Domingos de Oliveira chegou ao longa-metragem em 1966 com uma comédia sobre um conquistador que precisa escolher entre a vida de solteiro e a mulher que ama. Todas as Mulheres do Mundo saiu do Festival de Brasília premiada nas categorias de melhor filme e melhor direção — e transformou o engenheiro que nunca exerceu a profissão em um dos autores mais originais do cinema, do teatro e da televisão brasileira.
Domingos José Soares de Oliveira nasceu no Rio de Janeiro em 28 de setembro de 1936 e morreu na mesma cidade em 23 de março de 2019, aos 82 anos, depois de conviver por anos com o mal de Parkinson. Ator, dramaturgo, cineasta e poeta, ele atravessou quase seis décadas de produção e assinou mais de cem obras entre cinema, teatro e televisão.
Quem foi Domingos de Oliveira
Antes de virar cineasta, Domingos era um rapaz formado em engenharia elétrica que preferia os palcos à carreira técnica. Entrou para o teatro em 1963 com "Somos Todos do Jardim de Infância", texto de sua autoria que montou na varanda do apartamento e que virou sucesso de crítica. A peça lançou a própria carreira e também a de sua então mulher, a atriz Leila Diniz.
Na mesma época, trabalhou como redator na revista Manchete e foi convidado a organizar a programação da TV Globo, que estrearia em 1965. Foi o segundo produtor contratado pela emissora e chegou a produzir e dirigir o "Show da Noite". Pouco depois, migrou de vez para o cinema, sem abandonar o teatro e a televisão — os três territórios em que sua obra se espalhou.
Como o cineasta apareceu
Antes de dirigir o primeiro longa, Domingos foi assistente de direção de Joaquim Pedro de Andrade em "Manuel Bandeira, O Poeta do Castelo" e no curta "Couro de Gato", de 1962, que integra o filme "Cinco Vezes Favela". A experiência abriu caminho para "Todas as Mulheres do Mundo", estrelado por Leila Diniz no papel de Maria Alice.
O filme fez sucesso de crítica e de público enquanto o cinema brasileiro vivia a efervescência do Cinema Novo. Enquanto o movimento liderado por Glauber Rocha apostava no debate político e estético, Domingos seguia um caminho próprio, mais próximo de François Truffaut, interessado nas relações amorosas e de amizade sempre atravessadas pelo humor. Na fase madura, a imprensa passaria a associá-lo a Woody Allen, por causa dos diálogos entre a ironia e a erudição.
Vieram então "Edu, Coração de Ouro" (1968), que rendeu prêmio de atuação a Paulo José, "As Duas Faces da Moeda" (1969), "É Simonal" (1970) e "A Culpa" (1971), reconhecido no Festival de Barcelona pela fotografia. Nos anos 1970 e 1980, a produção cinematográfica diminuiu, e Domingos passou a se dedicar mais a roteiros de televisão, casos das séries "Ciranda, Cirandinha" (1978) e "Amizade Colorida" (1981).
Teatro, TV e Canal Brasil
No teatro, Domingos dirigiu peças e atrizes como Marília Pêra e Fernanda Montenegro, e assumiu a direção do Teatro do Planetário, no Rio, onde colocou em cartaz textos próprios. "Amores" marcou essa fase e recebeu o Prêmio Shell de melhor texto em 1996. Dois anos antes, "Confissões de Adolescente", escrita por sua filha, Maria Mariana, virou série dirigida por ele na TV Cultura entre 1994 e 1996, com passagem posterior pela Band.
Na televisão, atuou em "As Noivas de Copacabana" (1992), escreveu "Contos de Verão" (1993) e apareceu em "JK" (2006). No Canal Brasil, comandou por anos programas que chamava de jornalismo autoral: "Todas as Mulheres do Mundo", "Todos os Homens do Mundo" e "Swing", todos em parceria com a atriz Priscilla Rozenbaum, com quem foi casado por 38 anos.
Amores, Separações e a maturidade no cinema
Depois de duas décadas sem filmar, Domingos voltou em 1998 com "Amores", longa sobre um grupo de amigos e suas histórias amorosas. O filme levou os prêmios da crítica, do júri e da audiência no Festival de Gramado e o prêmio de melhor roteiro da APCA. Em "Separações" (2002), dirigiu e atuou ao lado de Priscilla Rozenbaum, com Maria Ribeiro no elenco; o longa venceu como melhor filme e garantiu a Domingos o prêmio de melhor ator no Festival de Mar del Plata, em 2003.
A partir dali, emendou uma sequência de obras sobre afetos: "Feminices" (2004), "Carreiras" (2005), "Juventude" (2008) — premiado em Gramado nas categorias de direção e roteiro —, "Todo Mundo Tem Problemas Sexuais" (2008), "Primeiro Dia de um Ano Qualquer" e "Paixão e Acaso" (2012). Em "Infância" (2015), adaptou sua peça "Do Fundo do Lago Escuro" para um drama de família estrelado por Fernanda Montenegro.
Seu último longa lançado foi "Barata Ribeiro, 716" (2016), vencedor de melhor filme e melhor direção em Gramado e considerado pela crítica a terceira parte de uma trilogia iniciada em "Todas as Mulheres do Mundo" e "Edu, Coração de Ouro". O filme retrata o ambiente festivo da zona sul carioca e saiu como seu 18º longa-metragem.
Livros: a dramaturgia publicada
A obra de Domingos também chegou às livrarias. "Melhor Teatro Domingos Oliveira" (Global Editora), volume organizado por Sábato Magaldi e João Roberto Faria, reúne quatro peças do autor. Em "Minha Vida no Teatro" (LeYa, 2010), ele mistura memórias e textos teatrais, com comentários sobre montagens, escolha de atores e bastidores de uma carreira de quase cinquenta anos. Já "Vida minha" (Record, 2014) é a autobiografia em que ele revisita a infância, os amores e os amigos que atravessaram sua trajetória.
Em 2015, lançou pela Record o primeiro romance, "Antônio: o primeiro dia da morte de um homem", em que um professor e roteirista encara o fim de um casamento longo e dois novos amores. Quem quiser se aprofundar na dramaturgia nacional pode ainda navegar pela tag de literatura e encontrar outras vozes da mesma tradição.
Prêmios e reconhecimento
- Festival de Cinema de Brasília (1966): melhor filme e melhor direção por "Todas as Mulheres do Mundo".
- Festival de Gramado: prêmios da crítica, do júri e da audiência por "Amores" (1998); melhor diretor e melhor roteiro por "Juventude" (2008); melhor roteiro por "Primeiro Dia de um Ano Qualquer" (2013) e por "Infância" (2014); melhor filme e melhor direção por "Barata Ribeiro, 716" (2016).
- Prêmio Shell de melhor texto por "Amores" (1996) e indicações como autor, diretor e ator por "Separações" (2000).
- Grande Prêmio do Cinema Brasileiro: troféu Grande Otelo Honorário (2014).
- Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: Prêmio Leon Cakoff (2012).
A morte e o que ficou
Domingos de Oliveira morreu em casa, no Leblon, em 23 de março de 2019. Deixou a mulher, Priscilla Rozenbaum, a filha, Maria Mariana, e quatro netos. No velório, no Teatro Maria Clara Machado, amigos e artistas se despediram de um autor que tratava o amor e a amizade como matéria-prima.
Em 2015, "Todas as Mulheres do Mundo" entrou na lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Sua obra segue disponível em livrarias, festivais e plataformas, e o conjunto de filmes, peças e livros mantém viva a voz de um cineasta que dizia: "Não sou rico, não sou gênio. Mas sou forte no amor. É vocação: amo muito".





