Antes de virar o rosto mais associado à reportagem de rua na TV brasileira, Cláudio Barcelos de Barcellos era taxista na periferia de Porto Alegre. A virada para o jornalismo não veio de um estúdio: veio de matérias no chão, de cooperativas e da imprensa alternativa dos anos 1970. Quem busca Caco Barcellos costuma procurar essa trajetória — o repórter que ficou conhecido por investigar violência policial, desigualdade e os bastidores da notícia no Profissão Repórter.
Gaúcho nascido em 5 de março de 1950, Caco consolidou carreira na imprensa impressa, nas revistas semanais e, a partir de 1982, na TV Globo. Dois livros-reportagem o colocaram no centro do debate público: Rota 66 e Abusado, ambos vencedores do Prêmio Jabuti. O perfil abaixo reúne o que é público e verificável sobre origem, método, programas e obras — sem transformar a biografia em catálogo.
Quem é Caco Barcellos
Caco Barcellos é o nome público de Cláudio Barcelos de Barcellos, jornalista, repórter de televisão e escritor brasileiro especializado em grandes reportagens sobre injustiça social e violência. Formado em Jornalismo pela PUC-RS em 1975, depois de ter iniciado Matemática com o objetivo de engenharia civil, ele entrou cedo na redação e nunca se descolou do trabalho de apuração de campo.
Na TV Globo, passou por Globo Repórter, Fantástico, Jornal Nacional e, desde 2006, comanda o Profissão Repórter, programa que mistura reportagem e o processo de produção da notícia. Também atuou como correspondente internacional, com bases em Londres e Paris, e coberturas em conflitos e crises fora do Brasil.
Origem, formação e primeiros passos
Caco nasceu na Vila São José do Murialdo, na periferia de Porto Alegre (RS). Filho de Nérsio Pereira de Barcellos, funcionário público, e Antoninha Barcelos de Barcellos, dona de casa, exerceu ofícios como o de taxista antes da carreira formal no jornalismo. A mudança de curso na universidade — de Matemática para Jornalismo — veio depois da experiência em um jornal de centro acadêmico.
Profissionalmente, estreou no jornal Folha da Manhã, do grupo Caldas Júnior. Participou da criação da Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre (Coojornal) e escreveu para a revista alternativa Versus, ligada a grandes reportagens sobre a América Latina. Nos anos seguintes, enviou matérias como freela para o Jornal da Tarde, passou por IstoÉ e Veja e, no fim dos anos 1970, morou em Nova York como correspondente.
Um episódio dessa fase de freela marca o começo da obra em livro: a cobertura da revolução sandinista na Nicarágua, que resultou em Nicarágua: a Revolução das Crianças. Segundo depoimentos públicos, ele chegou a ser detido por rebeldes e só foi liberado após a chegada de um comandante adolescente — detalhe que inspirou o título da obra.
Da imprensa impressa à TV Globo
O convite para a Globo veio de Luiz Fernando Mercadante. Caco entrou em 1982 na equipe do Globo Repórter, após um teste em cobertura de passeata de metalúrgicos com Lula. Nos anos seguintes, alternou projetos e voltou como repórter especial em São Paulo, consolidando matérias de impacto no telejornalismo diário e em especiais.
Entre as reportagens históricas estão a denúncia de agressões da Rota a meninos em Heliópolis (imagens que chegaram à capa do relatório da Anistia Internacional), a investigação de desaparecidos políticos e ossadas no Cemitério de Perus, a cobertura do Massacre do Carandiru em 1992 e a reportagem com Fritz Utzeri sobre o atentado do Riocentro, premiada com o Vladimir Herzog.
Como correspondente, cobriu o conflito em Nablus (2002), o atentado de Madri (2003) e a morte do papa João Paulo II (2005), entre outras pautas internacionais. Em 2005 retornou ao Brasil como repórter especial e, no ano seguinte, estreou o formato que o recolocaria no centro da grade: o Profissão Repórter.
