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Delis Ortiz

Nascimento: 1963 Cuiabá, MT
Jornalista da TV Globo em Brasília, Delis Ortiz cobriu o impeachment de Collor, o Plano Real e as eleições presidenciais, e foi correspondente da Globo em Buenos Aires.

A jornalista Delis Ortiz entrou na cobertura política de Brasília no começo da crise que terminaria com a renúncia de Fernando Collor e nunca mais saiu do noticiário da capital. Contratada pela sucursal da TV Globo em 1991, acompanhou o Congresso durante a votação do impeachment, cobriu planos econômicos, eleições presidenciais e escândalos, passou quase cinco anos como correspondente da emissora em Buenos Aires e, em 2023, voltou ao centro de um debate nacional sobre segurança de jornalistas depois de ser agredida durante uma cobertura no Palácio do Itamaraty.

Nascida em Cuiabá e formada em Jornalismo em Brasília, Delis construiu uma trajetória que atravessa as principais transformações da política brasileira das últimas três décadas. Nesse período, foi repórter do Jornal Nacional, apresentou o Bom Dia Brasil direto da capital federal e acompanhou presidentes, escândalos e tragédias sem deixar a rua. Em setembro de 2026, seguia assinando reportagens sobre política para o g1 e para os telejornais da Globo.

De Cuiabá ao Jornal Nacional

Delis Ortiz nasceu em 5 de julho de 1963, em Cuiabá, no Mato Grosso. É filha do venezuelano naturalizado brasileiro Alfredo Ortiz, ex-funcionário do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem, e da enfermeira e contadora Zila Lima Ortiz. Ainda estudante, morava e trabalhava em Brasília: formou-se em Jornalismo em uma faculdade particular da capital e custeou os estudos com um emprego no Incra, onde fiscalizava projetos de colonização no Nordeste — trabalho que a levou a viajar pelo interior do país antes mesmo de entrar em uma redação.

A carreira começou dois anos depois de formada, como repórter na sucursal do SBT em Brasília. A estreia foi no Noticentro, cobrindo a periferia da capital federal. Em seguida veio o TJ Brasil, noticiário nacional da emissora, ao lado de nomes como Boris Casoy e Tonico Ferreira, quando passou a cobrir política. Foram seis anos no SBT, boa parte deles dividida com as funções no Incra.

No fim de 1990, foi convidada por Alberico de Sousa Cruz, então diretor de jornalismo da Globo, para trabalhar como repórter do Jornal Nacional, substituindo o jornalista Álvaro Pereira. Começou na sucursal de Brasília em 1991, logo após o início da crise do governo Collor, e cobriu os desdobramentos até a renúncia do presidente. Anos depois, em depoimento ao Memória Globo, lembrou daquele período como um momento em que queria estar em dois lugares ao mesmo tempo: dentro do Congresso, seguindo a contagem dos votos, e do lado de fora, com os manifestantes de rosto pintado de verde e amarelo que ocupavam as praças da capital.

As coberturas que atravessam a história recente

Em 1994, Delis acompanhou o lançamento do Plano Real e foi escalada para seguir os candidatos à presidência. No ano seguinte, fez flashes ao vivo da cerimônia de posse de Fernando Henrique Cardoso e passou a cobrir o dia a dia do governo, inclusive viagens presidenciais. Em 1997, noticiou o assassinato do indígena pataxó Galdino Jesus dos Santos, que teve o corpo queimado enquanto dormia em uma parada de ônibus de Brasília. Em 1998, participou da cobertura da reeleição de Fernando Henrique; em 1999, das cassações do senador Luiz Estevão e do deputado Hildebrando Pascoal; em 2000, da CPI do Narcotráfico.

Algumas coberturas se destacam na trajetória dela:

  • as eleições de 1994, 1998, 2002 e 2006, com as posses de Fernando Henrique Cardoso e de Luiz Inácio Lula da Silva, cuja trajetória acompanhou desde a candidatura até o primeiro mandato;
  • o escândalo do Mensalão, em 2005, e a CPI das Sanguessugas, em 2006;
  • uma série de reportagens sobre violência exibida pelo Jornal Nacional em 2008;
  • a cobertura da trajetória de Dilma Rousseff até a eleição de 2010, quando se tornou a primeira mulher eleita presidenta do Brasil;
  • a série especial sobre os 30 anos da Guerra das Malvinas, para o Jornal Nacional, em 2012.

