Abusado: o dono do morro Dona Marta, de Caco Barcellos, é o livro-reportagem de 2003 sobre o tráfico no Santa Marta e a trajetória de Marcinho VP. A obra devolveu ao autor o Prêmio Jabuti, ficou mais de um ano entre os mais vendidos e permanece referência de não ficção sobre poder paralelo no Rio de Janeiro.
Do que trata o livro
O texto acompanha a entrada e a consolidação do Comando Vermelho no Santa Marta, com foco em Juliano, conhecido como Marcinho VP. Caco descreve a lógica das “corporações criminosas”, as relações com a comunidade, a hierarquia do tráfico e o cotidiano de um poder que não cabe em manchete curta.
A forma se aproxima do romance de não ficção: cenas, diálogos reconstruídos a partir de apuração e continuidade narrativa. A escolha facilita a leitura sem abrir mão da reportagem. O resultado circula entre leitores gerais e em debates de sociologia urbana, segurança pública e jornalismo literário.
Para quem faz sentido ler
A obra atende quem quer entender o tráfico além do estereótipo, quem pesquisa favelas cariocas e quem estuda livro-reportagem. Também interessa a quem já leu Rota 66 e quer o mesmo repórter em outro território: não a polícia de São Paulo, mas a organização criminosa no Rio e a comunidade em volta.
- Gênero: livro-reportagem em forma de romance de não ficção
- Ano: 2003
- Espaço central: favela Santa Marta (Dona Marta), Rio de Janeiro
- Reconhecimento: Jabuti (reportagem/biografia e Livro do Ano Não Ficção) e Vladimir Herzog
- Temas: tráfico, poder local, violência urbana, juventude e comunidade
Recepção e controvérsia
O sucesso comercial veio com críticas de setores conservadores, que acusaram a obra de romantizar criminosos. Do outro lado, leitores e parte da crítica valorizaram a densidade da apuração e a capacidade de explicar o modus operandi de grandes estruturas a partir de uma trajetória individual. O livro não “absolve” o crime: descreve regras, hierarquias e consequências com o olhar de quem passou tempo em campo.
No depoimento ao Memória Globo, Caco lembra o primeiro contato com o traficante que liderava o Santa Marta no fim dos anos 1990 como momento decisivo de captação — o tipo de encontro que só a reportagem longa permite.
O que esperar da leitura
Espere capítulos densos, muitos nomes e imersão no cotidiano do morro na virada dos anos 1990 para os 2000. Não espere manual de autoajuda, tese acadêmica seca ou thriller com reviravolta de ficção. O valor está na reconstrução de um sistema social e criminal a partir de pessoas concretas e de apuração rigorosa.
Lugar na obra de Caco Barcellos
Depois de Nicarágua: a Revolução das Crianças e de Rota 66, Abusado fecha o trio central de livros-reportagem do autor. Se Rota 66 olha para a violência de Estado em São Paulo, Abusado olha para o poder armado no Rio. Juntos, explicam por que Caco é buscado por quem quer telejornalismo e por quem monta estante de não ficção brasileira.
Como comprar e usar o livro
A edição em português segue em catálogo na Amazon e em livrarias. Para estudo, a leitura rende em cursos de jornalismo, direito, ciências sociais e urbanismo — combinada com fontes atualizadas, porque o mapa do tráfico e das políticas de segurança mudou desde 2003. O livro permanece como documento de época e como modelo de livro-reportagem de longo fôlego.