Profissão Repórter e o método de trabalho
O Profissão Repórter nasceu em 2006, concebido com Marcel Souto Maior. Começou como especial do Globo Repórter, virou quadro do Fantástico e, em 2008, ganhou espaço próprio na grade da Globo. A proposta pública do programa é mostrar como a reportagem é construída: escolha de pauta, dúvidas éticas, captação e edição — com equipes jovens e Caco à frente.
Ele costuma rejeitar o rótulo clássico de “repórter investigativo” no sentido de apenas apontar culpados. Em depoimento ao Memória Globo, resume a preferência: mostrar quem sofre as consequências do ato de quem está sendo acusado. Outra frase recorrente no perfil institucional: mesmo acreditando em uma fonte, o dever é desconfiar dela até haver prova.
- Entrada na TV Globo: 1982, no Globo Repórter
- Profissão Repórter: desde 2006 (especial, quadro e depois programa fixo)
- Livros-reportagem de maior repercussão: Rota 66 (1992) e Abusado (2003)
- Prêmios de destaque: Jabuti (duas vezes), Vladimir Herzog, Líbero Badaró e reconhecimento da ONU por direitos humanos
- Formação: Jornalismo pela PUC-RS (1975)
Livros e o peso da não ficção
Rota 66: a história da polícia que mata exigiu anos de pesquisa e documentou um padrão de mortes ligadas à Polícia Militar de São Paulo. A obra venceu o Jabuti em 1993 na categoria reportagem e gerou ameaças e processos, segundo o próprio autor em entrevistas públicas. Três décadas depois, o material inspirou a série de ficção da Globoplay (2022), com Humberto Carrão no papel do repórter.
Abusado: o dono do morro Dona Marta (2003) acompanha a lógica do tráfico no Santa Marta a partir da figura de Marcinho VP. Escrito em forma de romance de não ficção, ficou mais de um ano entre os mais vendidos e levou de novo o Jabuti, além do Vladimir Herzog. Setores conservadores criticaram a obra por suposta romantização do crime; o livro permanece referência de livro-reportagem sobre favelas e organizações criminosas no Rio.
Para quem lê Caco ao lado de outras vozes da reportagem e da não ficção no Brasil, o diálogo natural no próprio diretório inclui perfis como o de Eliane Brum, na interseção entre jornalismo e literatura da vida real, e o de William Bonner, outra trajetória longa no telejornalismo da TV Globo. Na prateleira de não ficção premiada, também há trânsito com leitores de Ruy Castro.
Prêmios, riscos e presença pública
Além dos dois Jabutis, Caco acumulou prêmios de reportagem e direitos humanos, incluindo mais de um Vladimir Herzog e, em 2008, reconhecimento especial das Nações Unidas entre jornalistas destacados na defesa dos direitos humanos no Brasil. Em 2016, foi agredido durante protesto nos arredores da Alerj, no Rio, episódio que ele relatou publicamente no Altas Horas.
Não há site pessoal consolidado como canal oficial principal; a presença institucional mais estável está na cobertura da Globo, no acervo do Memória Globo e no catálogo de autor em livrarias. Redes sociais pessoais não figuram de forma inequívoca como perfis oficiais únicos de autoria, por isso o caminho mais seguro para quem quer aprofundar é o perfil institucional e a obra publicada.
Por que Caco Barcellos interessa a quem busca jornalismo
Quem pesquisa o nome costuma querer três coisas: entender quem é o repórter por trás do Profissão Repórter; saber o que há em Rota 66 e Abusado; e mapear uma carreira que cruza TV, livro-reportagem e direitos humanos. Caco responde a essa busca como figura pública de longa duração no jornalismo brasileiro — com obras ainda lidas, programa ainda no ar e um método que privilegia prova, múltiplos ângulos e a vítima no centro da narrativa.
Onde acompanhar e o que ler primeiro
Para a biografia institucional e depoimentos, o ponto de partida é o perfil no Memória Globo. Para a obra em livro, a rota de compra mais direta costuma ser a Amazon e o catálogo das editoras que republicam Rota 66 e Abusado. Quem prefere a tela, o Profissão Repórter e o acervo de reportagens históricas da Globo seguem como porta de entrada para o ofício que ele defende há décadas: contar a história com prova, não só com pressa.