Em 2004, trabalhou com a equipe do Globo Repórter em um programa especial sobre abuso sexual de crianças e adolescentes, com matérias gravadas no Paraguai, no Rio Grande do Sul e no Ceará. O trabalho rendeu a ela o VII Prêmio Imprensa Embratel, em 2005. Em entrevista ao acervo do Memória Globo, Delis disse que aquele foi o trabalho mais difícil e emocionante da carreira, e contou que continuou recebendo mensagens de pessoas adultas que se sentiram encorajadas a falar sobre abusos sofridos na infância depois de ver o programa.

Buenos Aires e os anos como correspondente

Em 2011, Delis Ortiz foi escalada para chefiar a cobertura da Globo na América Latina, com base em Buenos Aires. Foram quase cinco anos na Argentina, período em que assinou reportagens para o Jornal Nacional e para os demais telejornais da casa. Em 2012, viajou às Ilhas Malvinas para a série dos 30 anos da guerra entre Argentina e Reino Unido e relatou a rotina da viagem em um texto publicado no blog JN Especial: o voo que parava em Santiago, Punta Arenas e Rio Gallegos até a base de Mount Pleasant, as restrições militares ao trabalho da imprensa e a paisagem de Stanley, a capital do arquipélago.

Como correspondente, participou da cobertura da morte do presidente venezuelano Hugo Chávez, em 2013, e do incêndio da boate Kiss, em Santa Maria. Neste último caso, mostrou ao público brasileiro como países como Argentina, China e Rússia reforçaram a fiscalização de casas noturnas depois de tragédias semelhantes. Na Copa do Mundo de 2014, coube a ela acompanhar a mobilização da torcida argentina em Buenos Aires até a final contra a Alemanha.

A repórter voltou a Brasília em janeiro de 2016, depois de quase cinco anos no exterior, e retomou a cobertura de política na capital. No período em que ficou responsável pelo dia a dia do Palácio do Planalto, também apresentou o Bom Dia Brasil direto da sucursal de Brasília, função que dividia com a rotina de reportagens do Jornal Nacional, que desde 1996 tinha William Bonner na bancada. Na primeira metade dos anos 2000, assinou com Caco Barcellos reportagens do Jornal Nacional sobre a cassação de Luiz Estevão e sobre as irregularidades nas obras da sede do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo.

A agressão no Itamaraty, em 2023

Em 30 de maio de 2023, ao fim da cúpula de presidentes sul-americanos realizada no Palácio do Itamaraty, em Brasília, Delis Ortiz foi agredida durante o tumulto que se formou na saída da entrevista do presidente venezuelano Nicolás Maduro. No empurra-empurra em torno do cordão de isolamento, um segurança a serviço do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) deu um soco no peito da repórter. Outros jornalistas também foram agredidos.

A TV Globo repudiou a violência e o episódio teve desdobramentos: o Senado, a Ordem dos Advogados do Brasil e a Associação Nacional de Jornais se manifestaram, o GSI abriu uma sindicância para apurar de quem partiram as agressões e identificou, dias depois, que o segurança apontado como agressor era militar do Exército. A apuração foi prorrogada nos meses seguintes. Em entrevista à GloboNews, Delis descreveu o episódio como "assustador" e afirmou que a agressão havia sido "um soco em toda a imprensa". Meses depois, continuava falando publicamente sobre o caso, que passou a integrar o noticiário sobre segurança e liberdade de imprensa no país.

Prêmios, acervo e onde encontrar o trabalho dela

Além do VII Prêmio Imprensa Embratel, que dividiu com a equipe do Globo Repórter em 2005, Delis Ortiz concorreu ao Troféu Mulher Imprensa de 2008, na categoria Repórter de Telejornal. Ela gravou dois depoimentos para o acervo do Memória Globo, em 2004 e em 2012, nos quais reconstitui a própria trajetória: a infância em Cuiabá em uma família que misturava Venezuela e Brasil, os primeiros anos de redação, a cobertura da vida política em Brasília e o ofício de correspondente internacional.

É mãe de duas filhas e membro da Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasília. Sobre o trabalho de correspondente, resumiu em depoimento ao acervo da Globo uma ideia que vale para toda a sua carreira: a de que o jornalista precisa usar as ferramentas disponíveis para apurar bem e saber peneirar o que passa adiante antes de entregar a informação ao público.

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