Donizetti Adalto dos Santos foi um jornalista, escritor e apresentador de televisão que fez do Piauí o palco de uma carreira curta e intensa, marcada por denúncias de corrupção, por bordões que entraram no vocabulário local e por uma morte violenta que interrompeu sua primeira campanha eleitoral. Ele foi assassinado na madrugada de 19 de setembro de 1998, em Teresina, aos 39 anos, quando concorria a uma vaga de deputado federal pelo PPS.
Nascido em Mandaguari, no norte do Paraná, em 7 de janeiro de 1959, Donizetti começou na televisão ainda jovem, em Maringá, e chegou ao Piauí no fim da década de 1980. Foi na então TV Timon e depois na TV Meio Norte que ele se tornou um dos nomes mais conhecidos da televisão piauiense, em dupla com o também paranaense Carlos Moraes. O jeito direto, o humor de rua e a disposição para confrontar autoridades garantiram a ele popularidade e inimigos na mesma medida.
Quem foi Donizetti Adalto?
Donizetti Adalto nasceu em uma família humilde e passou parte da adolescência em Jandaia do Sul, no Paraná, onde foi amigo de juventude do apresentador Ratinho. Os dois participavam de peças de teatro de autoria própria e de partidas de futebol na cidade antes de seguirem caminhos diferentes na comunicação.
Ainda no Paraná, no fim dos anos 1970 e no início dos anos 1980, Donizetti trabalhou na TV Cultura de Maringá, onde aprendeu o ofício que o levaria para o Piauí. No estado, integrou o Sistema Meio Norte de Comunicação e formou com Carlos Moraes uma das duplas mais lembradas da televisão local.
Entre 1987 e 1989, os dois apresentaram o Comando do Meio Dia na então TV Timon. Depois, Donizetti passou pela TV Pioneira — hoje TV Cidade Verde — e pela TV Ribamar, em São Luís, antes de voltar a Teresina. No início dos anos 1990, montou o jornal Comando, publicação de tom combativo que fez oposição ao governo de Freitas Neto, entre 1991 e 1994.
Como Donizetti Adalto ficou conhecido no Piauí?
A partir de 1995, Donizetti apresentou o MN 40 Graus, na TV Meio Norte, programa que misturava jornalismo, prestação de serviço e opinião e que o transformou em fenômeno popular. Era ali que ele denunciava o que chamava de máfia e criava bordões como “Morro e não vejo tudo” e “Cristo está voltando”, além de expressões que caíram no gosto do público, como “gatunagem”, “tatú societi” e “mamismo”.
Em 1998, ele foi afastado do programa depois de se desentender e quase brigar ao vivo com o então deputado estadual Leal Júnior. Segundo denúncias da época, as empresas do grupo de comunicação chegaram a proibir a menção ao nome do jornalista, e as imagens do MN 40 Graus com ele na apresentação foram recolhidas ao arquivo morto. O material só foi recuperado em 2019 e reapresentado ao público no programa Arquivo MN, da TV Jornal Meio Norte.
O que aconteceu com Donizetti Adalto em 1998?
Naquele ano, Donizetti disputava sua primeira eleição: era candidato a deputado federal pelo PPS e aparecia entre os nomes mais citados nas pesquisas do estado. Na madrugada de 19 de setembro de 1998, voltando de um comício, ele foi abordado e assassinado na Avenida Marechal Castelo Branco, na zona norte de Teresina, quando estava no carro do companheiro de chapa, o advogado e então vereador Djalma da Costa e Silva Filho.
O crime teve grande repercussão. A Polícia Federal ajudou a Polícia Civil do Piauí nas investigações, e ex-policiais civis, um estudante de Direito e o próprio Djalma Filho foram indiciados. O vereador teve o mandato cassado por quebra de decoro parlamentar. Três envolvidos foram condenados a penas superiores a 19 anos de reclusão; Djalma Filho, apontado pelo Ministério Público como mandante, foi a júri popular em abril de 2022 e absolvido pelo Conselho de Sentença por quatro votos a um.
Nas eleições de 1998, o nome de Donizetti recebeu cerca de 47 mil votos como forma de protesto, mas o Tribunal Regional Eleitoral do Piauí considerou os votos nulos. A comoção popular acompanhou o cortejo fúnebre do Ginásio Verdão até o cemitério Jardim da Ressurreição, e um monumento com busto foi erguido na avenida onde ele foi morto — ponto de homenagens até hoje. O episódio se tornou um dos mais lembrados da política do Piauí.
Quais livros Donizetti Adalto escreveu?
Antes de virar personagem de biografia, Donizetti Adalto escreveu os próprios livros, títulos que se somam à literatura produzida no Piauí nas últimas décadas. Entre as obras dele estão:
- A Máfia dos Bebês
- Anorgasmia, a tragédia das mulheres
- Diálogo Franco
- Eu fui o anticristo
- Fel e Mel
- Nelso Vettorello: retrato de um homem sem medo
- Rasgando a Fantasia
Em 2014, a trajetória dele ganhou uma biografia em livro, O Cão de Guarda Donizetti Adalto, assinada por Idoval Graco, que reconstrói a vida do jornalista sem reduzi-lo ao rótulo de herói ou de vilão.
Por que Donizetti Adalto ainda é lembrado?
Mais de 25 anos depois do crime, o nome de Donizetti Adalto continua presente na memória do Piauí. Os bordões dele viraram expressões populares, o monumento na Avenida Marechal Castelo Branco permanece como ponto de homenagens e as imagens do MN 40 Graus voltaram a circular em acervos de TV e canais de memória.
Em 2023, os 25 anos do assassinato voltaram às notícias quando a Justiça suspendeu a exibição de um documentário sobre o caso, produzido pelo jornalista Erlan Bastos e que seria exibido pela TV Meio Norte. O episódio mostrou que a história do apresentador — entre a popularidade, a polêmica e as disputas judiciais — segue viva na televisão e na política piauiense.


