Cyl Gallindo é o nome literário de Cícero Amorim Gallindo, nascido em Buíque, no agreste pernambucano, em 28 de maio de 1935, e falecido em João Pessoa, na Paraíba, em 4 de fevereiro de 2013. Poeta, cronista, contista, jornalista e sociólogo, ele fez da palavra o centro de uma obra que passa pelo verso, pelo conto e pelo ensaio — de A conservação do grito-gesto, publicado em 1971, à prosa de Um morto coberto de razão, de 1985.
Quem procura Cyl Gallindo costuma querer entender a presença de um autor pernambucano que circulou entre redações de jornal, o serviço público e as academias de letras sem abrir mão de uma poética própria. A trajetória dele começa no sertão de Pernambuco, atravessa o Recife, o Rio de Janeiro e Brasília e termina reconhecida pela Academia Pernambucana de Letras, onde ocupou a cadeira número 6.
Quem foi Cyl Gallindo
Cícero Amorim Gallindo passou a infância em Buíque, cidade que aparece em sua poesia e em seus textos de memória. Ainda adolescente, mudou-se para o Recife. No fim dos anos 1950, vivia no Rio de Janeiro, onde cursou Contabilidade e participou do movimento estudantil. Depois de 1964, voltou a Pernambuco e prestou vestibular para Ciências Sociais na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), curso que concluiu e que sustentou boa parte de sua leitura da cultura brasileira.
Ele resumia o próprio mapa afetivo em uma frase que repetia em entrevistas: “Minha pátria estende-se a quatro cidades: Buíque, onde nasci; o Recife e o Rio de Janeiro, onde vivi a juventude, e Brasília, onde inauguro a velhice.” Buíque, dizia, era a “Pátria-Umbigo”, a marca mais funda de sua identidade.
Da redação dos jornais ao Senado Federal
Cyl Gallindo trabalhou como redator no Jornal do Commercio, no Diario de Pernambuco e no Jornal da Cidade, todos no Recife, e atuou como repórter, editor e colunista em jornais de Pernambuco, Brasília e Mato Grosso. Na TV Universitária da UFPE, produziu e apresentou o programa Síntese. Foi ainda correspondente do Jornal de Letras, no Rio de Janeiro, e colaborou com a Gazeta do Povo, no Paraná.
A ligação dele com Brasília começou em 1960, ano da inauguração da cidade. Em 1968, publicou a Agenda Poética do Recife, com prefácio do poeta e engenheiro Joaquim Cardozo, pela Coordenada Editora. Em 1986, fixou residência na capital federal, onde viveu por 16 anos — cinco deles na Assessoria de Comunicação Social do Senado Federal, já aposentado de seu órgão de origem.
No campo editorial, representou no Brasil a Francachela, revista internacional de literatura e arte editada na Argentina, e dirigiu a CICLA, coleção voltada à tradução e à publicação de autores brasileiros contemporâneos. Também integrou o conselho editorial da revista Encontro, do Gabinete Português de Leitura de Pernambuco.
Os livros: poesia, conto e ensaio
A estreia em livro veio com a Agenda Poética do Recife, em 1968. Três anos depois, A conservação do grito-gesto firmou sua voz na poesia, com versos que tratam da pobreza, do corpo e da resistência. Em 1974, publicou As galinhas do coronel; em 1976, O urbanismo na literatura.
Na ficção, Um morto coberto de razão, de 1985, rendeu-lhe o Prêmio Nacional de Ficção, no Recife. Vieram depois Contos de Pernambuco (1988), Livro para minha idade – O menino e o peixe (1989) e Quanto pesa a alma de um homem / Quanto pesa a alma de uma mulher (1994).
Entre os títulos de maturidade estão Os movimentos (1996), 20 poemas escolhidos por Waldemar Lopes (1999), Cadeira de Dinah (1999) e Em defesa da Língua Portuguesa (2000), texto em que critica o uso ornamental do inglês e defende o português como patrimônio. Em 2010, reuniu ensaios, palestras e prefácios em A Intimidade da Palavra, publicado pelas Edições Bagaço, e organizou com Antônio Campos a Panorâmica do Conto em Pernambuco.
- Agenda Poética do Recife (1968)
- A conservação do grito-gesto (1971)
- As galinhas do coronel (1974)
- Um morto coberto de razão (1985)
- Quanto pesa a alma de um homem / Quanto pesa a alma de uma mulher (1994)
- A Intimidade da Palavra (2010)
- Panorâmica do Conto em Pernambuco (2010, com Antônio Campos)
Prêmios, academias e reconhecimento
Cyl Gallindo venceu o Concurso Nacional de Poesias de Friburgo, no Rio de Janeiro, com o poema “A sobrevivência do mangue”, e o Prêmio Nacional de Ficção, no Recife, com Um morto coberto de razão. Recebeu ainda o Prêmio Literário Othon Bezerra de Mello (1972) e o Prêmio Leda Carvalho (1985), ambos ligados à Academia Pernambucana de Letras.
Em 2004, a Câmara Municipal do Recife concedeu-lhe a Medalha José Mariano e o título de Cidadão do Recife, por proposta do vereador Paulo Dantas. Em 2009, foi eleito para a cadeira número 6 da Academia Pernambucana de Letras, tomando posse em outubro daquele ano. A instituição também reúne autores como a escritora e cronista Fátima Quintas, que presidiu a casa entre 2012 e 2016.
Ele integrou ainda a Academia de Letras e Artes do Nordeste (cadeira 18), a Academia de Letras do Brasil, a Associação Nacional de Escritores (ANE), a União Brasileira de Escritores – seção Pernambuco e o Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal. Foi membro fundador do Conselho Municipal de Cultura do Recife.
Traduções e circulação internacional
Textos de Cyl Gallindo foram traduzidos para o espanhol, o alemão e o francês e publicados em veículos de vários países: a revista Francachela, na Argentina; a Xicóatl, na Áustria; a Rampa, na Colômbia; a antologia Poésie du Brésil, na França; e a Prismal, da University of Maryland, nos Estados Unidos.
Morte e legado
Cyl Gallindo morreu em 4 de fevereiro de 2013, aos 77 anos, em João Pessoa, onde morava. Ele havia sofrido um aneurisma cerebral e estava internado desde o início de janeiro. O velório foi realizado na Academia Pernambucana de Letras, e o enterro ocorreu no Cemitério de Santo Amaro, no Recife.
Depois de sua morte, leitores e pesquisadores de Buíque passaram a manter um grupo dedicado à sua obra, com acervo de poemas, cronologia e imagens. Os livros dele continuam a circular em sebos e em antologias da literatura brasileira, e a Panorâmica do Conto em Pernambuco segue disponível em edição impressa. Para quem quer começar, a porta de entrada mais direta é a poesia de A conservação do grito-gesto e os contos de Um morto coberto de razão.



