos 1980, o Banco Central imprimiu sua efígie na cédula de cem cruzados novos, depois convertida em cem cruzeiros. A Enciclopédia Itaú Cultural e o acervo da Global Editora continuam sendo portas úteis para quem quer sair do resumo escolar e entrar na obra.

Para continuar na literatura brasileira ou na conversa sobre educação e leitura, o recorte mais honesto é este: Cecília Meireles não foi apenas a poeta da infância nem apenas a autora de um romanceiro histórico. Foi uma professora que escreveu verso, uma jornalista de educação que traduziu o mundo e uma poeta que preferiu o nome inteiro — poeta — ao diminutivo que o mercado literário reservava às mulheres.

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Projetos de Cecília Meireles

Romanceiro da Inconfidência
Romanceiro da Inconfidência
Poema longo de 1953 em que Cecília Meireles recria a Inconfidência Mineira em romanceiro, misturando pesquisa histórica, lenda e verso popular.
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Ou Isto ou Aquilo
Ou Isto ou Aquilo
Clássico infantil de 1964 em que Cecília Meireles brinca com rima, escolha e impossibilidade, ainda lido em casa e na escola.
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Viagem
Viagem
Livro de 1939 que consolidou Cecília Meireles na poesia brasileira e recebeu o Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras.
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